José Miguel Leonardo: "É preciso garantir que nenhum subsídio é mais vantajoso do que produzir"

José Miguel Leonardo é o CEO da Randstad Portugal.

Como antevê o retrato da saúde em Portugal?

O país vai a votos e é preciso ir votar. O direito de participar e o dever de o fazer acreditando e exigindo ao novo Governo um Portugal melhor e mais próspero. Precisamos de estabilidade governativa e de uma estratégia de crescimento que não se limite ao PRR, mas que o saiba utilizar com consequências para o futuro do nosso país. A pandemia vai se manter na lista de desafios deste ano, mas é preciso reequilibrar a relação com a economia e as atividades económicas. Reduzir alarmismos, dar espaço apenas aos especialistas para as recomendações e aprender a viver com o vírus, garantindo a proteção da vida humana e o sistema nacional de saúde. Os desafios na área do talento vão continuar a aumentar. O crescimento da adopção do trabalho remoto vai levar a que a chamada "fuga de cérebros" cresça sem necessidade de sair de casa, ao mesmo tempo que a escassez de perfis se vai manter. O problema do talento é real e não é novidade. É preciso uma estratégia focada na formação e na reconversão, assim como no aumento da atratividade das empresas e das funções. É impossível retirar da lista de desafios o salário. Precisamos de reduzir a carga fiscal sobre a remuneração para que sejam possíveis aumentos reais que não coloquem em causa a sustentabilidade das empresas e que retirem mais de 20% da população ativa no salário mínimo. É preciso garantir que nenhum subsídio é mais vantajoso do que produzir, e que a produtividade consegue finalmente ser promovida e recompensada. Desafios que não são novos, mas que temos de uma vez por todas assumir como problemas para que os consigamos resolver, exigindo ao Governo, mas também fazendo a nossa parte.

Que característica teria, para si, um governo ideal para Portugal?

Não precisamos apenas de um governo, precisamos de liderança. Liderança é muito mais do que governar, é ter a visão, a estratégia e a capacidade de influenciar e de levar as pessoas num caminho conjunto. Precisamos de um governo que não prometa, mas que se comprometa. Que faça e comunique com todas as partes interessadas, não deixando as empresas fora da equação e ouvindo muito mais, do que simplesmente decidir à porta fechada. Precisamos de um governo que saiba viver com a sua "concorrência", tal como as empresas, que tenha a capacidade de concordar reconhecendo que não vale tudo para chegar a um acordo.
Precisamos de um governo que tenha orgulho em representar Portugal e a ambição de ser cada vez melhor, um governo que é parte da solução e nunca do problema.

De que forma poderá o país voltar a colocar a economia na rota de crescimento?

O país precisa de ter uma estratégia de investimento que não se foque exclusivamente no aumento da máquina pública. O associativismo deve ser reforçado para aumentar a nossa competitividade em determinadas áreas e assim reforçar as exportações. É preciso parar a hiperprodução legislativa e garantir o cumprimento da lei. A pandemia tem de ter como consequência a digitalização de mais serviços e a simplificação do acesso, reduzindo a burocracia e aumentando a agilidade. A taxação das empresas deve ser revista de forma a aumentar a atratividade de investimento. A produtividade deve substituir o presentismo e ser compensada com o alívio da carga fiscal e com impacto direto na atração de talento.

A falta de mão de obra é um dos desafios nacionais. Que medida(s) poderá o novo governo implementar para colmatar a debilidade?

Há duas perspetivas neste problema, a primeira está relacionada com as competências e a segunda com as condições de trabalho. No caso da primeira é preciso investir em programas de atualização e reconversão de competências. Um trabalho que não pode ser feito longe das empresas, porque é preciso identificar as necessidades para que depois possam ser desenvolvidos os programas de aprendizagem. Ao mesmo tempo, a academia e as escolas têm de ganhar maior agilidade nos programas, garantindo a adequação dos conteúdos e a ligação ao mercado de trabalho. Também os gestores têm um papel na resolução do problema. É preciso que coloquem na sua estratégia de negócio as competências que vão necessitar para que possam desenvolver ações hoje e ao mesmo tempo têm de aceitar e integrar pessoas que tenham feito programas de reconversão e de
desenvolvimento de competência. Na segunda dimensão do problema as condições de trabalho. É preciso aumentar a atratividade de determinadas funções, melhorar os níveis de retribuição reduzindo a taxação de empresas e trabalhadores e ter uma estratégia de integração de mão de obra estrangeira. Para estas ações contribui também a estabilidade legislativa e a transparência e equidade remuneratória.

Lei laboral, o que deve ser mexido e o que deve ficar intocável?

A lei laboral, mais do que ser alterada precisa de ser cumprida. Cumprida nos seus pressupostos e penalizado quem não a cumpre. A constante produção legislativa sempre assombrada por redações que levantam dúvidas na execução, em nada beneficia as empresas, nem os trabalhadores, dando apenas espaço ao incumprimento e à falta de transparência. Por outro lado é fundamental deixar que o mercado funcione e que as empresas e trabalhadores tenham agilidade para gerir a sua relação, deixando cair de vez a ideia de que os "patrões" só querem prejudicar os trabalhadores.

Alterações climáticas: que contributo irá dar, a título pessoal e através da sua empresa, para colmatar esses efeitos?

A sustentabilidade é um dos pilares da Randstad que se confirmou mais uma vez com a nossa presença no índice de sustentabilidade da Dow Jones. Somos por natureza uma empresa com baixo impacto a nível ambiental, mas reconhecemos que há sempre espaço para fazer mais. Temos desenvolvido cada vez mais políticas que reduzam a nossa pegada ambiental e estamos muito ativos no contributo para o pilar social, de forma a garantir o acesso ao emprego digno e a diversidade equidade e inclusão no mundo do trabalho.

Digitalização: o que falta fazer para que Portugal seja um país mais tecnológico e competitivo?

Falta desburocratizar e aumentar a literacia digital. Temos feito um caminho mas
estamos longe de estar nos primeiros lugares. O ensino à distância e o teletrabalho obrigatório demonstraram fragilidades e revelaram um Portugal assimétrico que tem de se reequilibrar. É preciso dar competências, garantir acessos e reduzir custos num país que se quer mais tecnológico para que possa competir com os demais.

Se fosse um super-herói, qual seria?

Todos temos "super-poderes". Por vezes desvalorizados, outras vezes simplesmente
desconhecidos. Façamos uma análise, uma introspecção, para reconhecer quais são
aquelas características e competências onde nos sentimos no nosso melhor desempenho; são esse os nossos "super-poderes" que devemos que continuar a exercitar e colocar à disposição daqueles a quem podemos tocar, como um super-herói.

Qual é aquele livro/desporto/viagem/atividade que tem vindo a adiar e que
quer mesmo ler/fazer no novo ano?

Um livro: How to Build a Car de Adrian Newey. Uma autobiografia de um dos melhores
engenheiros criadores de carros de Fórmula 1. Como romper preconceitos e criar
diferenciação num sector ultra-sofisticado e hiper-competitivo.

Um luxo para si, em 2022, é?

Desfrutar da amizade, do carinho e da cumplicidade daqueles que mais queremos.

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