Um dos últimos cachalotes que foi arpoado nos Açores, em 1987.

Vida e Futuro

Caça à baleia. O Japão teria muito a ganhar se seguisse o exemplo de Portugal

Após mais de três décadas, o Japão regressou à caça comercial à baleia. Especialistas falam em "quadro negro para a conservação das populações" e numa decisão que "abre um precedente". Foi em 1987 que, pela última vez, se caçaram baleias nos Açores.

O regresso à caça da baleia pelos japoneses - que começou e já foram capturados os primeiros exemplares, após mais de três décadas de interrupção da pesca e seis meses depois de ter anunciado a saída da Comissão Baleeira Internacional (CBI) - "é preocupante", diz ao DN Mónica Silva, investigadora principal do Instituto do Mar (IMAR) da Universidade dos Açores. A decisão "abre um precedente relativamente a um acordo que tinha sido estabelecido entre as nações" no âmbito da Convenção Internacional para a Regulação da Atividade Baleeira, diz o biólogo Luís Freitas, representante de Portugal na CBI.

Para estes especialistas, o Japão teria muito a ganhar se seguisse o exemplo de Portugal. Ter um "meio marítimo saudável e os ecossistemas a funcionar em pleno" são algumas das vantagens que aponta, além da exploração dos recursos para a atividade turística através do whale whatching, a observação das baleias. Foi o que Portugal fez e com sucesso.

A última vez que se caçaram baleias foi em 1987, nos Açores. Um ano após a entrada em vigor da moratória da atividade imposta pela CBI. "Foram cerca de dois ou três cachalotes." Tratou-se de "uma ação de protesto" dos baleeiros, que viam com preocupação o seu futuro. A Madeira, recorda Luís Feitas, deixou a caça à baleia em 1981.

"Temos populações de cachalotes em bom estado, uma atividade turística a crescer, quer nos Açores quer na Madeira, com bastante impacto socioeconómico local. Tem vantagens consideráveis, além da importância destes animais nos ecossistemas", destaca o biólogo. Os japoneses decidiram-se por outro caminho e juntam-se, assim, à Islândia e à Noruega, os únicos países com quotas de pesca com fins comerciais, e vai capturar até ao final do ano 227 baleias.

O Japão aproveitava uma cláusula na regulamentação para capturar um determinado número de exemplares para "fins científicos", mas agora retomou a atividade baleeira comercial, o que significa que deixaram de caçar na Antártida "em áreas que eram mais reservadas", explica Luís Freitas. Esta decisão representa, apesar de tudo, uma "vantagem para as populações da Antártida", mas a pressão passa agora para as águas territoriais e sob a jurisdição japonesa. "Esperemos que esta decisão do Japão não seja depois seguida por outros países", afirma o comissário de Portugal na CBI.

A questão é também "ver até que ponto o Japão fará a caça às baleias tendo em conta os princípios de sustentabilidade das populações". O compromisso foi feito nesse sentido, diz. "Afirmaram que vão fazê-lo e por isso esperamos que efetivamente isso aconteça", deseja o especialista.

Caça às baleias representa mais uma ameaça

Mónica Silva, investigadora do Instituto do Mar da Universidade dos Açores, considera que o regresso da caça comercial à baleia representa mais uma ameaça às populações destes animais que enfrentam uma realidade bem diferente de quando a CBI impôs uma moratória à atividade - a suspensão entrou em vigor em 1986.

Os níveis de ameaças aumentaram e Mónica Silva dá como exemplo "as capturas acidentais com aparelhos de pesca, as colisões com embarcações, a poluição, o ruído, a alteração ou sobre-exploração dos recursos e dos ecossistemas, a degradação do habitat", bem como "a produção de plásticos".

A especialista considera que "os efeitos cumulativos e multiplicativos dessas ameaças são enormes e juntam-se à questão da exploração e da mortalidade direta pela caça", sublinha. Uma realidade "que não existia aquando da moratória da caça à baleia".

Luís Freitas também partilha a preocupação de Mónica Silva. "O que se passa é que os oceanos e os ecossistemas marinhos estão pressionados pela atividade humana, desde a sobrepesca ao lixo marinho", diz. Ameaças que têm consequências em termos de mortalidade destes animais. "Somando essas mortes a uma retoma da caça comercial à baleia, isso poderá constituir uma ameaça para algumas populações, sim. É um problema potencial", assume o representante português do CBI.

Perante este cenário, Mónica Silva afirma que "podemos ter aqui um quadro muito negro para a conservação destas populações".

Atividade económica viável para o Japão?

Outra questão que se coloca nesta decisão está relacionada com sustentabilidade económica da caça à baleia, que agora passa a ser comercial no Japão. De acordo com o biólogo português, este vai ser um dos desafios dos japoneses nos próximos anos. Esta era, aliás, a justificação que o Japão apresentou na Comissão Baleeira Internacional quando expôs a proposta de atividade comercial que acabou por não ser aprovada e que resultou na saída do país deste organismo, em dezembro do ano passado.

"A justificação que eles colocavam era poderem colocar no mercado a carne de baleia para consumo humano, mas a verdade é que a procura não é muito grande", explica Luís Freitas. Aliás, a atividade baleeira no Japão era subsidiada pelo Estado.

Observação das baleias nos Açores tornou-se muito mais rentável do que a caça

Nos Açores, economicamente, esta atividade não era sustentável. "A espécie que era caçada, o cachalote, não era utilizada para comer, mas sim para óleos, farinhas. Havia uma série de produtos alternativos muito mais baratos e do ponto de vista ambiental com menos impacto. E o negócio foi morrendo por si", explica a investigadora.

De acordo com Mónica Silva, a caça no arquipélago sempre foi muito artesanal comparada com o que se fazia a nível mundial. Os grandes navios baleeiros usados, por exemplo, no Japão, nunca existiam nos Açores. "A caça era feita com recurso a pequenos barcos e arpões manuais e sempre foi uma atividade complementar para as populações locais, nomeadamente a pesca e a agricultura, que eram o principal sustento económico dos açorianos", esclarece.

Em contraponto, a atividade de whale watching que surgiu depois da entrada em vigor da moratória é, segundo Mónica, "muito mais rentável do que foi a caça à baleia na região. Tem um retorno muito maior".

É possível mudar mentalidades, diz investigadora

Foi logo em 1987, que o navegador francês Serge Viallelle, com a ajuda de João Vigia, fundou a primeira Base de Observação de Cetáceos dos Açores, nas Lajes do Pico. Foi o arranque de uma atividade que caracteriza atualmente o turismo na região. "Hoje em dia, há um negócio à volta disto e uma imagem icónica dos Açores como destino turístico e destino ambientalmente sustentável", destaca Mónica Silva.

Portugal soube fazer a transição sem deixar de apostar nos recursos naturais ao manter "toda a cultura associada ao cachalote e até à própria caça", refere a especialista. Um exemplo que deve ser seguido por outros países onde a caça à baleia ainda faz parte do quotidiano de algumas comunidades. "Este tipo de alteração, até de mentalidades e de culturas, é possível ser feito no mundo. Leva o seu tempo, mas é possível."

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