Como o Ajax se tornou na equipa sensação da Champions

Filosofia muito própria de estilo de jogo e formação, estratégia a longo prazo que vai além de jogadores e treinadores, mescla de juventude e experiência e uma grande geração de talentos explicam o atual êxito do histórico emblema holandês.

Aconteça o que acontecer, o Ajax já é a grande sensação da Liga dos Campeões 2018/19. Começou na segunda pré-eliminatória, deixou três adversários pelo caminho antes de entrar na fase de grupos, de onde saiu sem qualquer derrota mesmo perante a oposição do Bayern Munique do Benfica e no mata-mata já colocou de fora o tricampeão europeu Real Madrid e a candidata Juventus.

Um feito que ganha maior dimensão por, segundo um estudo da Deloitte Money League, o Ajax nem sequer estar entre os 30 clubes mais ricos do da Europa, com receitas anuais que não atingem os 150 milhões de euros, bastante inferiores aos 750 milhões do Real Madrid e aos 400 da Juventus.

Até o presidente do clube onde joga Cristiano Ronaldo, Andrea Agnelli, se rendeu aos holandeses: "O Ajax mereceu amplamente passar a eliminatória. Há que felicitá-los porque criaram dificuldades a nós, ao Real Madrid e ao Bayern. É um sério candidato ao título."

Falar apenas de resultados é demasiado redutor e não explica o que se tem visto nas terças e quartas-feiras europeias desta temporada. O histórico emblema de Amesterdão, que conheceu a glória continental nas décadas de 1970 e 1990, não se limitou a marcar mais golos frente a merengues e bianconeri. Foi melhor, impôs o seu futebol, dominou, criou mais oportunidades e alcançou apuramentos sem espinhas. Tudo isto com um onze base que custou pouco mais de 60 milhões de euros, quase metade do que a Juventus pagou por Cristiano Ronaldo, e que contempla cinco produtos da formação: Mazraoui, De Ligt, Veltman, Van de Beek e Frenkie De Jong.

Ousadia e trabalho silencioso

"Na formação do Ajax há uma máxima que te metem na cabeça desde o primeiro dia: 'se és tímido, aqui vais sentir dificuldades'. Cultivam uma arrogância futebolística no bom sentido: somos o Ajax e este é o nosso estilo. Tens que ser valente. E esta atitude deu como fruto gerações de jovens atrevidos, atléticos e dinâmicos. Sempre sob exigência máxima e com uma equipa B na II Liga onde aprendem a competir a um nível elevado", explicou esta segunda-feira Jordi Cruyff, filho do lendário Johan e também ele um produto da formação do clube da capital holandesa, num artigo de opinião assinado segunda-feira no El País.

Pese essa exigência máxima na formação, o Ajax assume como principal resultado da formação a chegada de jogadores à equipa principal, mesmo que os resultados desportivos das camadas jovens não sejam os melhores. "O princípio-base é o estilo de jogo. Há que ter a bola, dominar o jogo, conquistar a bola rapidamente quando não a temos, e queremos que os jogadores se libertem e desfrutem. O futebol é para o público e para os jogadores. Esse estilo é muito importante para ganhar uma identidade durante a formação com esta mentalidade. Em segundo lugar, este é um sistema que não está preocupado com resultados. A formação não diz quase nada sobre os resultados de amanhã, é um trabalho muito silencioso. O objetivo é fazer chegar os jogadores à equipa principal, esse é o resultado da formação", explicou recentemente ao DN o antigo líder do departamento de desenvolvimento de talentos da academia do Ajax e coautor do Plan Cruyff, Ruben Jongkind.

Preparados para perder ativos

"O Ajax tem um estilo de jogo inquebrável, que conta com a lealdade dos adeptos, orgulhosos pela valentia da equipa, mas também é fiel a um modelo de gestão. O clube está acima de todos, no relvado e nos gabinetes. Os que lá trabalham estão conscientes de que têm de estar uns passos à frente do resto no que concerne ao planeamento desportivo, porque esta equipa é provavelmente a vitrina mais apetecível para os clubes mais ricos da Europa", acrescentou Jordi Cruyff, em alusão a craques como Frenkie De Jong, certo no Barcelona por 75 milhões de euros; De Ligt, também pretendido pelos catalães; Ziyech, pretendido por Bayern Munique, Arsenal, Chelsea, Everton e Leicester; David Neres, cobiçado por AC Milan, Everton, Manchester United e Arsenal; e Tadic, um alvo apetecível pelos colossos do velho continente apesar dos 30 anos.

