Depois das exportações em grande, têxteis preparam-se para o pesadelo

Vendas ao exterior cresceram 18,6% até junho, mas os efeitos da guerra na Ucrânia começam agora a fazer sentir-se com cancelamentos e adiamentos de encomendas.

A indústria têxtil e do vestuário fechou o primeiro semestre com exportações de 3135 milhões de euros, um aumento de 18,6% face ao período homólogo. Os mercados comunitários estão a crescer 19,3%, num total de 2327 milhões, e os extracomunitários valeram 808,3 milhões, mais 16,5%. Números "muito positivos", admite o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, embora alerte para o "pesadelo" que se aproxima. "A partir de junho a conjuntura mudou radicalmente, com uma diminuição forte da procura, e há já empresas a recorrer ao lay-off e a reduzir o número de dias de trabalho", garante Mário Jorge Machado.

Em causa está a própria natureza de funcionamento do setor. É que as encomendas produzidas e entregues no primeiro semestre foram colocadas no final do ano passado e no início de 2022, ainda antes da invasão russa da Ucrânia, a 24 de fevereiro.

"Conjunturalmente, atravessamos um primeiro semestre muito positivo, com Portugal a ser procurado pelas principais marcas europeias, e algumas mundiais, para produção de peças de maior valor acrescentado e para os segmentos mais altos. O mês de julho já foi muito complicado, com pedidos de adiamentos de entregas, alguns cancelamentos e diminuições das quantidades encomendadas", explica o dirigente associativo.

A guerra teve dois impactos distintos, ambos com o mesmo resultado final, a diminuição das encomendas, por via do "aumento do preço de venda dos artigos", fruto do agravamento dos custos de produção e, muito especialmente, do gás, e da menor disposição dos consumidores para comprar bens que não são de primeira necessidade.

"Ao tentarmos passar algum do aumento do custo da energia acabamos a afastar encomendas", admite Mário Jorge Machado, sublinhando que as empresas, mesmo assim, estão a absorver grande parte desse aumento, sacrificando margens. Basta ter em conta que, no ano passado, o gás custava 20 euros por MWh (megawatt-hora) e atualmente ronda os 200 euros, tendo sofrido um agravamento de 100% em agosto comparativamente ao mês anterior, por efeito da ameaça russa de "fechar a torneira" do gás à Europa.

Já o aumento dos preços dos artigos têxteis foram, em média, garante a ATP, da ordem dos 20 a 30%, embora, nalguns casos, não tenha ido além dos 5 ou 10%. "E mesmo assim, com forte impacto na diminuição da procura", refere o responsável, sublinhando que a situação abrange toda a fileira, desde o vestuário aos têxteis-lar, e os vários mercados de destino. "Tanto oiço reclamações de Espanha como dos EUA, é transversal", sublinha.

Mas a guerra teve também efeitos ao nível da diminuição de vendas das cadeias de retalho, em especial nos mercados do centro da Europa. "O medo da guerra faz com que as pessoas se tornem mais cuidadosas e ponderem bem os gastos em bens que não são de primeira necessidade", defende o presidente da ATP.

Com os custos a subir e as encomendas a encolher, há empresas a recorrer ao lay-off e outras a procurar trabalhar menos dias por semana, de forma a fazerem uma melhor gestão energética. "O problema é que, ao contrário de países como a Itália ou a Alemanha, onde sempre existiu um regime de lay-off ajustável, em que as empresas dispõem de um certo número de dias por ano em que podem não ter atividade se não tiverem encomendas que o justifique, em Portugal isso não existe, o que obriga as empresas a suportarem os encargos salariais, mesmo estando paradas alguns dias por semana, o que está a contribuir duplamente para fragilizar a sua situação", diz o empresário têxtil, garantindo que "a pior coisa que uma empresa pode fazer é fechar totalmente, porque implica que os seus clientes vão ter de procurar soluções noutro lado".

E é para evitar isso que a fileira têxtil, em articulação com a CIP - Confederação Empresarial de Portugal, tem vindo a reclamar a criação de um regime de lay-off ajustável, em função da procura. Querem, ainda, mais apoios à fatura do gás, lembrando que, em França, por exemplo, as empresas recebem 25% do valor da fatura, enquanto em Portugal o apoio contempla, apenas, 30% da diferença do custo do gás face ao ano passado.

"Estruturalmente, o setor têxtil tem um potencial gigantesco, mas a verdade é que podemos estar a condenar algumas empresas a ficarem pelo caminho, porque não estamos a criar mecanismos para as ajudar a atravessarem uma situação de economia de guerra. É uma questão de destruição de postos de trabalho e de capacidade exportadora", alerta Mário Jorge Machado.

O presidente da ATP admite que "as empresas, felizmente, ainda têm algum arcaboiço financeiro, e não será por trabalharem menos dias por semana, durante alguns meses, que irão fechar", mas alerta que o "desgaste" que a situação causa à tesouraria se irá refletir em menos capacidade de investimento, de inovação e de formação.

"Estamos a enfraquecer o tecido industrial por uma situação que deveria ser vista com outros olhos", argumenta.

Para o gestor, as "nuvens negras no horizonte" são uma preocupação para os próximos meses, mas, sobretudo para o próximo ano. "Quem está nas empresas sabe que, apesar dos números das exportações, a situação hoje está mais próxima de um pesadelo", refere, sublinhando que, "não fosse a guerra e 2022 seria um dos melhores anos de sempre da indústria".

ilidia.pinto@dinheirovivo.pt

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