1,5 mil milhões de euros é quanto terá já custado a 4.ª vaga à economia portuguesa

Crescimento previsto nos 27 da Europa (UE) para 2021 subiu de nível entre maio e agora em todos os países menos em Portugal e Finlândia, que ficaram na mesma, revelou ontem a Comissão Europeia.

A quarta vaga da pandemia que atinge o País, e sobretudo a região da Grande Lisboa, desde meados de junho, obrigou a Comissão Europeia (CE) a recalcular as suas previsões para a economia portuguesa. A situação é grave e Portugal acabou por ser, juntamente com a Finlândia, o único país dos 27 da União Europeia a não ser premiado com uma revisão em alta da previsão de crescimento para este ano. Ficou na mesma e a esperar para ver.

Com base nos novos números ontem revelados pela CE, no âmbito das previsões de verão e daquilo que poderia ser o crescimento expectável se não tivesse acontecido a quarta vaga da pandemia (que, entretanto, continua a alastrar), o País poderia ter criado mais 1,5 mil milhões de euros em nova riqueza (valor acrescentado).

É a diferença entre crescer 4,8% em 2021 (como previu o Banco de Portugal antes da quarta vaga) e crescer 3,9%, como prevê agora a CE, já com este agravamento da pandemia refletido nas contas.

Ontem, o comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, referiu-se explicitamente à projeção mais recente antes da quarta vaga. Como referido, foi o Banco de Portugal que a fez: 4,8%.

Mas a entidade liderada por Mário Centeno diz que "a data de fecho para os dados das projeções macroeconómicas, elaboradas no contexto do exercício do Eurossistema de junho de 2021, foi 21 de maio".

Ou seja, o BdP subiu a fasquia de 3,9% de crescimento este ano para uns significativos 4,8% mas porque só teve possibilidade de reunir informação até 21 de maio.

A 21 de maio, ainda o novo embate do vírus não se tinha revelado, o próprio ministro das Finanças acenou com um otimismo que hoje se prova excessivo.

Na altura, João Leão chegou a dizer que "podemos vir a ter um crescimento relativamente superior [aos 4% do Programa de Estabilidade], pode ir até quase um ponto acima do que temos previsto, mas ainda é um bocado cedo". Mais um ponto quer dizer que o crescimento podia chegar aos 5%, se as coisas tivessem continuado a correr bem. Não aconteceu.

Nestas previsões de verão, Bruxelas conseguiu reunir dados até 28 de junho, ou seja, mais de um mês de nova informação e muita dela negativa, de facto, comparando com o exercício do BdP.

Gentiloni explicou que "as nossas projeções foram fechadas já depois de se começar a observar um aumento das infeções, algumas dificuldades no setor do turismo com países estrangeiros e também algumas medidas restritivas limitadas na área de Lisboa, que foram adotadas no final do mês passado".

"Estes desenvolvimentos recentes levaram a Comissão a ter uma previsão mais realista, diferente da do Banco de Portugal, que é mais otimista". Perante isto, a CE manteve a previsão de crescimento de maio: a economia deve crescer 3,9%.

Em termos reais, a diferença entre um crescimento de 4,8% (como dizia o BdP antes da quarta vaga se materializar) e os 3,9% da CE agora dá os tais cerca de 1,5 mil milhões de euros. É o que a economia perde à data de hoje com o facto de a pandemia ter voltado em força.

Bruxelas pede confiança no certificado digital covid

Na conferência de imprensa que deu ontem em Bruxelas, Gentiloni confirmou que "o principal fator" que levou a manter as projeções de maio foi, justamente, o agravamento da pandemia e o facto de terem sido impostas novas restrições aos negócios e à circulação de pessoas.

O comissário quis, no entanto, deixar uma nota de esperança: "A nossa previsão tem em conta a evolução da situação nas últimas semanas, mas estou certo de que a entrada em vigor do certificado digital covid-19 da União Europeia vai contribuir para uma melhor evolução, sobretudo em países que, como Portugal, estão fortemente ligados ao turismo internacional".

Para Gentiloni, o que se perdeu neste mês com o agravamento da pandemia, pode ser recuperável. "Estou absolutamente convencido de que a Europa terá uma época turística forte durante este verão."

Mas claro, isso "será variável entre países e diferentes sistemas de turismo".

"Os que terão mais dificuldades em recuperar são claramente os mais ligados ao turismo internacional, como certas regiões de Itália, mas especialmente países como Grécia e Portugal", avisou o comissário.

Mas nem tudo é mau

"O ritmo de recuperação foi travado pela reativação parcial de restrições temporárias em junho que foram desencadeadas pelo ressurgimento das infeções de covid-19", mas "projeta-se que o PIB português aumente 3,3% no segundo trimestre, após uma queda de 3,2% durante o confinamento mais estrito no trimestre anterior", refere a Comissão.

Assim, "espera-se um novo aumento do crescimento no terceiro trimestre, altura em que o turismo estrangeiro em Portugal tende a aumentar, ajudado pela campanha de vacinação na Europa e pela implementação do certificado digital covid-19 da UE."

A Comissão conta ainda com o efeito muito positivo do Plano de Recuperação e Resiliência português já neste ano e no próximo, assumindo que este levará a um aumento de nível do consumo e do investimento privado e público.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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