Evergrande: gigante chinês do imobiliário está a cair e os mercados mundiais assustam-se

Pode um colapso de uma das maiores empresas chinesas vir a provocar um efeito Lehman nos mercados mundiais?

DN/AFP
© EPA/JEROME FAVRE

De Lisboa a Nova Iorque, do Brasil ao Japão, os mercados mundiais olham em suspenso para a China, onde a delicada situação da gigante imobiliária Evergrande derrubou o índice bolsista de Hong Kong (-3,4%) e espalha temores nas principais bolsas internacionais.

Investidores, funcionários e fornecedores ansiosos descrevem um cenário caótico em redor da gigante imobiliária chinesa, mergulhada numa crise que abalou a confiança do público enquanto a empresa luta para superar um buraco de liquidez.

O outrora poderoso Evergrande Group tem sido o rosto faustoso do mercado imobiliário chinês, surfando a onda de um boom imobiliário de décadas para se expandir ao longo de mais de 280 cidades chinesas, enquanto vendia pelo país sonhos de compra de habitação própria.

Mas o grupo viu-se entretanto sufocado por um conjunto de obrigações que ascendem a mais de 300 mil milhões de dólares (255 mil milhões de euros) e abalaram o seu rating de crédito, os preços das ações e a reputação perante um público que o tinha como uma das mais prósperas companhias do gigante asiático.

Desde o seu máximo histórico na bolsa, em outubro de 2017, a avaliação das ações da empresa tombou 92,77%. Só nos últimos 12 meses, o colapso foi de mais de 88% e na última madrugada a queda foi de mais de 10%.

Ao longo da semana passada, o pátio exterior dos escritórios espelhados da Evergrande, na cidade de Shenzhen, no sudeste chinês, foi ocupado por empreiteiros a reclamar dívidas, agentes de vendas e investidores furiosos, em cenas pouco habituais que ganharam forte eco num país onde os protestos prolongados raramente são tolerados.

Entretanto, todos os olhares se voltam para as autoridades chinesas:. vão deixar cair o gigante ou vão intervir de alguma forma para que os problemas financeiros não acabem por arrastar o resto do setor imobiliário do país, o sistema bancário e quem sabe o que mais, como mostrou o pânico nas bolsas mundiais nesta segunda-feira?

Produtos de risco com promessas de altos juros

Numa aparente resposta aos rumores que irritaram os investidores, a empresa prometeu no sábado uma "punição severa" para seis administradores que resgataram os seus produtos de investimento antes das respetivas datas de vencimento.

A Evergrande também propôs dar imóveis e lugares de estacionamento em vez de reembolsos em dinheiro para muitas das dívidas que venceram recentemente, mas os investidores não se entusiasmaram com o plano e a fé na capacidade do grupo em sair desta crise entrou em colapso.

"O que eu quero é dinheiro", disse um investidor que se identificou à agência AFP apenas pelo sobrenome Feng. "Não estou interessado nesse plano".

Encostada às cordas, a Evergrande tem recusado comentar nos media a situação que atravessa. Já os funcionários descontentes disseram à AFP que foram pressionados a aumentar junto dos clientes as vendas de produtos financeiros que prometiam retornos generosos - e a investir também eles próprios.

As taxas de juro variavam de sete a nove por cento, de acordo com alguns dos funcionários, bem como anúncios vistos pela AFP. "Eles encorajaram-nos a aumentar o desempenho da venda destes produtos de risco, prometendo-nos recompensas", disse uma consultora de vendas da Evergrande Wealth, sob a condição de anonimato.

A mesma fonte afirmou que passou a ser impossível entrar em contacto com os gerentes da Evergrande desde o início de setembro, quando a empresa começou a enfrentar os problemas para fazer pagamentos - o que gerou um alarme social.

"Muitos clientes colocaram todos os seus ativos e pensões de reforma na Evergrande porque confiavam na gestão (do presidente Xu Jiayin) e que nada sairia errado", refere a funcionária.

Um outro funcionário, de sobrenome Huang, que comprou também alguns dos produtos financeiros promovidos pela empresa, acrescentou: "Antes da data de vencimento, eles pediram-nos para investir mais dinheiro em vez de cobrar o reembolso."

Huang e familiares investiram mais 1,5 milhão de yuans (cerca de 200 mil euros), atraídos por promessas de juros mais elevados. "Agora perdemos tudo", disse à AFP em Shenzhen. A tática de vendas, de acordo com vários fornecedores, também envolveu pressão sobre os parceiros de negócios.

Investidores revoltados

Grandes promessas também acompanharam um mega empreendimento residencial e comercial na cidade de Suzhou, no Leste, que agora tem centenas de investidores a recear pelas suas inversões.

A Evergrande Cultural Tourism City deveria incluir apartamentos, um parque temático e um bairro comercial feito para lembrar o estilo de uma antiga cidade europeia.

Mas esta inacabada "cidade turística e cultural da Evergrande" foi entretanto invadida por compradores revoltados que duvidam de que algum dia recuperem os seus investimentos.

Um proprietário revela que muitos compradores foram persuadidos a dar poderes aos funcionários da Evergrande para que assinassem documentos em seu nome. Posteriormente, o cronograma de entrega dos apartamentos foi mudando, com o surgimento de novas condições financeiras nos contratos, e foi necessário começar a arcar com as despesas comuns do condomínio antes mesmo da entrega das chaves.

"O meu queixo caiu, estupefacto", confessa.

A imagem do grupo imobiliário permanece intacta em Cantão (sul), porém, onde a Evergrande concluiu a construção do seu primeiro complexo residencial em 1996. "Originalmente, o seu objetivo era ajudar famílias comuns como a nossa a pagar um apartamento próprio", diz Liu, uma professora aposentada, à reportagem da AFP. "A Evergrande não é uma empresa terrível. Eles cuidaram muito de nós", acrescentou.

Trambolhões nas bolsas

O que é certo é que as ações mundiais caíram fortemente nesta segunda-feira, com as as bolsas a serem dominadas por temores de contágio do esperado colapso da gigante imobiliária chinesa Evergrande, e com os investidores também em alerta vermelho com o aumento dos custos do gás.

Além disso, o sentimento bolsista também está a ser prejudicado por uma forte subida da inflação, pelos planos do Reserva Federal norte-americana em reduzir os estímulos da política monetária, pelo aumento de infeções com a variante Delta do coronavírus nos EUA e pelos sinais de fraqueza na recuperação global.

Os mercados europeus fecharam em baixas acentuadas, com Londres a perder 0,9 por cento e Paris 1,7 por cento, enquanto na Alemanha, o primeiro dia de expansão do índice DAX para 40 empresas caiu 2,3 por cento.

Em Wall Street, o Dow Jones caiu 2,0 por cento e o Nasdaq 2,5 por cento nas negociações da manhã.

Hong Kong caiu 3,3 por cento anteriormente, liderando as perdas asiáticas, com a expectativa geral de que a Evergrande não consiga cumprir os próximos pagamentos de juros esta semana.

"As preocupações de contágio global estão a aumentar, por entre a crescente incerteza em relação a um possível default da segunda maior imobiliária da China, a Evergrande", disseram à AFP analistas financeiros da Charles Schwab.