Guerra põe em causa encomendas para a Rússia

O mercado russo tem vindo a perder peso para as empresas portuguesas desde a invasão da Crimeia, mas ainda conta

A incerteza e a preocupação marcam o regresso das empresas portuguesas de calçado à Micam, a maior e mais relevante feira do setor que arrancou neste domingo em Milão. Apesar de janeiro já ter dado sinais positivos para as exportações face há um ano, a recuperação está agora exposta à evolução do conflito a leste. Destino das encomendas russas e pagamentos preocupam os empresários portugueses.

O secretário de Estado Adjunto e da Economia, João Neves, que ontem visitou a Micam, contextualizou: "Nós temos exportações para a Rússia e para a Ucrânia muito pouco expressivas no conjunto da indústria; não temos um impacto direto desta situação, mas é evidente que temos pela frente um clima de grande incerteza como temos vivido nestes últimos dois anos". E admitiu que o governo admite o regresso do lay-off simplificado para as empresas mais dependentes dos custos energéticos.

O ano de 2021 terminou com o melhor quarto trimestre de sempre ao nível das exportações de calçado e janeiro veio reforçar a esperança numa recuperação: a indústria exportou 150,7 milhões de euros em janeiro, mais 14,26% do que no período homólogo, mas está ainda assim 10% abaixo de janeiro de 2020. O que significa que as vendas ao exterior cresceram 18,8 milhões comparativamente a 2021, mas estão ainda 17 milhões abaixo do período pré-pandemia. Agora, com a guerra, há um conjunto de variáveis que não se colocavam em janeiro, mas que podem condicionar a evolução dos negócios.

Ligações à Rússia
Presença regular na feira há mais de 15 anos, Pedro Ferreira, sócio gerente da Ibershoes, empresa de Santa Maria da Feira detentora da marca Creator, assume-se como um "resiliente" que, nem em época de pandemia, desistiu da feira. Este ano, a grande aposta é no tema da sustentabilidade, com o lançamento de uma linha de calçado com forros chrome free e solas recicláveis, uma área que espera possa vir a representar 20% das vendas a médio prazo.

Com 22 milhões de euros de vendas, a Ibershoes fechou 2021 com uma quebra de 15% face ao ano anterior. "Não é mau face à conjuntura mundial", disse ao secretário de Estado da Economia, que visitou os expositores portugueses. Esta é uma das empresas portuguesas que trabalhava com o mercado russo, em resultado de uma parceria de 15 anos, e que representava entre 8 e 10% das vendas da empresa. A última encomenda, referente à coleção de primavera-verão, foi enviada para a Rússia uma semana antes da invasão a Ucrânia. Deveriam seguir-se outras, mas ficaram sem efeito. "É mais um volte face", admitiu.

Perda de importância
Embora a Rússia já tenha representado muito mais do que o que vale hoje - em 2013, antes da invasão da Crimeia, assegurava quase 50 milhões de euros de compras de calçado a Portugal; em 2021 não chegou sequer aos 13,5 milhões de euros -, poucas são as empresas que não tinham qualquer tipo de relação com este mercado. A Pratik, marca da Jefar, de Felgueiras, tinha recebido uma encomenda da Rússia dois dias antes da guerra começar. "Para primeira encomenda pós-pandemia era significativa, mas infelizmente tivemos que a deixar cair", explica José Lemos.

A empresa, que dá emprego a 400 pessoas, teve em 2021 o seu "melhor ano de sempre", mas cujo valor não quantifica, graças à sua "capacidade de adaptação às circunstâncias". Com a pandemia, a Pratik apostou em força nos artigos à prova de água, designadamente nas botas de montanha e e de caça, bem como em pantufas e chinelos. Cresceu mais de 25% face ao ano anterior.

O maior exportador
Também a Calsuave, de Guimarães, que, em 2018, exportou para a Rússia 200 mil pares de sapatos, assumindo-se, então, como "o maior exportador" do setor, tinha "ótimas perspetivas" para este mercado em 2022. José Moura, responsável comercial da empresa, chegou a Portugal de uma viagem a Moscovo na noite da invasão da Ucrânia. Além de um distribuidor na Rússia, os sapatos da Calsuave eram vendidos num canal local de televendas, particular, e com grande sucesso. As encomendas "ainda não estão suspensas", mas o grande desafio agora é encontrar soluções de pagamento - o habitual é que o cliente paga 50% na colocação da encomenda e os restantes antes do envio da mercadoria - e formas de fazer chegar o calçado à Rússia.

Com presença em cerca de 45 mercados, a Ambitious está já habituada a ver os seus sapatos vendidos em cenários de guerra, como aconteceu há anos, em Alepo, durante a guerra na Síria, quando um cliente local instalou um showroom num hall de um prédio. A marca, detida pela Celita, de Guimarães, exporta há anos para a Ucrânia e a Rússia, embora de forma residual, e estava apostada, este ano, em fazer crescer este mercado. "As encomendas estavam em produção, mas ficaram em stand-by. São clientes com quem temos relações há anos, e, por isso, aguardamos indicações", diz Paulo Martins, responsável da empresa.

Não sendo possível o envio, as encomendas serão colocadas à venda na recém-criada plataforma B2B da Ambitious, e que permite que uma encomenda colocada hoje seja enviada dentro de dois dias. "É a forma de os clientes de retalho poderem gerir melhor esta situação. Há muitas marcas que atrasaram as suas compras e assim têm a possibilidade de se abastecerem online para receberem os produtos dois ou três dias depois", explica Pedro Lopes, responsável comercial da empresa.

Com vendas de 18 milhões em 2021 e 200 trabalhadores, a Ambitious continuou sempre a crescer mesmo em pandemia, ao contrário do negócio de private label (a chamada subcontratação), que caiu, estando, por isso, ainda "ligeiramente abaixo" das vendas pré-pandemia.

O "grande véu de incerteza"
Também a Kyaia, de Guimarães, ficou com uma encomenda para a Rússia dentro de portas, para a qual tem agora que encontrar cliente. "Nem sequer há forma de organizar transporte ou pagamentos", reconhece António Alves, gestor de marca do grupo, que admite que, "embora o mercado russo não represente muito, nem tenha grande influência nos resultados, é mais uma pedra no sapato".

Com 600 trabalhadores, dos quais 70% afetos à área fabril, a dificuldade na gestão da mão-de-obra, com os constantes isolamentos profiláticos das famílias por causa da covid, e os atrasos na entrega de matérias-primas foram as principais dificuldades sentidas em 2021. O que levou o grupo a apostar no aumento de stocks, de modo a assegurar uma maior rapidez no abastecimento. "As perspetivas para 2022 eram positivas, com sinais animadores depois destes dois anos de pandemia, mas agora voltamos a ter um grande véu de incerteza sobre nós", sublinha.

A Micam, onde participam 48 marcas de 35 empresas portuguesas, termina nesta terça-feira.

A jornalista viajou para Milão a convite da APICCAPS

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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