De Jong, para muitos o sucessor de Busquets em Camp Nou, é mesmo considerado o melhor jogador holandês da sua geração. "Chegou ao Ajax um pouco tarde, com 17/18 anos, mas a sua história é muito interessante, porque ele diz que fazia as coisas que queria fazer dentro de campo, não escutava os treinadores. E por isso aprendeu a driblar muito bem e a relacionar-se com a bola, porque fazia o que queria com a bola. Foi formado por ele mesmo, um conceito muito interessante. No Ajax, entrou no nosso sistema para preparar o jogador mais rapidamente. Tem uma grande habilidade para jogar no Barcelona", revelou Jongkind sobre o médio defensivo de 21 anos, recrutado ao Willem II em agosto de 2015 por 10,13 milhões de euros.

No entanto, a política do Ajax também passa por precaver as saídas de jogadores deste gabarito, pelo que o médio romeno Razvan Marin, que atua no Standard Liège, já está garantido como reforço para a próxima época, por 12,5 milhões de euros. "No momento em que tomaram consciência da evolução de Frenkie De Jong há dois anos, os dirigentes do Ajax cobriram as costas e identificaram um substituto. O mesmo ocorre com os treinadores, que não decidem as contratações porque vão e vêm, e o clube está obrigado a salvaguardar a sua estratégia a longo prazo", revelou Jordi Cruyff, dando o exemplo da contratação do treinador Peter Bosz após a saída de Slavisa Jokanovic para o Fulham em 2015/16.

Ainda assim, o antigo internacional holandês, hoje ao comando dos chineses do Chongqing Dangdai Lifan, não acredita em debandada no plantel. "O Ajax conta com uma boa tesouraria graças a transferências como a de De Jong e não terá a necessidade de se desfazer de meia equipa. Desenganem-se. O Ajax não treme na hora de declarar um futebolista como intransferível", avisa o antigo jogador de Barcelona, Manchester United, Alavés e Espanyol, entre outros.

Recentemente, o diretor geral e antigo guarda-redes Edwin Van der Sar anunciou que foi feito um investimento de 26 milhões de euros no centro de treinos, com o intuito de acelerar o desenvolvimento dos atletas. "A nossa aspiração é não esperar que os futebolistas cumpram 22 anos para estarem no auge mas sim que se integrem no plantel aos 16 ou 17. Num mundo ideal queríamos mantê-los até aos 26 e depois vendê-los pelo máximo valor possível. Num mundo real, o mundo em que vivemos desde a Lei Bosman, é muito difícil reter o talento", frisou, citado pelo El País .

Uma espécie de regresso ao passado

Apesar de o Ajax manter a mesma filosofia há décadas, não atingia as meias-finais da Liga dos Campeões há 22 anos e não é campeão nacional desde 2013/14, embora tenha sido finalista vencido da Liga Europa há dois anos. Afinal, o que mudou para termos voltado a estar perante um grande Ajax?

"A pressão de não ganhar o campeonato holandês há cinco anos obrigou o Ajax a retificar a linha de apenas recrutar jovens promessas, investindo nas contratações dois veteranos batidos em grandes ligas e conhecedores do futebol holandês, como Dusan Tadic ou Daley Blind", escreveu Jordi Cruyff, sobre os 11,4 milhões de euros pagos pelo atacante sérvio de 30 anos ao Southampton e os 16 M pelo defesa holandês de 29 anos ao Manchester United no início desta temporada.

No fundo, um regresso ao passado, se tivermos em conta que no êxito europeu de 1994/95 eram os veteranos Danny Blind (pai de Daley) e Frank Rijkaard a suportar o peso da juventude de craques como Van der Sar, Reiziger, Frank e Ronaldo De Boer, Finidi, Seedorf, Davids, Litmanen, Overmars, Kanu e Kluivert.

