Cabify chega a Lisboa e taxistas atiram-se ao preço

Concorrente espanhola da Uber cobra tarifas ao quilómetro mais baixas

A tarifa aplicada pela Cabify, a plataforma espanhola concorrente da Uber no transporte privado que ontem começou a operar em Lisboa, já está a ser contestada pelos taxistas. A nova aplicação que faz a ligação entre motoristas e clientes, através da parceria com empresas de rent-a-car e operadores turísticos, vai cobrar 1,12 euros por quilómetro, exibindo uma tarifa mínima de 3,5 euros, segundo revelou o responsável da Cabify Portugal. "Quem é que defende o consumidor? Quem e com que base é que definiram este preço se os táxis cobram apenas 54 cêntimos de noite e 49 de dia?", questiona o presidente da Federação Portuguesa do Táxi (FPT), Carlos Ramos.

Perante mais uma assumida "dor de cabeça" para os taxistas, o dirigente afirma estar em marcha uma "invasão descontrolada" do mercado de transportes. "Já havia a Uber americana, agora vem a Cabify espanhola. Enquanto o preço dos táxis é regulado, a eles ninguém os regula. Qualquer dia, depois de estarem cá instalados, vão cobrar aos clientes o que lhes apetecer", denuncia Carlos Ramos, admitindo que a plataforma só seria bem-vinda se "distribuísse serviços a taxistas e funcionasse com viaturas descaracterizadas autorizadas".

Até ver, as queixas que se aplicam contra a Uber "servem" para a nova plataforma, pelo que também a chegada a Portugal da Cabify irá parar às mãos da Justiça. Aliás, o presidente da Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL), Florêncio Almeida, já tinha garantido que iria recorrer aos tribunais assim que a empresa espanhola iniciasse a atividade do lado de cá da fronteira.

"É claro que a Cabify também não se enquadra na legislação portuguesa. O que não entendemos é a falta de resposta política", sublinha Carlos Ramos, depois de ainda ontem o presidente da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), João Carvalho, ter defendido no Parlamento que o serviço de transporte Uber opera ilegalmente, tendo considerado que "está fora da lei por vários motivos".

Tal como considerou o Tribunal Central de Lisboa, que aceitou uma providência cautelar interposta pela ANTRAL proibindo os serviços da aplicação de transportes Uber em Portugal. "Todos dizem que é ilegal, mas todos empurram com a barriga, o que nos leva a perguntar que forças se movem por detrás destas plataformas?", questiona o presidente da FPT.

Já o representante da Cabify em Portugal, Nuno Santos, apresentou a empresa em conferência de imprensa, garantindo que a plataforma está aberta ao diálogo com o governo e com os taxistas. Quer encontrar uma solução para o impasse no setor que há duas semanas esteve na origem de uma manifestação que lançou o caos em Lisboa, mas que também se fez ouvir no Porto e em Faro.

Ainda assim, a plataforma colocou ontem os primeiros carros nas ruas de Lisboa e arredores, mesmo sem revelar quantas viaturas tem ao serviço, assegurando apenas que a frota será a indicada para o lançamento da plataforma em Portugal. A Cabify revela ter procurado empresas já existentes de aluguer de veículos com motoristas, sendo o preço do serviço calculado em função da distância - não pelo tempo que o cliente passa no interior do automóvel - através de um sistema de georreferenciação via GPS. Ou seja, não há lugar à "tarifa dinâmica" que será praticada pela Uber, segundo denunciam os taxistas, uma vez que aqui o custo é estabelecido no ato da partida.

Segundo Nuno Santos, a empresa tenciona expandir-se por outras cidades do país nesta sua primeira experiência num mercado em que não se fala castelhano, depois da aposta em seis países. Além de Espanha, já opera no México, Chile, Peru, Colômbia e agora Portugal.

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