Ciência avança contra o cancro de mama

Melhorar a eficácia da imunoterapia e conseguir travar a produção de metástases nesta doença oncológica, que mata 1500 doentes por ano em Portugal, é o objetivo de estudos realizados no Instituto de Medicina Molecular (IMM). A investigação é financiada pelo Fundo IMM-Laço.

Os projetos, em ciência, nunca estão acabados - há sempre mais qualquer coisa que é preciso perceber. Sofia Mensurado, investigadora do Instituto de Medicina Molecular (IMM) João Lobo Antunes, de 28 anos, que está a estudar processos moleculares em imunoterapia no cancro de mama, conhece bem isso. Dão-se pequenos ou grandes passos, mas a cada nova resposta surgem outras perguntas, e é preciso segui-las, em busca das respostas que hão de um dia resultar em novas terapias para tratar e curar os doentes.

É nesse ponto, com uma descoberta que deu origem a uma nova pergunta, que Sofia Mensurado está agora, depois de dois anos a estudar o papel de uma molécula chamada metionina na eficácia da imunoterapia em cancro de mama, em modelo animal.

A metionina é um componente das proteínas que tem propriedades contra o stress oxidativo nas células e que, por causa disso, combate o surgimento dos radicais livres que favorecem os tumores.

O objetivo da investigadora era perceber se a imunoterapia, um tratamento que tem tido poucos resultados em cancro de mama, poderia ter um efeito potenciador dessa terapêutica quando associada à metionina. E os resultados do seu trabalho são muito promissores: depois de dois anos de estudos no laboratório com ratinhos, sabe-se agora que a resposta é sim.

"O que descobrimos é que, se combinarmos a imunoterapia com a metionina, os tumores crescem menos do que se os tratarmos apenas com imunoterapia. E, associada a esse efeito, observamos também uma maior ativação do sistema imunitário", resume Sofia Mensurado. Só que a descoberta chega acompanhada de uma nova pergunta: porque é que isso acontece?

"Ainda não sabemos", responde a investigadora. "Não sabemos como a metionina produz este efeito benéfico, e por isso temos de investigar a questão", explica.

O que isto significa é que, para que os seus resultados possam chegar no futuro até aos doentes sob a forma de uma imunoterapia eficaz para o cancro de mama, há ainda caminho para andar. E Sofia Mensurado tenciona fazê-lo.

Nada que a atemorize. Afinal, a sua busca vem de trás, fonte de uma curiosidade mais vasta acerca dos efeitos da alimentação na saúde - e na doença. O financiamento oportuno, em 2018, por parte do Fundo IMM-Laço, que promove projetos de investigação científica em cancro de mama, acabou por lhe permitir fazer o estudo que a trouxe ao ponto em que agora está.

Financiamento IMM-Laço

O cancro de mama é o mais comum nas mulheres, com seis mil novos casos diagnosticados todos os anos em Portugal, e também causa de morte de cerca de 1500 doentes anualmente, no país.

Apesar de se ter andado muito no rastreio e na deteção precoce da doença, apesar da evolução nas terapêuticas, em cerca de 30% de todos os casos de cancro de mama, e independentemente do momento da sua deteção, continua a não haver terapias eficazes. E a imunoterapia, que tão bons resultados tem dado noutras doenças oncológicas, pouco funciona aqui, e apenas para um número muito reduzido de doentes.

A imunoterapia, que usa as armas do sistema imunitário contra os tumores, tem feito uma caminhada cheia de boas surpresas no cancro de pulmão ou no melanoma, o mais agressivo dos cancros de pele. Porque não em cancro de mama?

Sofia Mensurado lembrou-se de juntar a hipótese dos eventuais efeitos da dieta alimentar a esta equação, mas para tornar operacional a sua pesquisa escolheu uma única molécula, a metionina, um componente das proteínas que está presente por exemplo na carne, nos ovos ou nos frutos secos, entre outros, e para a qual já tinha dados preliminares positivos.

