Bancos preparam-se para dar menos crédito às famílias

A banca vai apertar as regras para conceder créditos a particulares perante a crise provocada pelas medidas adotadas para tratar a epidemia de coronavírus. Boom no crédito terá chegado ao fim.

Pelo menos até junho, os bancos vão restringir o acesso ao crédito por parte de particulares devido à crise. Os efeitos da menor concessão de crédito deverão sentir-se no crédito à habitação, mas também vão afetar pedidos de crédito ao consumo. O aviso foi ontem divulgado pelo relatório do Banco de Portugal sobre o "Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito" relativo ao mês de abril.

No crédito à habitação, um dos bancos respondeu que vai ser "consideravelmente mais restritivo", enquanto dois vão ser "ligeiramente mais restritivos". Dois bancos vão manter as mesmas condições. No crédito ao consumo, três bancos vão apertar ligeiramente as condições para emprestar dinheiro e dois não as vão alterar. Dada a crise que se vive, "para o segundo trimestre do ano, os bancos antecipam critérios mais restritivos na concessão de empréstimos ao setor privado não financeiro, em especial no segmento dos particulares", indicou o relatório.

A verificar-se a queda na concessão de crédito, vai por fim a um período de boom no financiamento concedido pelos bancos à famílias, que tem batido recordes até fevereiro deste ano, antes da declaração de estado de emergência no país. A concretizar-se, poderá também ter um impacto nos preços das casas, que têm estado em máximos.

Os bancos também preveem que vai haver uma forte quebra nos pedidos de crédito por parte dos particulares, no segundo trimestre deste ano, em especial no segmento da habitação.

Um banco relatou que já sentiu uma diminuição "considerável" da procura por crédito para a compra de casa, no primeiro trimestre deste ano. Dois bancos indicaram ter havido uma ligeira diminuição dos pedidos de crédito ao consumo, entre janeiro e o final de março. "No primeiro trimestre de 2020, os bancos portugueses que participam no inquérito indicaram que a oferta de crédito a empresas e a particulares permaneceu praticamente inalterada face ao trimestre anterior", adiantou o documento. "No mesmo período, a procura de crédito aumentou ligeiramente no segmento das empresas e reduziu-se ligeiramente no segmento dos particulares", referiu.

Já no caso das empresas, a banca antecipa que vai disparar a procura de crédito para fazerem face aos impactos da crise. A declaração do estado de emergência no país levou ao isolamento da população, ao fecho de escolhas, serviços e comércio.

O desemprego e o recurso à suspensão de contratos de trabalho - lay-off - dispararam. Segundo um inquérito efetuado na semana passada, 80% das empresas portuguesas registaram quebras no volume de negócios. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Banco de Portugal. Também o recurso ao lay-off aumentou.

Os portugueses pediram 1900 milhões de euros para compra de casa nos primeiros dois meses de 2020, antes da chegada da crise.

O novo crédito ao consumo também disparou. No crédito ao consumo, o novo crédito atingiu os 929 milhões de euros, um recorde desde 2003, e um aumento de 32% comparando com os meses de janeiro e fevereiro de 2019. No crédito para outros fins, os novos empréstimos subiram para 468 milhões de euros, o valor mais alto desde 2012, correspondendo a uma subida de 58% face a igual período de 2019. Nos dois meses que antecederam a declaração de estado de emergência devido ao coronavírus, os portugueses endividaram-se, no total, em mais 3288 milhões de euros. Tratou-se do valor mais alto desde 2008, registado nos meses de janeiro e fevereiro e correspondeu a uma subida de 32% face a igual período de 2019. O crédito à habitação, para consumo e para outros fins atingiu valores máximos.

O Banco de Portugal implementou travões aos novos créditos com medidas adotadas em meados de 2018. Em janeiro deste ano, o supervisor anunciou regras mais apertadas para o crédito ao consumo depois de este tipo de empréstimos terem disparado no terceiro trimestre de 2019. As regras, que entraram em vigor a 1 de abril, incluem a redução de dez para sete anos do prazo máximo para contratos de crédito pessoal.

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