Fabricantes automóveis exigem ferrovia para vender peças na Europa

Indústria de componentes quer segurar cerca de 60 mil empregos até ao final do próximo ano antes do regresso ao crescimento.

Ou há novas linhas de comboio para Espanha ou as fabricantes portuguesas de peças para carros podem perder velocidade para a concorrência do leste da Europa. O aviso é deixado pela Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) numa altura em que o setor enfrenta uma tempestade perfeita nas exportações e as margens de negócio estão cada vez mais reduzidas.

"Temos custos logísticos acrescidos para chegar aos nossos principais mercados internacionais, como Itália, França e Alemanha. É cada vez mais difícil exportar por causa do custo dos combustíveis. Sem ferrovia é difícil colocar os produtos no tempo adequado", assinala o presidente da AFIA, José Couto.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, o empresário lembra que os países do leste europeu, embora estejam mais distantes do centro do continente, têm melhores acessibilidades ferroviárias do que Portugal.

O custo acrescido pela falta de carris "não pode ser passado aos clientes, que depois não percebem porque têm de pagar mais pelo transporte de componentes do que a um polaco ou a um romeno", acrescenta o dirigente.

A construção de uma linha ferroviária "que ligue o litoral do país a Salamanca" é reivnidicada pela AFIA desde há vários anos. O ponto de partida teria de servir os portos de Leixões e de Aveiro.

Além da parte logística, a falta de opções ferroviárias também pode ter consequências na própria localização das empresas.

"As limitações de viagens de avião abaixo dos 800 quilómetros vão determinar que muitas das sedes que estão em Portugal mudem para cidades como Madrid, porque não há um transporte de passageiros competente. Não posso demorar cinco ou seis horas do leste para o centro da Europa e depois demorar um dia de Madrid para Lisboa."

Com margens de negócio cada vez mais baixas para manter a competitividade, a indústria enfrenta uma tempestade perfeita para segurar os cerca de 60 mil postos de trabalho.

Além da falta de semicondutores e de encomendas pelas fabricantes de automóveis, as empresas de componentes têm de lidar com a subida do preço dos combustíveis e dos custos logísticos.

Também as matérias-primas estão cada vez mais caras. "Alguns metais aumentaram em 200% nos últimos meses: o que era comprado a 100 agora custa 300. Há um problema de escassez e de preço."

Segundo José Couto, "as empresas estão a tentar aguentar ao máximo a situação" para evitar a saída de gente "muito qualificada e que leva tempo a formar".

A instabilidade na indústria de componentes deverá durar "até ao final do primeiro trimestre de 2022", com paragens intermitentes na produção. Sem o regime de lay-off simplificado (mais vantajoso para as empresas), que vigorou no ano passado, as empresas estão a utilizar o lay-off tradicional.

Apesar da incerteza dos próximos meses, José Couto acredita que a recuperação vai começar mais perto do final de 2022, com níveis de produção "próximos dos números de 2019", antes da pandemia.

Para que 2023 seja o primeiro ano da normalidade, o empresário assinala que "é preciso ter pessoas qualificadas e adequadas para a transição digital e energética. Os trabalhadores têm de ter capacidade para interargir com novos equipamentos e tomar decisões com base em novas informações".

As empresas de componentes para carros contribuem 5,2% para a economia portuguesa e vão discutir a situação do setor no 10.º Encontro da Indústria Automóvel, que decorre hoje em Ílhavo.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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