Sem calculadora e treinos de boxe. Santos dá a receita do apuramento

Portugal joga hoje com a França a passagem aos oitavos de final. O selecionador não quer fazer contas ao primeiro, segundo ou ao terceiro lugar, lembra que tem jogadores experientes capazes de reagir e admite mexidas.

Portugal joga hoje em Budapeste (20.00, RTP1) o apuramento para os oitavos de final do Euro2020 diante de uma França já apurada, na reedição da final do último Europeu de boa memória. À partida, as contas são favoráveis à seleção nacional, que até em caso de derrota por dois golos de diferença pode passar à fase seguinte, caso, claro, a Hungria não se lembre de fazer uma gracinha e vença a Alemanha no outro jogo do Grupo F. A equipa das quinas depende unicamente de si. Em caso de vitória ou empate diante dos gauleses sela automaticamente o apuramento; se for derrotada, e a Hungria não vencer, desde que diante da França não perca por mais de dois golos de diferença segue para os oitavos de final como um dos melhores terceiros classificados.

Na conferência de imprensa de ontem, Fernando Santos não quis pegar na calculadora, até por respeito à Hungria. "Não podemos fazer contas, porque não sabemos o que vai fazer a Hungria frente à Alemanha. Esquecê-los é esquecer com quem jogaram no último jogo, com a França, campeã do Mundo, que acabou 1-1. Por isso contam para o apuramento. Partimos para este jogo só dependendo de nós próprios. Agora temos de fazer o nosso trabalho em todas as variantes, estratégicas, mentais, de vontade, entrega, determinação e solidariedade. Também esperamos isso da França, obviamente, mas dependemos de nós", assinalou o selecionador nacional.

Refira-se que em toda a história dos confrontos com a França, que é muito desfavorável a Portugal (19 derrotas, dois empates e seis vitórias), apenas por três ocasiões a seleção nacional perdeu por uma diferença superior a dois golos. E sempre em jogos particulares - em 2001 por 4-0, em 1983 por 3-0 e em 1952 por idêntico resultado.

Santos voltou depois ao jogo com a Alemanha, partida que Portugal perdeu por 4-2, e onde nem tudo correu bem. E deixou uma certeza: "Depois do jogo, no avião, todos nós sentimos a derrota e afundámos, até no bom sentido do termo. Todos temos a noção da responsabilidade, mas a equipa, no dia seguinte, já estava a reagir e na curva ascendente, pois temos jogadores muito experientes, que estão habituados a reagir e a jogar à quarta e ao domingo, com poucos dias para recuperar física e mentalmente."

Ainda sobre o duelo com os germânicos, o selecionador admitiu que nem tudo esteve bem, mas lembrou que a agressividade e a intensidade não são coisas que se trabalhem nos treinos. "São parâmetros que são estratégicos, a não ser que façamos um treino de boxe ou de rangers. A intensidade é dentro do campo que tem de ser colocada. Analisámos bem o jogo com a Alemanha e chegámos a uma conclusão: a matriz de Portugal, infelizmente, não foi aquela que esteve no jogo com a Alemanha. Houve coisas positivas, vontade, mas uma equipa que em 58 jogos só uma vez sofreu três golos e agora quatro é porque alguma coisa não correu bem e temos a noção disso", analisou.

Como já tinha revelado no dia a seguir à derrota com a Alemanha, o selecionador assumiu que fará algumas alterações na equipa, "até pelo cansaço de jogar com tanto calor", mas deixou bem claro que não existirá uma "revolução" no onze. Certa parece ser a entrada direta para o lote de titulares de Renato Sanches. Mas poderão existir mais uma ou duas mexidas.

Fernando Santos não vê semelhanças no estilo de jogo das seleções da Alemanha e da França, equipas que "têm abordagens diferentes". Lembrou que os germânicos "jogam com três centrais, três atacantes e com dois laterais muito profundos", e conhecedor do adversário desta noite, indicou que os franceses têm um ataque diferente e que isso pode beneficiar Portugal: "Os médios atacam a profundidade, até o próprio Kanté, e os três avançados são muito móveis. Teoricamente teremos superioridade numérica na defesa."

"A França é uma grande equipa, de enormíssima qualidade, com Mbappé, Griezmann e Benzema. O que vai importar no jogo é o equilibro que todos os jogadores podem dar. Todas as equipas no mundo podem trabalhar bem, ser organizadas, ter agressividade, portanto temos de igualar, no mínimo, a França e, se possível, fazermos tudo mais. São duas equipas com qualidade e que podem decidir o jogo a seu favor a qualquer momento", concluiu.

As certezas de Pepe

Pepe também falou ontem em conferência e tratou de desdramatizar os efeitos da derrota com a Alemanha no seio da seleção. "Em nove ponto possíveis, podemos fazer seis. Num grupo extremamente difícil pode parecer que estamos mal, mas não estamos assim tão mal. O futebol dá oportunidade de mostrar já no jogo seguinte como estamos", disse, lembrando que a seleção nacional apenas depende de si para seguir para os oitavos de final.

O defesa central lembrou que Portugal "apenas depende de si" e prometeu que os jogadores vão procurar estar da "melhor maneira possível para corresponder às expectativas de todos e conseguir o objetivo dos apuramentos. E deixou a receita para bater a França. "Jogar com as linhas muito juntas, solidários e todos a trabalhar em prol da equipa. Temos de ser uma equipa aguerrida dentro de campo, pondo sempre em prática aquilo que o nosso selecionador nos pede. Sabemos que vamos defrontar uma grande seleção, mas também temos as nossas armas e vamos procurar atacar".

O jogo desta noite vai colocar frente a frente dois dos melhores jogadores da atualidade: Cristiano Ronaldo e Kyllian Mbappé. O jogador do PSG é um fã de CR7 e em pequeno tinha posters do craque português colados na parede do quarto. E já por várias vezes admitiu que é o seu ídolo. "Eu era uma criança que sonhava com muitas coisas. Especialmente com uma carreira como a de Ronaldo. Quando ele joga, alegra a todos os que o veem e comigo foi assim durante 15 anos. Se já sou tão bom como ele? Não. Cristiano já fez história, não posso comparar-me a ele. Futebolistas como ele há poucos. Aprendi muito só ao vê-lo jogar",

Desde 1996 que Portugal marca sistematicamente lugar em fases finais de Europeus de futebol e nunca ficou pelo caminho na primeira fase. Aliás, passou sempre os oitavos de final da prova. Por duas vezes caiu nos quartos de final (1996 e 2008), outras duas nas meias-finais (2000 e 2012), uma na final (2004) e em 2016, na última edição, sagrou-se vencedor, curiosamente num jogo disputado diante da França, com o famoso golo de Eder no prolongamento.

nuno.fernandes@dn.pt

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