Inflação sem bens críticos descola face à média da Zona Euro

Subida nos preços mais constantes, sem contar com choques na energia e nos alimentos, tem sido maior do que a de Espanha ou Alemanha e supera a média do euro há três meses.

Os preços nacionais menos influenciados pelas perturbações nas cadeias de abastecimento que resultam da pandemia ou pela guerra na Ucrânia estão desde janeiro a crescer acima dos registos da média da Zona Euro e, em março, terão voltado a alargar diferenças.

Os dados continuam a apontar no sentido de uma contaminação das subidas na energia e bens essenciais à generalidade dos preços no cabaz de compras português num momento em que o governo e as principais instituições internacionais ainda esperam uma desaceleração da inflação assim que passem os choques externos.

A inflação subjacente - indicador de mudanças de preços mais permanentes e indiferentes a choques temporários ao excluir energia e bens alimentares não transformados - voltou no mês passado a acelerar e atingiu os 3,8% de variação homóloga, confirmou ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Já a subida para o conjunto do cabaz de preços no consumidor português atingiu os 5,3%, estando fortemente influenciada pelo escalar dos preços da energia, que terminaram março 20% acima dos valores de há um ano, e dos bens alimentares, mais caros em 6%.

Quando se adapta o cabaz de compras nacional a um índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC), utilizado para comparações no espaço da moeda única e para construção da média de inflação anual que guia a ação do Banco Central Europeu, a inflação homóloga total atinge os 5,5%. Já a subjacente chega aos 4,1%, naquele que é o valor mais elevado relativamente à média do euro em mais de quatro anos. Em março, a subida de preços sem contar com energia e alimentos básicos ficou em 3,2% no espaço do euro, com o diferencial relativamente a Portugal nos 0,9 pontos percentuais.

O INE nota "um perfil ascendente muito pronunciado" no indicador português, que desde o arranque do ano ultrapassa a média dos 19, acentuando cada vez mais as diferenças. Estas traduziam-se em mais 0,1 pontos percentuais em janeiro, quando o IHPC sem energia e alimentos de Portugal subia 2,5% em termos homólogos frente a mais 2,4% na Zona Euro. Já em fevereiro, a diferença chegava a 0,5 pontos percentuais, com a inflação subjacente homóloga nacional nos 3,4%, e a do euro em 1,9%.

Em trajetória oposta, a inflação nacional com energia e alimentos continua abaixo da média do euro, onde pesam as dependências energéticas de países como Alemanha, com a maior subida de preços desde a reunificação do país há mais de 30 anos. Na média do euro, a inflação anual medida em março era de 7,5%, ao incluir também energia e alimentos, comparando com os 5,5% portugueses, num diferencial negativo de dois pontos percentuais. Portugal, aliás, mantém a terceira variação homóloga de preços mais baixa entre as economias da moeda única, atrás de Malta (4,6%) e França (5,1%).

O Eurostat não tem ainda dados reunidos para a inflação subjacente nos vários países da União Europeia, mas desde o início do ano Portugal tem-se mantido com subidas de preços nos bens e serviços não afetados pela atual crise acima daquelas que se verificam em França, Grécia ou Itália, tendo já em Fevereiro superado também as de Espanha e da Alemanha.

Os dados mais finos do INE relativos à evolução do índice de preços no consumidor indicam quais as categorias de bens que mais têm subido e agravado a inflação que exclui energia e alimentos não transformados.

Mais no mecânico, no café e no sapateiro

Destacam-se, nomeadamente, os serviços associados ao turismo, como o alojamento e a restauração, mas também a generalidade dos bens e serviços associados à manutenção de habitação, como o mobiliário e as reparações, ou ainda os gastos com utilização de transporte pessoal não relacionados com combustíveis, como a compra de peças e acessórios. Entre as maiores subidas estão também os serviços de sapateiros, a compra de jornais e revistas, de seguros de saúde, de artigos de jardinagem ou ainda de animais de estimação.

A compra de lubrificantes e peças para veículos leva uma das maiores subidas homólogas assinaladas pelo INE em março, com a utilização de equipamento para transporte pessoal 17,4% mais cara que um ano antes.

O alojamento, a recuperar da depressão de preços da pandemia, tem, por outro lado, diárias que seguem 16,6% mais caras que em março de 2021, ao mesmo tempo que restaurantes e cafés cobram hoje mais 7%.

A venda de móveis e outros acessórios para a casa encareceu entretanto 12,4%, com os serviços de reparação de habitações também 11,5% mais altos. Reparar calçado representa igualmente pagar mais 4,4%, e ter um seguro de saúde custa mais 6,9% que há um ano. Os preços de jornais e revistas também subiram 8,7%, com os artigos de jardinagem mais caros em 7,4% e os custos com animais de estimação a aumentarem 7,8%.

Os maiores aumentos homólogos de preços ocorrem, no entanto, nos bens energéticos e na alimentação, com os custos de combustíveis líquidos usados na habitação mais caros em 45%, e os preços a subirem 31% nos combustíveis dos veículos. O gás usado em casa está também 17% mais caro que um anos antes.

Na alimentação, os óleos e gorduras continuam a encarecer, com preços 32% acima de um ano antes, havendo ainda uma aceleração em março no aumento de preços de pão (8,6%), carne (8%), peixe (8%) e produtos hortícolas (6,9%). Os preços de café, chá e cacau também estão 7% mais caros que há um ano.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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