Restaurantes e praias abrem com novas regras – mas dificilmente salvam o turismo

Volta a praia a 6 de junho, com mais bom senso do que regras. Mas portugueses não chegam para ressuscitar turismo. 20% dos restaurantes não abrem.

A bater novos recordes todos os anos, o turismo em Portugal foi assumindo mais peso na economia, chegando em 2019 a cerca de 15% do PIB. Os números de janeiro e fevereiro não sugeriam sinais de turbulência, mesmo com o espetro do novo coronavírus a assombrar já o negócio - as unidades de alojamento turístico registavam o maior número de hóspedes, dormidas e proveitos desde 2013, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística. E depois veio março. Covid e confinamento arrastaram tudo para um buraco negro tornando este primeiro trimestre de 2020 no pior desde 2016. De janeiro a março, o alojamento turístico teve 3,7 milhões de hóspedes, com proveitos totais de 469,5 milhões - pior só há quatro anos. E se olharmos para as dormidas é preciso recuar mais um ano para encontrar valor mais fraco do que as atuais 8,9 milhões de dormidas até março.

Segunda-feira há luz verde para reabrir restaurantes, cafés, museus e mais lojas, no fim do mês voltam o futebol (sem público) e os espetáculos, e a época balnear tem data para arrancar a 6 de junho. Mas se António Costa vincou ontem que nas praias tem de haver mais bom senso do que imposição - "temos de nos fiscalizar a nós próprios, o acesso será feito com liberdade para gozarmos as férias merecidas depois deste período" -, no comércio e restauração as restrições são tantas que dificilmente conseguirão recuperar neste verão. Com os apoios parcos e demorados, muitos empresários não têm capacidade financeira para responder às medidas obrigatórias - ainda menos com a casa a meio gás, dadas as obrigações de espaçamento.

Reabertura comprometida

"É como se estivéssemos a abrir um novo restaurante", diz António Querido, diretor-geral do SeaMe Group, sobre as novas regras e a experiência com que os clientes se vão deparar quando forem ao Soão ou ao Prego da Peixaria. Nos restaurantes de Alvalade, os clientes terão de se habituar à máscara, à higienização e a fazer o pedido via ementa digital ou descartável.

Também McDonald"s e Burguer King já indicaram que vão abrir as salas de parte dos seus restaurantes, mas pelo menos 20% dos estabelecimentos de restauração e alojamento já avisaram que não têm condições para abrir portas na próxima semana. "O grande constrangimento tem que ver com a limitação da capacidade a 50%", explica Ana Jacinto, secretária de Estado da AHRESP. A redução "é um ponto muito crítico que compromete mesmo a rentabilidade do espaço e impede a abertura de muitos".

Praia ajuda o turismo... mas pouco

Os primeiros meses do ano são normalmente fortes no turismo de negócios e a Páscoa e o 13 de Maio em Fátima chamarizes que potenciam o setor antes de chegar o calor. Mas não neste ano, com país e fronteiras fechadas. Pelo que se prevê que os números de março piorem no próximo trimestre. Pode o sol ajudar a inverter a curva com os habituais milhares de visitantes no verão? Dificilmente.

Dois dos maiores grupos hoteleiros (Pestana e Vila Galé) preparam-se para abrir algumas unidades em junho, acompanhando o arranque da época balnear, mas chegar aos areais não será tão simples - ou atraente para muitos. O Conselho de Ministros aprovou ontem as medidas de acesso às praias e até aposta, nas palavras do primeiro-ministro, na "auto-fiscalização". Mas fica a ressalva: "É essencial compatibilizar o acesso livre à praia com cuidados obrigatórios, temos de nos organizar e proteger mantendo normas de distanciamento e etiqueta respiratória", vincou António Costa.

E isso passa por distâncias mínimas - metro e meio entre grupos na praia; chapéus e toldos a três metros uns dos outros, com um máximo de cinco pessoas cada e alugados por meio dia; futebol, raquetes e outros desportos interditos. Haverá ainda um semáforo (infopraia) para ajudar a perceber que praias estão cheias - logo são desaconselhadas - e o estacionamento fica restrito a parques. "Sentido cívico e responsabilidade" vão regrar a época balnear, mas fica o aviso: "Se houver excessos, haverá praias interditadas." Será suficiente para salvar o turismo na época alta? Dificilmente, mesmo porque ainda não é claro quando é que a aviação civil vai estar a operar com normalidade - não é crível que aconteça em 2020 - e o turismo nacional não fica nem perto de conseguir responder aos níveis de 2019.

Adaptação difícil e cara

A restauração emprega cerca de 240 mil pessoas mas aos restaurantes que vão abrir, com salas meio vazias, só parte dos trabalhadores regressará, pelo que a AHRESP defende a necessidade de o governo estender o lay-off simplificado. O inquérito ao setor revela que 67,5% das empresas não conseguirão pagar salários em maio sem esse apoio que está aplicado a mais de metade (59%) das 75 mil empresas da área. António Querido admite que a limitação da lotação é um constrangimento, em particular para os mais pequenos. "No caso do Soão temos uma limitação total de 50 lugares, o que significa que vamos poder receber 28 pessoas. É muito pouco para manter a operação", diz o diretor-geral do SeaMe.

"Os restaurantes têm de dar um passo e mostrar que estão cá, mas esta é uma realidade que terá de ser revista pelo governo." Para mitigar o impacto dos limites de lotação, considera que sentido aumentar ou abrir sem custos as esplanadas. "Tendo em conta o peso do setor no tecido empresarial de Lisboa, fazia sentido mas ainda não temos informação nesse sentido." O grupo manteve quatro dos restaurantes a funcionar em take away e entregas através da Glovo e da UberEats, ocupando 50 trabalhadores e pondo 200 em lay-off. Os trabalhadores irão regressar "à medida que formos reabrindo".

Até aqui, a McDonald"s funcionava em drive-trough e entregas, agora vai abrir 130 dos 172 restaurantes no país. O número de clientes será limitado, os lugares intercalados, os pedidos feitos no quiosque digital ou balcões de atendimento, onde se realiza o pagamento e levantamento - "devidamente protegidos por barreiras acrílicas e tendo sido instituídos procedimentos de entrega e pagamento que evitam o contacto entre colaboradores e clientes", informa a empresa. Há ainda muito gel desinfetante e máscaras na equação, custos para os quais as empresas poderão vir a obter algum apoio: em vigor está já o diploma que permite às pequenas e médias empresas (PME) de todos os ramos de atividade com até 250 colaboradores e volume de negócios anual até 50 milhões/balanço anual abaixo de 43 milhões apresentar despesas feitas a partir de 18 de março. Estas são comparticipadas num mínimo de 5 mil euros e num máximo de 40 mil.

Quanto às rendas não há novidades além da moratória. "A partir de julho, vai ser muito difícil ter de pagar sem adiamento, com lotação reduzida e receita a metade."

Jornalistas do Dinheiro Vivo

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