Isabel Camarinha: "As grandes empresas pagam hoje muito menos do que deveriam pagar"

Isabel Camarinha é a secretária-geral da CGTP-IN.

Dia 30 há eleições legislativas. Como convencer um abstencionista a ir votar?

O voto de quem trabalha e trabalhou é determinante para escolher os 230 deputados que vão ser eleitos. Dar força aos que no Parlamento defendem os interesses do trabalho, aos que têm propostas concretas com vista ao urgente aumento geral dos salários e das pensões de reforma, às 35 horas de limite máximo do horário semanal sem perda de salário, para combater a precariedade, para reforçar os SNS e os serviços públicos, para pôr Portugal a produzir, é essencial. Ao contrário do que se tenta passar "não são todos iguais". A prática e o projecto, demonstra o carácter distintivo das diferentes forças. É preciso avançar nos direitos, afirmar a soberania do país e assim elevar as condições de trabalho e de vida no nosso país. A abstenção apenas conta para manter tudo como está e o país precisa de um novo rumo. É preciso votar e, ao fazê-lo, escolher os deputados que estão ao lado dos trabalhadores e reformados nas suas justas reivindicações.

Qual a primeira medida na sua área que o governo deveria tomar?

A revogação das normas gravosas da legislação laboral, nomeadamente a da caducidade e a reintrodução do princípio do tratamento mais favorável. A par desta medida, deveria ser aumentado de forma muito mais significativa o salário mínimo nacional para que se atinjam os 850 euros no curto prazo.

E qual a primeira medida para o país, em geral?

Na nossa opinião, as medidas que propomos são parte integrante e indissociável de um novo modelo de desenvolvimento para o país. Os tempos recentes demonstram que a devolução e conquista de direitos não só não são inimigos do desenvolvimento, como são um factor que o impulsiona. Ao mesmo tempo, é fundamental apostar nos serviços públicos e, em particular, estancar a sangria a que o SNS está a ser sujeito.
Dinamizar a produção nacional é outra vertente a ser desenvolvida com a garantia de mais e melhor trabalho.

Fiscalidade: o novo governo deve baixar primeiro os impostos às famílias ou às empresas? Qual das soluções trará mais rápido crescimento ao país?

Portugal tem uma estrutura de impostos que sobrecarrega os rendimentos de quem trabalha e trabalhou para isentar os das grandes empresas. Dividendos que não pagam impostos, lucros dos grandes grupos expatriados para territórios com menos impostos ou para os paraísos fiscais, têm de ser taxados no nosso país. As empresas não são todas iguais e as grandes empresas pagam hoje muito menos do que deveriam pagar.

Na sua opinião o que seria melhor para Portugal: um governo de maioria absoluta ou de coligação entre vários partidos?

As maiorias absolutas foram e são factor de instabilidade na vida dos trabalhadores. Urge dar força aos projetos que, objectivamente, elevam com a sua intervenção as condições de vida e de trabalho no nosso país.

O PRR pode mudar o país? Qual a sua expectativa em relação à execução do PRR durante esta legislatura?

O PRR tem de ser enquadrado e integrado em outra visão para o país, que potencie o nosso crescimento e libertar-se daquilo que Bruxelas nos impõe. Deve ser aproveitado para melhorar os serviços públicos, dinamizar a produção nacional e valorizar o trabalho e os trabalhadores. A articulação destas três dimensões está ausente e deveria ser incluída.

Escolha dois ou três políticos da História de Portugal (que não sejam candidatos a estas eleições) e que continuam a ser uma inspiração para si?

A principal inspiração vem da acção colectiva, vem dos locais de trabalho, vem dos que tomam nas suas mãos a construção de um futuro melhor. Pelo contributo que deram a esta intervenção coletiva, poderia destacar, entre muitos outros, Álvaro Cunhal, Humberto Delgado e Vasco Gonçalves.

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