Quem tem medo do Brexit? Portugal já passa ao lado do choque

Abanou mas não caiu, e até recuperou. O brexit fez temer o pior para a economia portuguesa, mas as empresas souberam trocar-lhe as voltas.

Até parece que foi ontem. Mais de três anos após uma votação que deu origem a incertezas e trocas de acusações em praça pública, Reino Unido e União Europeia seguem, por fim, cada um para seu lado. Temeu-se o caos nos mercados, o fecho de empresas e o despedimento de milhares. Mas o divórcio termina com uma tranquilizadora separação parcial de bens. Em Portugal, o choque inicial deu lugar a um encolher de ombros. Afinal, nem tudo o brexit levou.

Há um ano, temia-se o aumento do desemprego no Tâmega e Sousa, a região mais exposta ao adeus britânico. Hoje, as conclusões são outras. Nos últimos meses, o brexit infligiu, sobretudo, "um dano de confiança" na região. Resultado: deixou de se investir nas ilhas britânicas. As fábricas junto ao Tâmega até aumentaram as exportações.

Apesar de algumas perdas no calçado, as vendas para fora subiram 1,5% até novembro último, atingindo mais de 1,5 mil milhões de euros. A diferença agora está no destino das exportações. Paulo Dinis, diretor do Conselho Empresarial do Tâmega e Sousa (CETS), diz que o Reino Unido é agora "um mercado cada vez mais desconsiderado"."Houve um redirecionamento. As ilhas britânicas já não são um mercado prioritário e imprescindível para algumas das empresas".

Mudou também o investimento em programas de internacionalização. No caso do CETS, por exemplo, o programa de exploração de mercados, com apoio da AICEP e a envolver 25 empresas exportadoras, já riscou o mercado britânico do mapa para os próximos três anos. Para outros efeitos, vai ser preciso esperar pelos primeiros tempos do isolamento britânico.

"Vamos ter sinais mais claros, quer em termos de consequências económicas do brexit quer em termos de reposicionamento das empresas noutros mercados", admite Paulo Dinis. E, depois, é esperar para ver como ficará a futura pauta aduaneira das ilhas frente ao mercado europeu, num processo que se adivinha também demorado, para perceber se vale a pena voltar a apontar investimento ao lado de lá da Mancha.

Para já, o Canal tem registado mais movimento no sentido inverso. Desde que os empresários britânicos começaram a fazer contas à saída, foram vários os que decidiram rumar, pelo menos parcialmente, a outras paragens. E algumas escolheram Portugal. Os dados do Observatório de Investimento Direto Estrangeiro do Financial Times mostram que, entre maio de 2017 e outubro de 2019, Portugal atraiu 39 projetos do Reino Unido, que criaram 2372 postos de trabalho e totalizaram um investimento de 622 milhões de euros.

Sapatos e metais imunes

Para o calçado, "o brexit começou há 20 anos", diz o diretor de comunicação da APICCAPS, a associação do sector. Paulo Gonçalves refere-se ao momento em que a C&J Clarks deslocalizou a produção para a Ásia e levou ao desaparecimento de quase quatro mil postos de trabalho em Portugal. Na altura, o Reino Unido valia mais de 350 milhões de euros, representando cerca de 30% das exportações nacionais de calçado. Era o segundo maior destino, a seguir a França. Hoje, o mercado inglês vale 120 milhões e assegura, apenas, 6% das exportações do setor. É o quinto destino do calçado nacional, com os Estados Unidos a aproximarem-se a passos largos.

E se até ao final do ano está garantido que nada muda na rotina das empresas exportadoras, o calçado tem "fundadas expectativas" de que, no futuro, a situação se mantenha. "A informação que temos é que a primeira proposta do Reino Unido à União Europeia não previa que o setor do calçado fosse penalizado. Mesmo num cenário de hard brexit não iria passar a pagar taxas. Agora, inicia-se uma nova fase no processo negocial a as nossas expectativas é de que isso se mantenha", diz o responsável da APICCAPS.

Tal como no calçado, também nos têxteis e vestuário os EUA estão em vias de ultrapassar o Reino Unido. Até novembro, Portugal vendeu 364 milhões de euros em têxteis para o mercado britânico, menos 1,9% que em igual período de 2018. Este é o quarto maior destino de vendas do setor, mas tem vindo a perder gás desde 2016. O brexit é uma das razões mas não é a única.

"Há uma tendência de procura de produtos de preço mais baixo, oriundos sobretudo da Ásia, mas não só, também da Turquia, do Paquistão e do Egito, entre outros", diz o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. Às empresas portuguesas compete mostrar que têm produtos inovadores, de melhor qualidade, o que os torna mais duradouros e mais sustentáveis. "Como se costuma dizer, o barato sai caro", acrescenta Mário Jorge Machado.

Sobre o brexit, é a incerteza sobre o que se vai seguir que mais preocupa os empresários. "Estamos numa fase muito preliminar sobre o que vai ser acordado entre o Reino Unido e a UE, esperemos, apenas, que não venham a ser impostas limitações ao livre comércio. Só a existência de uma alfândega já vai implicar um aumento da burocracia para as empresas", sublinha.

Também no reino dos metais, o mercado britânico continua a valer ouro. É o quarto maior destino da indústria metalúrgica e metalomecânica nacional, que viu as exportações praticamente duplicarem para este país desde 2012. E a confirmarem-se as projeções da AIMMAP, a associação do sector, este será o melhor ano de sempre para a metalurgia nacional em terras de Sua Majestade, ultrapassando os 1400 milhões de euros (ainda só há dados oficiais até novembro).

