Exportações: só comida e bebidas resistiram à crise

Reino Unido, Israel, Países Baixos e China foram os países que mais reforçaram as compras de produtos alimentares a Portugal.

As vendas ao exterior caíram mais de 10% no ano passado, mas houve produtos que conseguiram aguentar. As categorias ligadas ao setor agroalimentar resistiram à crise pandémica, e até cresceram face a 2019.

Os dados analisados pelo Dinheiro Vivo com base nas estatísticas do comércio internacional revelados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que apesar do mau ano para as empresas exportadoras, houve três categoria a ganharem: os produtos alimentares, bebidas e tabaco; as gorduras e óleos animais e vegetais e os produtos do reino vegetal.

Analisando mais em pormenor e excluindo os casos em que a variação foi maior devido a um ponto de partida muito baixo, os óleos e gorduras registaram as maiores variações face a 2019. Neste grupo de produtos estão as gorduras de porco, mas também as vegetais como o azeite que teve um acréscimo homólogo de vendas superior a 2% e que tem um peso superior a 1% nas exportações totais.

Da lista constam ainda produtos como as gorduras e óleos vegetais que registaram um crescimento de quase 5%.

Mas é na categoria dos "produtos das indústrias alimentares; bebidas, líquidos alcoólicos e vinagres" que se verifica o maior acréscimo face a 2019 - quase 7%. Trata-se de um tipo de bens com peso considerável nas exportações totais do país, representando 6,6% das vendas ao exterior.

Os clientes

O Dinheiro Vivo pediu ao INE a desagregação dos países que em 2020 mais reforçaram as compras de produtos alimentares a Portugal face ao ano anterior. O gabinete nacional de estatística indicou que o Reino Unido foi o cliente com um acréscimo mais expressivo, tendo gastado mais 49 milhões de euros do que em 2019.

Na lista segue-se Israel com um reforço de 37 milhões de euros, os Países Baixos (+24 milhões de euros) e a China, também com 24 milhões de euros a mais do que no ano anterior. Este último caso, poderá estar relacionado com a abertura do mercado chinês à carne de suínos a partir de 2018, sendo que no ano passado já eram nove as empresas nacionais a exportarem neste segmento.

Mas em termos de vendas nominais, é o mercado espanhol que continua a dominar nos produtos alimentares. No ano passado o país vizinho comprou o equivalente a dois mil milhões de euros, de longe o principal cliente nesta classe de produtos.

A França aparece na segunda posição, mas com um valor 30% abaixo. No ano passado, Portugal exportou para o mercado francês o equivalente a 609 milhões de euros de bens alimentares. No top cinco dos principais clientes, segue-se o Brasil (423 milhões de euros), o Reino Unido (391 milhões de euros) e finalmente a Itália com 277 milhões de euros.

Recuo de três anos

Esta classe de produtos da fileira agroalimentar teve um desempenho positivo ao contrário das principais categorias que mais pesam nas exportações portuguesas. Nestes dados ainda não são considerados os serviços, onde se inclui o turismo. Os dados divulgados ontem pelo INE apontam para vendas ao exterior de 53,7 mil milhões de euros, o valor mais baixo desde 2017 quando as exportações atingiram os 55 mil milhões de euros.

Em termos anuais, representa uma queda de 10,2% face a 2019 quando as exportações de bens cresceram 3,5% em termos homólogos.

"Desde 2009 que as exportações de bens não registavam uma variação homóloga negativa", refere o gabinete de estatística. Nesse ano, as vendas ao exterior registaram uma quebra de 18,4%.

Mas se as exportações desceram, as importações ainda caíram mais. No conjunto do ano, as compras ao exterior afundaram 15,2%.

Tal como nas vendas, a categoria que mais contribuiu para a quebra nas importações foi a de combustíveis e lubrificantes. "Em 2020, a categoria económica dos combustíveis e lubrificantes foi a que apresentou o maior decréscimo em termos relativos, tanto nas exportações como nas importações (-32,1% e -35,6%, respetivamente face a 2019)", refere o INE.

"A evolução dos preços deste tipo de bens nos mercados internacionais contribuiu significativamente para esta diminuição, nomeadamente a cotação do petróleo bruto (brent), cujo preço médio anual, em euros, diminuiu 36,3% em 2020", esclarece.

Mas também a pandemia pesou. "É de salientar também, a mudança nas condições dos mercados nacional e internacional que levaram à suspensão da produção nas refinarias e à diminuição do consumo energético (-4%, -11% e -15% no consumo final de eletricidade, gás natural e derivados do petróleo, respetivamente, face a 2019), devido à diminuição no transporte de passageiros e mercadorias, decorrente do impacto da covid-19", acrescenta o INE.

Por país de origem e destino do comércio de combustíveis, "verifica-se que os maiores decréscimos ocorreram nas exportações para os Estados Unidos (-263 milhões de euros face a 2019) e nas importações provenientes de Angola (-688 milhões de euros em relação ao ano anterior)", refere o gabinete de estatística.

Eletricidade a mais

No ano passado, Portugal foi excedente em energia elétrica e exportou mais do que importou. "Nas exportações de energia elétrica verificou-se um aumento em valor (+23 milhões de euros) e em quantidade (+1 306 kWh)", refere o INE.

"Pelo contrário, nas importações ocorreu um decréscimo no valor (-136 milhões de euros) e na quantidade (-639 kWh)", uma evolução explicada por "uma produção superior ao consumo em 2020, tendo sido exportado o excedente".

O INE nota que "a produção registou um ligeiro aumento (produção líquida aumentou 0,9% face a 2019), o consumo diminuiu devido à contração da atividade económica no contexto da pandemia".

Paulo Ribeiro Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo