No espelho da Torre Bela

O genial marquês de Condorcet (1743-1794) foi autor, durante a Revolução Francesa, da primeira Lei de Instrução Pública universal alguma vez escrita. Nela podemos ler: "A piedade para com os animais possui o mesmo princípio que a piedade para com os homens." A crueldade para com os animais indica alguém vil, perto de quem será prudente nunca baixar a guarda. Uma das imagens mais chocantes do "massacre" da Torre Bela é a de uma criança ao lado de um adulto, presumivelmente seu pai, no meio de uma sinistra paisagem juncada de animais abatidos. Veados, gamos e javalis que foram chacinados, sem hipótese de fuga, contra os muros da herdade.

Lembrei-me de que no início do Holocausto, antes de o genocídio ser industrializado, os judeus eram conduzidos para o parapeito de grandes valas comuns, que eles próprios tinham escavado, para ficarem na mira de metralhadoras pesadas manipuladas por soldados dos Einsatzgruppen das SS. Foi assim que, em setembro de 1941, em Babi Yar, perto de Kiev, 33 771 judeus foram massacrados em 48 horas. Quantos desses assassinos fardados não aprenderam a sentir gratificação com o sofrimento alheio, através do maltratar de animais?

Torre Bela não é apenas um ícone revelador da profunda desigualdade moral reinante entre os homens. Há uma distância abissal entre a santidade de poucos e a miséria moral de muitos, tendo pelo meio a oscilante mediocridade da imensa maioria. Torre Bela é também uma metáfora da triste realidade deste Portugal, que ostenta o seu europeísmo como a máscara onde disfarça o desmazelo das suas elites. Os torcionários da Torre Bela, "clientes" vindos de Espanha, exultavam nas redes sociais com a sua orgia sangrenta na savana lusitana, do mesmo modo como no passado colonial se narravam os safaris africanos, onde "fartar vilanagem" servia de lema.

Lamentavelmente, a transformação de Portugal numa espécie de zona franca europeia em tudo o que se refere à proteção dos ativos ecológicos parece estar a transformar-se no nosso modelo de "desenvolvimento", já prevalecente mesmo antes da pandemia.

Os exemplos são numerosos, e em todos eles o Ministério do Ambiente ou chega tarde ou é descaradamente cúmplice: o novo aeroporto do Montijo, violando não só toda a legislação ambiental como também a avaliação de risco para as aeronaves e o mais elementar bom senso económico. Na agricultura, são cada vez maiores as áreas do território nacional que entram no mercado mundial do "açambarcamento de terra" (land rabbing), submetidas a monoculturas intensivas, destruidoras do solo, em troca de trinta dinheiros dos fundos abutres de capital especulativo, especializados em desertificar solos aráveis. No assalto ao território, a "lavagem verde" (greenwashing) é a nova frente propagandística.

Este governo prepara-se para acolher o prejuízo do ciclo do novo volfrâmio, autorizando concessões europeias e norte-americanas, gulosas pelo lítio que se encontra no nosso subsolo. Populações vão ser afastadas dos seus territórios, biodiversidade ameaçada, ecossistemas poluídos e devastados, paisagens desfiguradas.

Portugal disfarça a impotência do Estado com um governo falador, enquanto delapida e aliena o seu capital natural, raiz vital da nossa sobrevivência e continuidade como povo. Um país que não tem amor-próprio e se comporta servilmente não pode merecer o respeito alheio. Nem queixar-se daqueles que o procuram como o lugar onde todos os excessos são possíveis.

Professor universitário

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