Com a sua proposta, a investigadora ganhou em 2018 um dos projetos financiados nesse ano pelo Fundo IMM-Laço, que foi criado em 2015 por aquele instituto de investigação em parceria com a Associação Laço - esta foi criada em 2011 em Portugal por Lynne Archibald e um grupo de amigas, com o objetivo de promover rastreios e deteção precoce do cancro de mama e apoiar investigação capaz de produzir novos conhecimentos e terapias em relação à doença.

Em 2015, a iniciativa evoluiu para a criação do fundo, que vive essencialmente de donativos, e que desde então já apoiou dez projetos de investigação, num total de mais de 380 mil euros.

O de Sofia Mensurado foi um deles, com resultados importantes e promissores. Mas, avisa a investigadora, "ainda não estamos em condições de traduzir os nossos dados numa terapêutica para os doentes". Para que isso venha a ser possível há muito trabalho a fazer.

"Primeiro temos de perceber o que está na origem deste efeito benéfico que observámos, da metionina na imunoterapia contra as células tumorais, trabalho com o qual vou avançar agora", explica Sofia Mensurado. Mas não bastará.

"Em seguida teremos de verificar se isso também acontece noutros modelos animais e noutros tipos de cancro de mama, uma vez que só testámos um deles, o chamado triplo negativo, que é o mais agressivo, e depois vai ser preciso ainda desenvolver uma estratégia para entregar a metionina diretamente no sistema imunitário", enumera a cientista.

Vai levar algum tempo até que todo esse conhecimento possa traduzir-se numa nova terapêutica eficaz, mas Sofia Mensurado está otimista. "Havemos de lá chegar", prevê. "Em ciência é preciso ter persistência."

Perceber o processo das metástases

A investigação continua, portanto, e não apenas a sua. Na última edição do concurso de projetos do Fundo IMM-Laço, a vencedora desta vez foi Ana Magalhães, que ganhou 50 mil euros para dois anos (2020 e 2021), para investigar o processo ainda muito misterioso de como as células tumorais entram nos vasos sanguíneos para criar as metástases, que espalham a doença a outros órgãos e conduzem à morte.

Na maioria dos casos, a mortalidade associada ao cancro de mama é justamente causada pelas metástases, que através dos vasos sanguíneos levam as células tumorais até outros órgãos, onde depois se instalam e progridem.

Resultados de estudos anteriores do Laboratório de Biologia Vascular e Microambiente do Cancro, do IMM, no qual Ana Magalhães é investigadora, sugerem que níveis elevados da lipoproteína de baixa densidade (LDL), o famoso colesterol mau, promovem a entrada das células cancerígenas no sangue. Ana Magalhães vai verificar como se desenrola esse processo.

"Vou procurar identificar moléculas que dependem da presença do LDL neste processo de produção de metástases, e a primeira experiência que vamos fazer é a de tentar bloquear a capacidade de as células tumorais se ligarem ao LDL para verificar se há menos produção de metástases", explica Ana Magalhães. "Estamos à espera de que esse bloqueio diminua o número de metástases mas temos de verificar se é mesmo assim", sublinha.

Mas há outras coisas a estudar. Desde logo a forma como as células tumorais entram na corrente sanguínea, um processo ainda muito mal compreendido.

Uma das formas como a investigadora vai abordar a questão é aliás inovadora. "Com um grupo do IMM especialista nessa área, vamos tentar usar a engenharia de tecidos para reproduzir esse processo vascular em laboratório, para perceber como ele acontece", conta Ana Magalhães.

Além disso, explica, "as células tumorais não são todas iguais e não produzem todas as mesmas moléculas", o que levanta igualmente outras possibilidades. "Será que as células que expressam mais o recetor para o LDL são as que metastizam mais?", pergunta-se a investigadora. Essa é uma das questões a que tenciona responder também no seu estudo.

Dentro de dois anos já terá resultados, sempre com o mesmo objetivo: conseguir novas estratégias para eliminar o cancro de mama e salvar doentes.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG