Racismo no futebol em Viseu: "ó preto, ó fusco, ó chimpanzé"

Incidente aconteceu este fim de semana num jogo da AF Viseu Divisão de Honra - Jornada 19, entre o ACDR Lamelas e o Mortágua Futebol Clube e nas redes sociais já circula um vídeo. Dirigente do Mortágua explica ao DN o que aconteceu.

Um alegado caso de racismo ocorrido no último fim de semana num jogo da AF Viseu Divisão de Honra - Jornada 19, entre o ACDR Lamelas e o Mortágua Futebol Clube foi gravado e está a circular nas redes sociais. Agora pode ir parar aos tribunais. A Guarda Nacional Republicana disse ao DN que "registou, em auto de notícia, os factos ocorridos no jogo de futebol entre a Associação Cultural Desportivo e Recreativo de Lamelas e o Mortágua Futebol Clube, e remeteu os mesmos ao Tribunal Judicial de Castro Daire".

Embora sem especificar, em causa estarão os inúmeros insultos racistas dirigidos a dois jogadores do Mortágua (Seidy e Duda). "Um jogador nosso (Mortágua) fez uma falta e de repente começo a ouvir, ó preto... mas não ficou por ali. Foram uns cinco minutos a chamar ó preto, ó fusco e ó chimpanzé, sem que ninguém lhe dissesse nada. O nosso jogador parou ao ouvir aquilo e eu tive de intervir. Abeirei-me dele e disse-lhe para parar, mas ele em vez disso virou-se contra mim de forma violenta. Fui insultado e ameaçado e vi o meu material de filmagem atirado com força", contou ao DN Romão Afonso, do departamento de comunicação do Mortágua, indignado com a passividade dos presentes.

Perante esta situação, Romão denunciou o caso aos militares da GNR, mas não obteve a resposta que acha que devia: "Ao intervalo, fui falar com os agentes da autoridade e eles responderam que estavam ali só por causa do árbitro. Então só os árbitros é que precisam de proteção nos jogos de futebol? Além disso racismo é crime. O Mortágua não quer criminalizar ninguém, mas é preciso mudar mentalidades."

O certo é que a GNR agiu e "registou, em auto de notícia, os factos ocorridos no jogo de futebol". Mas o que é que isso quer dizer? Um auto de notícia é um documento escrito com a notícia da infração onde são mencionados os factos que a constituem, o dia, a hora, o local e as circunstâncias em que aquela foi cometida e tudo o que puder ser averiguado acerca da identificação dos agentes e dos ofendidos, bem como os meios de prova conhecidos, nomeadamente as testemunhas que puderem depor sobre os factos.

Agora cabe às autoridades judiciais de Castro Daire decidir os próximos passos do processo.

Apesar de várias publicações identificarem o autor dos insultos como sendo dirigente do Lamelas, Romão Afonso disse não conhecer a pessoa em questão. O DN tentou ainda contactar o clube de Castro Daire, mas até agora sem sucesso.

O incidente foi gravado e denunciado nas redes sociais por algumas pessoas, entre eles o diretor de comunicação do Rio Ave. "A equipa visitante venceu por 2-0. O resultado pouco importa não fosse, se calhar, a 'justificação' para um comportamento inaceitável e racista. Os 17 segundos deste vídeo relatam apenas uma pequena parte do que aconteceu durante o jogo", denunciou Marcou Carvalho no Facebook.

Quando contactada pelo DN, a Associação de Futebol de Viseu disse não ter conhecimento do caso e avançou que vai esperar pelo relatório do árbitro."A única forma da AF Viseu agir é se o incidente constar do relatório ou se o clube ou jogador que se sentiu ofendido resolver apresentar queixa", disse ao DN o presidente José Alberto da Costa.

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