Premium "Passámos frio e fome, mas tínhamos de jogar": o negócio ilegal do futebol português

Vêm da América do Sul ou de África, sem visto de trabalho. As famílias pagam até cinco mil euros para os filhos serem colocados em clubes onde são obrigados a jogar. Mesmo doentes, mal alimentados ou a dormir no chão.

"Ficávamos todos num quarto, em beliches, e no inverno ficava mesmo muito frio. À noite não conseguíamos aquecer, alguns ficavam doentes, mas mesmo assim tínhamos de jogar, era um pesadelo. Só comíamos duas refeições por dia, ao meio-dia e à meia-noite." Esta é uma parte da história de Thibedi Ramu, um jovem sul-africano que em 2014 chegou a Portugal com o sonho de se transformar numa estrela do futebol. A experiência não correu bem, prometeram-lhe que iria mostrar as suas qualidades num clube da I ou II Liga, mas acabou por ser colocado no Estrela de Portalegre, onde durante um ano andou pela I Divisão Distrital.

Foi o choque com uma realidade e um negócio que está a aumentar em Portugal e em que existe uma vítima e dois vencedores: o jovem atleta a quem são prometidos contratos que nunca se concretizam; o angariador e o clube que recebem dinheiro da família do aspirante a futebolista que chega a Portugal, normalmente vindo do Brasil, Argentina ou de países africanos, com o visto de curta duração (mais conhecido como de turismo e que não permite a assinatura de contratos de trabalho) e que, passados 90 dias, fica ilegal, pois não consegue um contrato e acaba, por norma, por ser abandonado pelo empresário.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.