Elas ainda ganham menos dois salários do que eles 

Para conseguirem igualar salário médio dos homens, as mulheres teriam de trabalhar mais 61 dias por ano

Trabalham mais minutos por dia, mais dias por ano, mas no final do mês levam menos dinheiro para casa. Os últimos dados da Segurança Social revelam que os homens portugueses ganham mais 16,7% do que as mulheres. A discrepância chega aos 20% se contabilizados os ganhos totais, com prémios e subsídios. A remuneração média mensal masculina ronda 990 euros, enquanto as mulheres auferem 825 euros. Na prática, é como se o trabalho anual remunerado das portuguesas terminasse no primeiro dia de novembro.

A diferença tem vindo a dissipar-se nas últimas décadas e está ligeiramente abaixo da média da União Europeia, que ronda os 16,9%. Porém, o caminho a percorrer até à meta da igualdade ainda é longo, salientam as especialistas ouvidas pelo DN/Dinheiro Vivo. "As assimetrias salariais em desfavor das mulheres têm-se mantido quase inalteradas. Houve um ligeiro recuo, mas ficou a dever-se à desvalorização generalizada das remunerações e à estagnação dos salários mais elevados, que atingiu muito os trabalhadores do sexo masculino. Ao mesmo tempo houve um ligeiro aumento do salário mínimo, que abrange sobretudo as mulheres", explica Sara Falcão Casaca, professora do ISEG e especialista em questões de igualdade de género.

E se o poder implica responsabilidade, no que toca ao salário também é sinónimo de disparidade. O Eurostat revela que por cada cinco mil euros pagos a um gestor do sexo masculino, uma mulher nas mesmas funções recebe 3705 euros. O mesmo acontece com o nível de escolaridade. "Quanto mais elevadas são as qualificações, maior é o diferencial salarial entre homens e mulheres. Entre os quadros superiores a diferença é particularmente elevada", sublinha Joana Gíria, presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE).

Os motivos para o desnível ainda são os mesmos que em 1992, quando a disparidade salarial era superior a 24%, a maior desde que há registos. "A opção pelos pares, em detrimento das mulheres, corresponde à desadequada persistência do estereótipo socialmente enraizado da mulher como cuidadora da família face ao homem provedor do agregado familiar. Mesmo quando atingem cargos de topo, a maioria das mulheres continua a responsabilizar-se pelas tarefas familiares", ressalva a presidente do CITE.

Para as especialistas, a legislação é um veículo importante na mudança de paradigma. Além da lei das quotas nos conselhos de administração, o governo já tem outro diploma em mãos. O projeto prevê que empresas públicas e cotadas "tenham de fazer planos para a igualdade e estabelecer objetivos para a conciliação entre a vida profissional e familiar e para o combate à disparidade salarial. Vamos fazer um escrutínio público desses planos que passa por divulgar listas das empresas que têm boas e más práticas", revela o ministro adjunto, Eduardo Cabrita.

Portugal ocupa o 31.º lugar, entre 144 países, na tabela da igualdade de género do Fórum Económico Mundial. Mas desce para a posição 97 quando o tema é "salário igual para trabalho igual". Por menos dinheiro, as mulheres trabalham 559 minutos diários contra 469 minutos do sexo oposto. Segundo as previsões da organização, o fosso salarial entre homens e mulheres só deverá desaparecer em 2186.

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