"São números que mostram que a nossa tecnologia continua a fazer sentido e que os clientes do Reino Unido continuam a procurá-la, razão porque as empresas portuguesas estão confiantes em que não haverá quebras no mercado por força do brexit", diz o vice-presidente da associação.

Rafael Campos Pereira reconhece que tudo dependerá do tratamento fiscal que vier a ser dado a estes produtos, mas admite que "não há razões para acreditar que vá haver penalizações". Portugal vende sobretudo peças técnicas para a indústria de bens e equipamentos, que não podem ser produzidas para stock, mas apenas em resposta às necessidades efetivas dos clientes.

Vizinho com copo meio vazio

Mais inebriado com os efeitos os brexit está o setor do Vinho do Porto. Grandes empresas, como a Taylor's e o grupo Symington, anteciparam exportações para fazer stocks no Reino Unido, suportando, por si próprias, esse custo. Isso explica, em parte, a subida das vendas para este mercado em 2019: mais 9%, que comparam com os 15% de quebra do ano anterior. O setor está apreensivo, como admitiu à Lusa Isabel Marrana, diretora executiva da Associação das Empresas de Vinho do Porto.

Para já existe apenas uma definição política do que vai acontecer e "falta todo o trabalho da negociação para vermos em que situação a UE vai ter o Reino Unido como parceiro comercial". Apesar de não saber para já o desfecho das negociações, a responsável admite que o vinho pode ser um "facilitador" para o debate em relação a outros produtos.

A mesma lógica tem sido seguida pelas empresas de vinhos verdes e Alvarinhos do Alto Minho. "Com receio de eventuais taxas, tem havido um aumento das encomendas como forma de se defenderem de uma eventual penalização que possa haver na forma de preços mais elevados ou, eventualmente, com interrupções na cadeia de fornecimento", diz Luís Ceia, presidente da Confederação Empresarial do Alto Minho (CEVAL).

Na mesma região, quem sentiu o pé no travão foi o setor dos componente automóveis. O Alto Minho tem mais duas dezenas de fábricas e as vendas para o Reino Unido caíram cerca de 10% até novembro. "Desde que esta incerteza toda começou, tem havido uma redução das encomendas de componentes pelas fábricas de montagem que estão no Reino Unido, como forma de se protegerem e de criarem outro tipo de relacionamentos, já que o automóvel é uma cadeia longa com efeitos dominó e longa no tempo. Qualquer mudança de projeto não se faz de um dia para o outro".

Mas se as vendas para o Reino Unido caem, têm sido amplamente compensadas por um reforço da procura na Autoeuropa e pela fábrica da PSA em Vigo, que levou à aposta de novos investidores franceses e espanhóis no Alto Minho. "Com o projeto da PSA, em parceria agora também com a FIAT, há um projeto de ampliação da fábrica. Há um aumento claro dos fornecedores e muitos desses fornecedores estão a localizar-se no Alto Minho". O Alto Minho, de resto, mantém a taxa de desemprego mais baixa do norte de Portugal, à volta dos 4%, e Luís Ceia refere inclusivamente faltas de mão-de-obra. "Muita dela já está a vir de Espanha".

Portugal, praia dos ingleses

Ao início foi como se uma onda gigante tivesse varrido a costa algarvia. Desde há décadas que o Reino Unido é o principal mercado emissor de turistas para Portugal, sobretudo para o Algarve e a Madeira. Mas a verdade é que também no setor do turismo, os receios depressa foram ao fundo.

À exceção de 2018, o número de hóspedes no Algarve tem vindo a crescer. Só nesse ano é que houve um abrandamento, reflexo da desvalorização da libra, da falência de companhias aéreas e da recuperação de mercados concorrentes.

Em 2018, de acordo com o Turismo de Portugal, o mercado britânico foi responsável por quase três mil milhões de euros de receitas, o que representa 17% do total nacional. Francisco Calheiros, líder da Confederação do Turismo de Portugal, lembra que os números de 2019 ainda não estão fechados, mas a convicção "é a de que não andará longe desta realidade".

Já Cristina Siza Vieira, CEO da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), sublinha que para a hotelaria e o turismo, o desafio daqui para a frente será "continuar a trabalhar este mercado com base nas fortíssimas ligações a Portugal e no excelente resultado que as medidas tomadas e previstas alcançaram e poderão alcançar". Até porque, como mostram os números do INE, até novembro de 2019, este mercado "continua a crescer tanto em hóspedes, onde ocupa a segunda posição, como em dormidas, onde é o principal mercado".

Em março do ano passado, o Governo criou uma linha de crédito de 50 milhões de euros para apoiar as PME expostas ao mercado britânico. A adesão foi mínima. Segundo a PME Investimentos, foi aprovado o apoio a quatro empresas, num montante total de financiamento de 2,4 milhões de euros. Cortiça, madeira, têxteis, máquinas e equipamentos foram os setores que pediram o SOS. Ainda assim, ressalva a PME Investimentos, "dado os desenvolvimentos recentes no que respeita ao Brexit e a promoção que é feita por todos os parceiros deste instrumento, antecipamos que poderá haver um maior afluxo de candidaturas nos próximos meses".

A esses próximos meses, os papéis do divórcio designam como "período de transição". Até ao último minuto de 2020, o Reino Unido permanecerá dentro da união aduaneira da UE, mas fora de qualquer tomada de decisão política. Só a partir de 2021 se dará o corte definitivo. Depois do adeus, o Reino Unido ficará a sós.

Ana Laranjeiro, Ana Sanlez, Ilídia Pinto, Maria Caetano e Paulo Ribeiro Pinto são jornalistas do Dinheiro Vivo

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