Importações nacionais de gás dos EUA dispararam quase 50% até maio

Até maio, as compras de gás natural liquefeito oriundo dos EUA aumentaram 45%, valendo já quase um terço do total das importações. O gás vindo da Rússia caiu 60%.

Os Estados Unidos têm vindo a reforçar o seu peso na lista de fornecedores de gás natural liquefeito (GNL) de Portugal. No acumulado dos primeiros cinco meses deste ano, as importações com origem nos EUA dispararam quase 50% face ao mesmo período do ano passado, valendo já mais de um terço do total (34%), de acordo com os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).

O crescimento das compras aos EUA deve-se à guerra na Ucrânia. Para diminuir a dependência face ao gás natural da Rússia, os países europeus têm tentado encontrar alternativas e o mercado norte-americano tem-se posicionado como uma das principais opções, incluindo em Portugal. O incremento em 45% das importações nacionais "não seria expectável se a guerra na Ucrânia não tivesse acontecido", começou por explicar ao DN/DV o João Peças Lopes. No entanto, como apontou o professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Faculdade do Porto, tendo em conta o cenário atual, o aumento das importações de gás do mercado norte-americano "corresponde a uma maior disponibilidade para fornecer gás natural por parte dos EUA e a um maior consumo para alimentar as centrais de ciclo combinado que, face à quebra de produção hidroelétrica, têm sido responsáveis por fornecer uma parte significativa da eletricidade em falta".

Olhando para os últimos dados da DGEG, é possível observar uma alteração do portfólio de fornecedores. Ao passo que os Estados Unidos ganham terreno, as compras à Rússia caíram 60%. Os montantes em causa tinham sido comprados antes do início da invasão à Ucrânia, porém só chegaram ao Porto de Sines depois de 24 de fevereiro.

A Argélia, um dos principais fornecedores de Espanha e que tem estado em conflito com o país vizinho, tendo mesmo ameaçado cortar o fornecimento de gás, deixou de ter qualquer peso nas transações comerciais. Já a Nigéria, continua a ser o principal fornecedor (52%), apesar de ter perdido quota, em sentido contrário dos EUA. Quais as vantagens ou desvantagens da alteração do quadro de fornecedores? "O importante é sermos capazes de manter um portfólio alargado e evitar excessivas dependências de um país fornecedor de gás natural", alertou o especialista em energia.

Crise agrava-se

No final de março, o presidente norte-americano Joe Biden comprometeu-se a fornecer a Europa com mais 15 mil milhões de metros cúbicos de gás natural liquefeito, com a meta de chegar aos 50 mil milhões até 2030. Um objetivo que tem estado a ser cumprido, mas que não chega para suprir as atuais necessidades do Velho Continente. Uma situação que pode se agravar ainda mais a partir desta semana.

Moscovo anunciou esta segunda-feira que o gasoduto Nord Stream - a principal conduta de gás russo para a Europa - vai estar encerrado durante os próximos 10 dias para manutenção. Um anúncio que pode complicar o fornecimento desta matéria-prima durante este período, mas não só. A Alemanha e os seus aliados ocidentais temem que o Kremlin aproveite esta ocasião para fechar de vez a "torneira" à Europa para se vingar das sanções que têm sido aplicadas, estando já a preparar planos de emergência que incluem racionamentos e resgates de empresas, segundo a Bloomberg.

Por cá, esta situação não terá o mesmo impacto. Além de Portugal não depender do gás russo, as reservas de armazenamento em Portugal estão a 100%. No entanto, a capacidade máxima de reservas portuguesa é menor que na generalidade dos países da União Europeia, dada a dimensão da economia nacional e a menor dependência que esta tem do gás natural como fonte de energia. Razão pela qual João Peças Lopes considera que "não faz sentido" face à atual situação Portugal poder ter de ceder gás aos países europeus que mais dele necessitam, como a Alemanha. Para o professor catedrático, o que faz sentido "é fazer a regasificação do GNL em Sines para navios com capacidade de transporte de gás em estado gasoso e fornecer depois esse gás por exemplo à Alemanha que não tem terminais de GNL, pois apostou tudo em gasodutos vindos da Rússia". Transformar Sines na porta de entrada de GNL da Europa é um objetivo que tem sido defendido pelo primeiro-ministro e também, precisamente, pelos Estados Unidos.

Sara Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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