Francisco Miranda Rodrigues: "É preciso contratar pelo menos 250 psicólogos para os centros de saúde"

Francisco Miranda Rodrigues é o bastonário da Ordem dos Psicólogos.

Dia 30 há eleições legislativas. Como convencer um abstencionista a ir votar?

Não existem fórmulas mágicas. As pessoas tendem a votar mais se votar for percecionado como possibilitando afirmar os seus valores. Pelo que uma maior aproximação entre candidatos e eleitores, com maior perceção de quem estamos a eleger (com que valores) poderá ajudar, bem como aumentar a vinculação entre ambos. Também existem obstáculos comportamentais, como a forma de votar. Se for mais fácil pode haver mais gente a votar e aí o voto electrónico talvez possa ajudar.

Qual a primeira medida na sua área que o governo deveria tomar?

Contratar pelo menos 250 psicólogos para os centros de saúde, de forma expedita. Para isso tem que resolver um imbróglio legislativo criado pela não atualização da carreira especial de técnico superior de saúde - ramo de psicologia. São os critérios de acesso a esta carreira que são responsáveis pelos três anos de concurso para colocar 40 psicólogos. É preciso equiparar os psicólogos com título de especialista em psicologia clínica e da saúde ao grau de especialista da carreira e com isso permitir a contratação imediata, descentralizada e mais célere. E rever a carreira, como prometido.

E qual a primeira medida para o país, em geral?

A implementação de uma Agenda da Prevenção e Desenvolvimento das Pessoas para a Coesão Social e Competitividade. Esta agenda desenvolver-se-ia a partir de uma visão estratégica transversal a todas as áreas da governação que tornasse prioridade os planos de prevenção e o desenvolvimento de competências, nomeadamente as facilitadoras (softskills), na saúde (ex. promoção de hábitos de vida saudável), educação (ex. competências sócio emocionais), economia (ex. corrupção), justiça (ex. redução da reincidência) e trabalho (ex. promoção do bem-estar nas organizações.

Fiscalidade: o novo governo deve baixar primeiro os impostos às famílias ou às empresas? Qual das soluções trará mais rápido crescimento ao país?

Não sei se o mais rápido crescimento depende mais da fiscalidade do que de outros factores. Será que medidas como a recentemente aprovada legislação sobre o teletrabalho não poderão vir a atrair pessoas muito qualificadas para o país de uma geração que coloca o seu bem-estar, cada vez mais como uma prioridade? E a redução de custos de contexto, nomeadamente energéticos, que beneficiarão as empresas e as pessoas no geral em simultâneo? E a redução de tempos para a justiça através de medidas de digitalização e de priorização da conciliação, mediação e arbitragem extrajudicial?

Na sua opinião o que seria melhor para Portugal: um governo de maioria absoluta ou de coligação entre vários partidos?

Independentemente disso, o que será melhor é um governo com uma atitude de escuta activa das várias ideias para o país, disponível para incorporar na sua visão estratégica as melhores propostas, não se fixando em posições. O país precisa de estabilidade, mas que implique diálogo e inclusão de propostas e protagonistas, de modo a não excluir ou acantonar e extremar partes significativas da população.

O PRR pode mudar o país? Qual a sua expectativa em relação à execução do PRR
durante esta legislatura?

Mudará nalgumas áreas. No apoio às pessoas com doença mental, confiando na sua execução a bom ritmo durante a legislatura, levará a grandes mudanças. Mas não muda tudo. O acesso a psicólogos nos centros de saúde, para questões relacionadas com os hábitos de vida, reacções adaptativas a crises de vida como divórcios ou desemprego, que não são doença mental, para aí não está nada previsto.

Escolha dois ou três políticos da História de Portugal (que não sejam candidatos a estas eleições) e que continuam a ser uma inspiração para si?

Francisco Sá Carneiro, Maria de Lurdes Pintassilgo e Jorge Sampaio.

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