Porém, não foi só na equipa principal que esse regresso ao passado teve efeitos. Também na formação. Para Ruben Jongkind, depois de 2000 "a Holanda optou por um lado mais tático, abstrato e menos focado na aprendizagem, com cursos de treinador muito caros, por influência de Louis van Gaal". " É sistémico, porque ele teve sucesso nos anos 1990 e então a Federação pensou que Van Gaal podia ajudar, mas formação e a primeira equipa são coisas muito distintas. Então a Holanda foi abaixo porque os principais jogadores que estiveram nos Mundiais de 2010 e 2014 já tinham mais de 30 anos: Robben, Van Persie, Sneijder e Van Bronckhorst são de uma geração anterior, que foi influenciada pelo futebol de rua e pelo Ajax dos anos 1980. Em 2010, com este trabalho [de implementação do Plan Cruyff na formação do Ajax], começámos a mudar outra vez o futebol holandês, e a geração que agora está a aparecer é fruto disso, não é uma casualidade", aditou o técnico e analista hispano-holandês na recente entrevista ao DN.

A geração e a mudança de sistema

A qualidade desta geração é, para o treinador e autor do blogue Lateral Esquerdo, Pedro Bouças, o que marca a diferença para as equipas do Ajax nas últimas temporadas. "Fala-se muito das virtudes do modelo e de quanto contribuiu para chegar aqui, e isso é verdade, mas no passado o Ajax sempre teve este estilo de jogo. A grande diferença de hoje para as equipas dos últimos anos tem que ver com a qualidade dos intérpretes. Da mesma maneira que esta equipa surgiu, quando esta equipa se desmembrar muito provavelmente não continuará a chegar a meias-finais de Liga dos Campeões", acredita, ainda que salientando uma alteração histórica no sistema tático promovida pelo técnico Erik Ten Hag.

"Historicamente o Ajax jogava apenas com um médio defensivo. Que me recorde, é a primeira vez em que joga com um duplo pivot e um jogador à frente dos dois médios. Taticamente é a grande diferença. De resto, tanto a forma como ataca como a forma como defende não está assim tão diferente daquilo que era. Para mim, a grande diferença continua a ser o Ajax ter conseguido formar e reunir jogadores como De Ligt ou De Jong e elevar o nível do Tadic", acrescentou Bouças, que revelou uma confidência que Rui Vitória lhe fez: "O treinador do Ajax prepara com muito cuidado estratégico os jogos e terá havido uma grande preocupação em estudar a Juventus e o Real Madrid."

Semelhanças com os tempos de Cruyff

Jordi Cruyff escreveu no seu artigo de opinião no El País que muita gente lhe pergunta se este Ajax é uma homenagem ao seu pai. O filho do lendário jogador e treinador holandês diz que não se atreve "a tanto", mas confessa que "há elementos nesta equipa que formavam parte do credo futebolístico de Cruyff: estilo, formação, juventude, valentia e gestão nas mãos de ex-jogadores representada agora no diretor geral Edwin Van der Sar e no diretor técnico Marc Overmars".

Para Pedro Bouças, esta equipa do Ajax "é uma digna herdeira da equipa de Cruyff, mais pela juventude do que pelo lado coletivo do jogo", mas não tem a mesma qualidade individual. "O estilo de jogo que pretende implementar, a primazia pela posse de bola e a preocupação em recuperá-la são comparáveis. A grande diferença é que este lote de jogadores não estão ao nível dos do Ajax nos seus anos áureos", considerou, deixando rasgados elogios à qualidade ofensiva do conjunto orientado por Erik Ten Hag: "A grande virtude coletiva, que é sobretudo ofensiva, é a de uma equipa que pratica um futebol agradável mas sobretudo inteligente. Joga simples, fácil, apoiado e tem as rotas do ataque muito bem definidas. Procura jogar pelo corredor central e procura ter os jogadores entre linhas e de frente para o jogo. Outro grande segredo é a qualidade individual de alguns jogadores, que são de um nível tremendo mesmo em contexto mundial e que vão prosseguir a carreira, muito brevemente, para outros grandes clubes."

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