Manuel Fernández, o estilista que trocou os desfiles por vestidos que falam sobre o ambiente

Deixou as passerelles e passou a expor o vestuário em museus a pensar no ambiente: os desenhos são sobre as alterações climáticas e só são permitidos materiais reciclados. A maioria das telas já foram cortinas de hotel. "Percebi que tinha de contar outras histórias e fazer denuncias", diz ao DN, à margem da Cimeira do Clima das Nações Unidas que acontece em Madrid até dia 13.

Manuel Fernández López tem 57 anos e trabalha como estilista desde 1983. Foi o primeiro espanhol a pisar a passerelle da Fashion Week de Nova Iorque, onde mostrou as suas criações durante cinco anos. Há duas décadas decidiu mudar de rumo e começou a expor em museus nacionais e estrangeiros; as suas obras são para contemplar, para refletir e, de preferência, para agir. Os desenhos - feitos por artistas plásticos europeus em cima de vestidos brancos - falam sobre as alterações climáticas, o seu novo tema de eleição.

Começou por ser apenas uma campanha contra a extinção da alga posidonia, na ilha espanhola de Formentera. "As pessoas estavam a reclamar por causa do desaparecimento da alga e da mudança que isso provocava na cor da água, que deixou de ser transparente", recorda Manuel Fernández, que queria juntar a sua voz à da comunidade. Por isso, pediu ao artista plástico Alfonso Cruz para usar um vestido como tela para expor a situação ambiental. Alfonso foi para baixo de água com tintas e um vestido branco e pintou. Pintou o que viu em Formentera.

"Começámos a fazer este desenho para consciencializar as pessoas sobre o que se passava com a posidonia. Para mim, estas manchas representam a falta de cuidado com os oceanos." Manuel aponta para os borrões verde-água do vestido, que foi também o início de um movimento que combina a arte com a luta contra as alterações climáticas. Em 1998, o criador espanhol fundou o instituto Fashion Art, em Madrid, que já recebeu o contributo de 28 artistas plásticos europeus. Em conjunto com Manuel, desenham vestidos que denunciam crises ambientais. O resultado final tem sido exibido em museus por todo o mundo.

A fundação já organizou mais de 20 exposições em locais como o Museu Nacional de Belas-Artes de Buenos Aires (Argentina), o Museu Europeu de Arte Moderna, em Barcelona, ou em centros de exposição espalhados pela América do Norte, onde a coleção dos Oceanos já recebeu mais de três milhões de visitantes. De volta a Espanha, por estes dias, vinte exemplares encontram-se no Pavilhão Verde (dedicado a iniciativas civis) da Cimeira das Partes sobre as Alterações Climáticas das Nações Unidas (COP25), em Madrid.

Os vestidos espalhados pela zona verde evocam um planeta livre de resíduos, criticam a utilização de petróleo, o aumento da temperatura média do planeta, a diminuição das areia das praias. "Há outro vestido que tem uma leitura mais leve, é mais divertido, tem elementos que nos fazem lembrar o sol, as pessoas e é mais sexy. É um grito sobre o que se está a passar nas praias, com a diminuição da areia e o aumento do nível da água", explica o designer. "Cada traço tem uma história", acrescenta Amparo López, membro do instituto Fashion Art. "Cada artista tem a sua visão."

Mas há algo que os une a todos: a vontade de falar sobre o ambiente, uma problemática atual, mas um problema de sempre. "De alguma forma sempre me senti uma pessoa ecológica durante a minha vida, mas não havia um nome para isto. Agora há a agenda 20/30 (da ONU para o desenvolvimento sustentável), que para mim é uma bíblia, sabemos o que podemos e o que não podemos fazer. Sempre que tenho dúvidas sobre saúde, leio o que lá está escrito", confessa o estilista.

Manuel Fernández interessou-se pelos temas sociais desde que começou a criar. Antes de o ambiente dominar o seu trabalho, acompanhou mulheres recém-libertadas da prisão. Queria descobrir como eram os primeiros dias em liberdade, como se relacionavam com a família, se arranjavam ou não emprego. Eram a sua inspiração. Quando agarra num tema, envolve-se. É assim desde que saiu da Faculdade de Belas Artes de Barcelona, diz. Pouco depois começou a fazer desfiles, primeiro na cidade do arquiteto Gaudí, depois além-fronteiras. "A minha carreira como estilista foi potente, foi importante, mas agora só quero expor em museus. E este trabalho não passa despercebido. Uns gostam mais, outros menos, mas choca. O que quero é que sintam", declara.

Olimpia Monuz, uma das voluntárias do evento mundial dedicado à reflexão sobre o clima, sentiu. "Parece-me genial. É uma maneira diferente de aproveitar o que temos para produzir coisas novas." Pedro Penez, que se demorou em frente aos vestidos dos oceanos, concorda. "Os desenhos não são muito convencionais. É tudo orgânico e é bonito ver isto, faz-me lembrar o tempo em que as pessoas faziam a sua própria roupa", desabafa. É colombiano, mas vive em Glasgow, no Reino Unido, cidade que receberá a COP26 no próximo ano. Por isso, Pedro Penez, 62 anos, veio até Madrid para "analisar, ver as coisas com os próprios olhos", antes da cimeira em que serão revistas obrigatoriamente as metas do Acordo de Paris (2015) sobre as alterações climáticas. Até lá, em Madrid, continua a missão de refletir e negociar o futuro.

Reflexão em que a arte pode ter um papel e por estes dias não faltam obras espalhadas pela capital espanhola a interpelar quem passa. À porta do Museu Nacional, durante as duas semanas em que decorre a conferência na Feira de Madrid, uma bandeira virtual alusiva à descoberta do petróleo desfaz-se. Será que John Gerrard, o autor da instalação, está a ver o futuro?

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