Simone Biles: como a miúda pequenina se tornou a ginasta mais medalhada de sempre

A ginasta de 22 anos tem 25 medalhas em mundiais mas não teve uma vida fácil: passou fome, foi educada pelos avós, treinou arduamente com Márta Károlyi, sofreu abusos do médico Lary Nassar e passou por uma depressão.

Ela mede apenas 1,42 metros de altura mas é, sem dúvida, a maior ginasta da atualidade. No Campeonato do Mundo que terminou no domingo, em Estugarda, a norte-americana Simone Biles, de 22 anos, ganhou cinco medalhas de ouro nas competições de equipa, all-around (todos os aparelhos), solo, salto e trave (e ainda ficou em quinto lugar nas paralelas assimétricas) - o que significa que ao todo, na sua carreira, ela já ganhou 25 medalhas em mundiais, mais do que qualquer outro ginasta (homem ou mulher).

Mas se agora tem bastantes motivos para festejar, a ginasta não esquece como foi duro o percurso até aqui. Enquanto escrevia a sua autobiografia, Courage to Soar: A Body in Motion, a A Life in Balance (2017), Simone Biles lembrou-se de um sabor da sua infância: os cereais com água. O leite era demasiado caro para a sua mãe, Shanon, que além de estar sozinha com quatro filhos com menos de sete anos era toxicodependente. "Não tenho muito mais memórias de Shanon. Lembro-me de perseguir um gato que toda a gente alimentava. Naquela altura eu tinha muita fome e chateava-me que o gato tivesse comida", escreveu no livro. Simone tinha apenas três anos quando deixou de morar com a mãe, passou por um lar de acolhimento e foi, finalmente, adotada pelo avô materno, Ron Biles, e a sua segunda mulher, Nellie, mudando-se de Columbos, Ohio, para Spring, perto de Houston.

Começou a ir ao ginásio com seis anos. "Era apenas mais uma miúda que andava a correr e a saltar por ali", contou numa entrevista ao The Guardian em março deste ano. A treinadora Aimeee Borman percebeu o seu talento e pouco tempo depois ela já estava na seleção dos Estados Unidos. Aí, submeteu-se ao duro regime de Márta Károlyi (a treinadora de Nadia Comaneci), que proibia as atletas de rir e festejar durante os treinos - muito menos em competição. Não havia espaço para o divertimento, apenas para a repetição até chegar à perfeição.

A relação com Márta Károlyi acabaria por não correr bem, também porque Biles não gostava de ser pressionada e de pôr em causa a sua segurança quando a treinadora a queria obrigar a fazer movimentos para os quais ela sentia que não estava preparada. Curiosamente, entretanto, o seu sorriso aberto (sobretudo no final de um exercício que lhe correu bem) tornou-se uma das suas imagens de marca. "Comecei a aperceber-me que sempre que me estava a divertir a minha performance era melhor - então porquê ficar de cara séria?", diz Biles.

Isto tudo enquanto tentava ser uma adolescente como todas as outras: "Estava naquela idade em que queremos que os rapazes nos convidem para dançar e eu era obviamente a rapariga mais forte de toda a escola, então eu tentava esconder os músculos", recordou. Em 2012, quando os treinos se intensificaram, ela passou a estudar em casa e foi assim que terminou o liceu. Ainda pensou ir para a faculdade mas entretanto tornou-se atleta profissional - agora, ela espera ter uma bolsa e ir para a universidade depois dos Jogos de 2020.

Desde 2013, quando se tornou sénior, que Simone Biles é a rainha da ginástica artística. Nos primeiros Jogos Olímpicos em que participou, em 2016, no Rio de Janeiro, ganhou cinco medalhas, quatro delas de ouro.

Também foi na equipa americana que contactou com o médico Larry Nassar, que abusou sexualmente dela, tal como fez com 300 outras ginastas durante mais de duas décadas. Por muito tempo, as ginastas sofreram os abusos em silêncio, mas agora era o momento de falar."Eu também sou uma das sobreviventes que sofreram os abusos sexuais de Larry Nassar", escreveu Simone Biles no Twitter em janeiro de 2018, pouco antes de ser conhecida a sentença do médico. Mas o trauma não se resolveria tão facilmente.

O duro caminho até ao sucesso, a constante pressão para ser sempre melhor e o processo judicial de Nassar forçaram-na a parar, em 2017, com apenas 20 anos. Esteve um ano inteiro fora da competição. Nos primeiros meses dessa pausa, publicou a autobiografia, escrita com a jornalista Michelle Burfourd, e participou no concurso de televisão Dancing With the Stars, fazendo par com Laurie Hernandez e terminando em quarto lugar. Aproveitou para viajar e comprou uma casa perto dos avós, em Houston. Mas não foram tempos fáceis. Houve momentos em que não lhe apetecia nem entrar no ginásio, quanto mais treinar. Teve de tomar antidepressivos e fazer psicoterapia. "Já houve dias em que nem queria pisar o ginásio. Vou deixar que isso me tire a minha paixão e os objetivos que tenho? É só mais um obstáculo a ser superado", disse Biles, na entrevista ao The Guardian. "Estava tão exausta que precisava de uma pausa. Física e mentalmente - merecia-a."

Em agosto de 2017, voltou ao ginásio. E em março de 2018 regressou à equipa norte-americana. Avisou que ainda não estaria na sua melhor forma em Doha nos mundiais no ano passado mas, apesar disso, voltou a ganhar mais medalhas. "Tudo voltou muito naturalmente por causa da memória do corpo. Depois de se fazer algo durante tanto tempo, é quase como andar de bicicleta. Normalmente, a única coisa que nos para é o medo", explica. A "força explosiva" é algo que a distingue, por exemplo, de Nadia Comaneci. Os seus movimentos podem não ter tanta delicadeza mas têm ousadia e exigem músculos, energia e técnica perfeita.

Agora, no Campeonato do Mundo em Estugarda, Simone Biles voltou a mostrar que é a melhor. Mesmo quando tem pequenas falhas nos exercícios, o seu grau de dificuldade é geralmente tão elevado que apesar dos erros ela consegue uma boa pontuação. Está sempre a desafiar-se e a tentar fazer movimentos novos e arriscados - e já o conseguiu por três vezes, com movimentos inéditos e que levam o seu nome. Mas sabe que quando o faz a probabilidade de falhar e de, consequentemente, a sua pontuação ser mais baixa também aumenta - e foi por isso que, por exemplo, no exercício final na trave optou pelo seguro e acabou por ter uma prova excelente (redimindo-se, assim, do bronze conseguido no Rio de Janeiro neste aparelho). "Já nem me conseguia mexer. Estava muito cansada. Mas estes foram mesmos os meus melhores mundiais de sempre", disse, no final.

A próxima paragem será em Tóquio.

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