Bolsas fecham ano com ganhos mas 2022 deverá trazer desafios

Os investidores preparam-se para um ano de incerteza devido às medidas que ainda poderão ser adotadas em torno da pandemia e ao efeito das políticas dos bancos centrais

O ano de 2021 foi benévolo para as principais bolsas mundiais. Nos Estados Unidos, os principais índices bolsistas registam mesmo níveis recorde. Mas se há motivos para celebrações, os investidores também já se preparam para um ano novo que deverá trazer alguns desafios. Além das dúvidas em torno dos efeitos de mais medidas relacionadas com a estratégia de gestão da pandemia por parte de governos, os mercados vão enfrentar uma mudança de políticas por parte de bancos centrais.

"O ano de 2022 promete ser de subida de taxas de juro e finalização de muitos programas de compra de ativos pelos bancos centrais", afirmou Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. "Esta transição será acompanhada de perto tanto pelos analistas e investidores como também pelos decisores de política monetária, uma vez que se for feita de forma antecipada, poderá ter consequências económicas graves", frisou Henrique Tomé, analista da corretora XTB.

A uma sessão do fecho de 2021, as ações mundiais namoram o máximo alcançado em novembro pelo índice MSCI para as ações a nível global. Em Wall Street, registam-se máximos de sempre, com o S&P a valorizar 30%, em 2021, e o Dow Jones a somar 20%. Na Europa, o índice STOXX 600 avança cerca de 22% no ano.

No caso do setor tecnológico, continuou em 2021 a boa performance de 2020. Também "o novo mundo das criptomoedas teve um desempenho interessante em 2021 e o metaverso promete dar um novo fôlego ao setor tecnológico em 2022", segundo Paulo Rosa. "Mas a gradual inversão da política monetária dos bancos centrais poderá travar as subidas dos ativos de risco, nomeadamente do setor tecnológico mais dependente de taxas de juro baixas e muito sensível à subida dos juros", alertou.

Em Lisboa, a Bolsa fechou o ano a valorizar, tendo beneficiado sobretudo "da evolução favorável das energias renováveis e dos títulos que beneficiam com a retoma da economia e com a subida das taxas de juro, nomeadamente o setor bancário", segundo Paulo Rosa. "Os CTT, a Novabase, a Ramada, a Jerónimo Martins e a Sonae são as grandes ganhadoras no ano", destacou. Também a Jerónimo Martins - dona do Pingo Doce e a empresa que mais contribui para o principal índice da Bolsa nacional, com um peso de 16% no PSI 20 - "regista em 2021 uma valorização interessante de 44% no ano e impulsionou o índice".

A Bolsa foi ajudada pelo facto de a economia portuguesa ter sido "impulsionada pela retoma económica global e em particular pela recuperação da zona euro". "O crescimento em 2022 deverá ser alicerçado pela atual implementação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e os setores do turismo, hoteleiro e restauração também deverão apoiar o crescimento económico, apesar de serviços específicos relacionados com o turismo estrangeiro poderem ainda permanecer abaixo dos níveis pré-pandemia", antecipa Paulo Rosa. Frisa que "as dificuldades nas cadeias de abastecimento ainda poderão penalizar o setor industrial no início de 2022, mas deverão gradualmente decrescer ao longo do ano".

Mas, segundo o economista, "existem riscos e ameaças no horizonte", já que "a pandemia de covid-19, e nomeadamente a nova variante Ómicron, continuará a ser uma ameaça ao turismo estrangeiro, onde a incerteza permanece elevada devido aos constrangimentos, sobretudo nos aeroportos". Também "a política monetária como resposta ao aumento da inflação poderá ser um dos principais desafios em 2022 e um obstáculo à cabal performance da economia portuguesa e das bolsas nacionais e internacionais".

O Banco de Inglaterra já deu início à subida de taxas de juro, em 15 pontos base, de 0,10% para 0,25%. "Todavia, o Banco Central Europeu (BCE) deverá manter ainda uma política monetária relativamente acomodatícia para suportar as dívidas públicas significativamente elevadas dos países do sul da Europa e, assim, manter a coesão europeia", defendeu Paulo Rosa. Quanto à Reserva Federal norte-americana, "deverá terminar o seu programa de compras pandémicas ainda no primeiro trimestre de 2022 e subir três vezes as suas taxas de juro de referência - num quarto de ponto cada do intervalo de 0% a 0,25% para 0,75% a 1%".

Sobre o impacto de mais medidas "sanitárias" por parte governos, os investidores estão expectantes, porque "continuam a existir riscos que poderão comprometer o desempenho da atividade económica, bem como o desempenho dos índices bolsistas e das cotadas, que estão mais expostas à pandemia - como por exemplo o setor da aviação, hotelaria e energia".

Para Henrique Tomé, "à parte da pandemia e da retirada de estímulos, a gestão da dívida soberana é outro ponto sensível a ter em consideração, não só para o próximo ano mas também para os próximos anos".

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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