"A cidade ideal é aquela em que não voltaremos a ser vítimas das longas distâncias"

A 'cidade dos 15 minutos' é a nova utopia pós-pandemia, que nos mudou o valor do tempo. Catherine Gall está a testá-la em Paris e é oradora do Portugal Mobi Summit, que arranca hoje em Cascais.

Carla Aguiar

A pandemia confrontou a sociedade com muitas mudanças e uma delas, talvez menos falada, relaciona-se com uma nova perceção do tempo, a noção de velocidade e lentidão, e sobre o valor que lhe passamos a dar quando, de repente, ficamos retidos em casa sem liberdade de movimentos e em teletrabalho. "Qual é o real valor de andar devagar e fazer as coisas com calma?" é a pergunta e a linha de investigação de Catherine Gall, diretora executiva do ETI (Entrepeneurship Technology and Innovation) que estuda e defende, há três anos, o conceito das cidades de proximidade.

"No início temos a sensação de que passar de videochamada em videochamada a falar com pessoas nos mais variados pontos do globo e fazer três coisas ao mesmo tempo é melhor, porque poupamos tempo", diz. Mas, interpela-nos a investigadora francesa: "Porque é que ir ou fazer mais rápido é melhor do que fazer as coisas com calma, tendo tempo para ler um relatório com atenção, intervalar o trabalho com um café ou cruzar-se no corredor com um colega e ter uma conversa criativa ou descompressora?"

No âmbito da investigação em que participa com uma equipa da Universidade Sorbonne em Paris, Catherine Gall está a estudar como as pessoas distribuem o tempo e os seus movimentos nesta era pós-pandemia, com a chegada do teletrabalho ou da partilha entre o escritório e a casa, bem como o impacto que isso tem na sua qualidade de vida e também ao nível da pegada ecológica nas cidades.

Embora o estudo ainda esteja em curso, uma coisa é certa: "Não voltaremos a ser vítimas das longas distâncias", considera Catherine Gall, oradora convidada do Portugal Mobi Summit, que começa hoje em Cascais.

"Está a ver-nos a voltar atrás e apanhar um comboio mais um autocarro só para ter uma reunião de uma hora, com todas as implicações que isso tem nas emissões de co2e no sistema de transportes?".

É aqui que entra o conceito da 'cidade dos 15 minutos', que, em conjunto com o conceituado urbanista Carlos Moreno, a investigadora está a testar em projeto-piloto em alguns bairros de Paris.

Partindo do príncipio de que "há seis dimensões universais que estruturam as cidades, relacionadas com habitar, aprender, consumir, trabalhar, aceder à saúde e à cultura, a cidade ideal é aquela em que os residentes não tenham de demorar mais de 15 minutos para realizar qualquer uma daquelas necessidades primordiais", refere a investigadora.

E como é que se redesenham cidades seculares pensadas noutra lógica, a das sinergias de grupo e da maximização do lucro através da concentração no espaço? "Isso é um trabalho de formiguinha, indo de quarteirão a quarteirão que envolve parcerias com grupos empresariais, transportadoras, municípios, agrupamentos escolares, planeamento urbano, construtores, serviços de energia ou serviços de co-working, responde.

"A cidade com melhor qualidade de vida é aquela que oferece um bom mix entre todas aquelas dimensões e neste projeto temos um modelo de cálculo que atribui um 'rating' (classificação) às cidades em função daqueles critérios", explica.

Encurtar as distâncias nomeadamente da casa para o trabalho tem grandes vantagens para todos os envolvidos e para o ambiente. Mas mesmo que a distância percorrida de automóvel pelos residentes em cidades como Paris seja, em média de 4,5 quilómetros, muita gente ainda usa o carro, sobretudo se for carro de empresa e com lugar a estacionamento. Mas, segundo Catherine Gall, novos ventos estão a soprar nesta matéria. "Começa a ser discutido e ponderado que as empresas deixem de fornecer carros aos seus quadros executivos em troca de bicicletas elétricas ou de serviços de carsharing (mobilidade partilhada)", tendo em conta a média das distancias percorridas.

É mais uma das muitas marcas que esta pandemia, em plena crise climática, nos vai deixar. Outra é a transformção do modelo de trabalho. Catherine Gall está absolutamente convencida que num futuro muito próximo, "não haverá uma modalidade dominante de trabalho, mas antes um ecossitema de modos de trabalho em que uns dias serão em casa, outros na empresa e outros ainda em espaços de co-working perto da residência".

Os espaços de co-working eram essencialmente procurados por gente muito jovem quando apareceram, mas hoje essa realidade já se alterou, aponta a especialista. Já o contacto com a empresa "é essencial para nos sentirmos conectados, parte de uma rede e de uma cultura e poder estabelecer relações pessoais que favorecem um fluxo de criatividade".

Veja tudo sobre mobilidade e o Portugal Mobi Summit e assista em direto aqui: https://portugalms.virtualarena.pt/