EUA, Ásia e Reino Unido com apetite por dívida portuguesa

Portugal avança hoje para o primeiro leilão de dívida de longo prazo do ano. Pretende financiar-se entre mil milhões e 1,25 mil milhões de euros

O Tesouro avança hoje para uma nova operação de financiamento, numa altura em que se nota um maior apetite por dívida portuguesa por parte de investidores dos Estados Unidos da América, do Reino Unido e da Ásia. Na apresentação a investidores que antecedeu o leilão desta quarta-feira, a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) assinalou o regresso de investidores daquelas nacionalidade ao mercado de dívida nacional desde meados do ano passado.

Esse apetite poderá ajudar Portugal na operação de financiamento que agendou para hoje. O Tesouro quer angariar entre mil milhões e 1,25 mil milhões de euros em obrigações do Tesouro (OT) com maturidade em outubro de 2022 e outubro de 2028. É o primeiro leilão de dívida de longo prazo do ano. A 10 de janeiro, o Estado já tinha conseguido financiar-se em quatro mil milhões de euros a dez anos, numa emissão sindicada que foi garantida por um conjunto de bancos. A taxa foi de 2,137%.

Nessa operação houve um regresso de investidores mais conservadores à dívida portuguesa, motivada pelas melhorias dos ratings da Standard & Poor"s e da Fitch para grau de investimento. Das três grandes agências apenas a Moody"s ainda tem a notação num nível visto como lixo pelos mercados, mas na semana passada sinalizou que poderia subir a classificação na próxima avaliação, marcada para 20 de abril.

No mercado secundário, que serve como uma indicação de quanto é que o Estado poderá pagar para se financiar, os investidores exigiam ontem um juro de 2,139% para comprar títulos a dez anos. A taxa está no valor mais alto desde outubro do ano passado. Já nos títulos com maturidade em 2022 o juro pedido é de 0,688%.

Apesar da subida das últimas semanas os juros da dívida portuguesa, e também de outros países do Sul da Europa, têm dado maiores sinais de resistência do que as taxas alemãs. A dívida germânica, a referência da zona euro, tem sofrido com os receios de subida da inflação e de políticas monetárias mais agressivas. O prémio de risco, a diferença entre o que o mercado exige para financiar Portugal em vez da Alemanha caiu mais de 1,5 pontos percentuais, para cerca de 1,35 pontos desde o início do ano. Isto depois de ter encolhido em mais de metade no ano passado.

"Forte procura" pela periferia

Os analistas do Commerzbank já antecipavam que o Tesouro aproveitasse a boa evolução do prémio de risco para se financiar. Numa nota da passada sexta-feira, a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, os especialistas do banco alemão observavam que a dívida dos países periféricos estava a ser alvo de uma "forte procura".

O Commerzbank justifica esse otimismo do mercado "com as esperanças de integração da união económica e monetária" criadas pela mudança na pasta das Finanças na Alemanha. Wolfgang Schäuble será substituído pelo social-democrata Olaf Scholz, uma das condições para se conseguir uma coligação entre o partido de Angela Merkel e o SPD. "Está a avançar-se para próximo das ideias de política europeia do presidente francês Macron e de Juncker", diz o banco.

Apesar de a dívida da periferia mostrar sinais de resistência à subida das taxas alemãs, o Morgan Stanley recomendou, numa nota a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso, que se cortasse a exposição às obrigações do Sul da Europa para realizar mais-valias com o bom desempenho desses títulos.

Os analistas do banco explicavam que a "continuação da volatilidade poderia afetar o sentimento dos investidores pelos soberanos da periferia se continuar a aversão ao risco nos mercados". Apesar de dizerem que continuam construtivos no médio prazo para o Sul da Europa, sugeriram aos seus clientes aguardar por um melhor ponto de entrada para investir em dívida periférica. Até porque antecipam turbulência à medida que se aproximem as eleições em Itália, a 4 de março.

Mas o IGCP defendeu, na apresentação aos investidores publicada no seu site, que o custo médio da dívida portuguesa é "resistente a choques de taxa de juro". A agência liderada por Cristina Casalinho defende que "a taxa de juro média está ancorada em níveis historicamente baixos". Como a dívida tem um prazo longo, momentos de pressão no mercado não se traduziriam imediatamente num maior custo médio da dívida. O IGCP prevê que neste ano a taxa implícita para toda a dívida baixe de 3% para 2,8%.

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