Autocarro a queimar tempo, um vídeo e seis cenários. Como o Guimarães ganhou a Taça ao Benfica

V. Guimarães e Benfica discutem nesta terça-feira a passagem às meias-finais da Taça. Em 2013, os minhotos venceram as águias na final, num jogo onde Rui Vitória, então treinador dos vitorianos, preparou tudo ao pormenor, como contou num livro da sua autoria.

Vitória de Guimarães e Benfica defrontam-se nesta terça-feira nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Um jogo com história na prova rainha do futebol português (já se defrontaram 14 vezes) e que em maio de 2013 permitiu aos vimaranenses fazerem história, com a conquista da primeira (e única) Taça do palmarés do clube, numa final que opôs o V. Guimarães de Rui Vitória ao Benfica de Jorge Jesus.

Em vésperas de mais um duelo entre as duas equipas (nesta terça-feira, às 20.45, RTP1), o DN recorda-lhe como Rui Vitória preparou ao pormenor aquele jogo da tarde do dia 26 de maio de 2013, com recurso a alguns truques que acabaram por resultar em pleno, com o clube minhoto a vencer o jogo por 2-1 - Nico Gaitán marcou primeiro para o Benfica, aos 30'. Mas Soudani (79') e Ricardo Pereira (81') deram a volta ao marcador.

A forma como o Vitória de Guimarães preparou a final da temporada 2012-2013 foi dissecada ao pormenor por Rui Vitória num livro da sua autoria que foi lançado em dezembro de 2014, meses antes de o treinador se mudar para o Benfica - A Arte da Guerra para Treinadores, um manual de estratégia aplicado ao desporto, em que o técnico explicava os seus métodos e dedicou um capítulo à vitória sobre o Benfica na Taça. A obra é uma adaptação para a atualidade do célebre livro escrito há 2500 anos pelo general chinês Sun Tzu.

A final do Jamor foi preparada ao detalhe por Rui Vitória e até a chegada do autocarro do clube ao Estádio Nacional foi atrasada propositadamente, para que não se verificasse um grande aglomerado de adeptos do Benfica que pudesse ter "um efeito muito negativo" nos jogadores do Guimarães. "Tínhamos uma oportunidade única de fazer história, até porque não sabíamos quando voltaríamos a ter uma ocasião semelhante. Em qualquer jogo, mas sobretudo numa final, é importante preparar com atenção e detalhe todos os pormenores. Por exemplo: as deslocações, o contacto com a imprensa, os adeptos. Pode ser algo tão simples quanto a chegada dos jogadores ao estádio", relatou.

"Tínhamos tudo controlado. Inclusive o autocarro do V. Guimarães parou, a caminho do estádio, numa estação de serviço, não para abastecer mas apenas para queimar tempo e chegar ao estádio depois do nosso adversário, esperando que o fogo da receção se extinguisse. Se tivéssemos chegado antes do Benfica, teríamos encontrado os adeptos encarnados, à espera da sua equipa, provavelmente ao rubro e enfurecidos, o que teria tido um efeito muito negativo nos nossos jogadores. Assim, deixámos o Benfica ir à frente, a sua claque recebeu-os e dispersou. E, quando chegámos, o ambiente estava mais calmo. Evitámos que os nossos jogadores sentissem o excesso da pressão dos adeptos adversários. À nossa espera, estavam vários adeptos do V. Guimarães, numa moldura humana bastante mais agradável para nós."

Tratando-se de um jogo que poderia dar a primeira Taça de Portugal ao clube minhoto, que antes tinha marcado presença em cinco finais, saindo derrotado em todas, Rui Vitória achou que, para além das questões técnico/táticas, precisava de dar aos seus jogadores um alento emocional, de forma a motivá-los ainda mais para a final. E por isso, à boa maneira de Luiz Felipe Scolari, preparou um vídeo motivacional com mensagens de familiares dos futebolistas para passar no balneário antes do jogo, e que levou muitos jogadores às lágrimas.

"Preparámos um vídeo surpresa para os nossos jogadores com mensagens de ânimo enviadas pelos seus familiares. Montámos um ecrã na cabina, passámos o vídeo, sem eles estarem à espera, minutos antes de entrarem em campo. Os jogadores viram mensagens de apoio e motivação, enviadas com carinho pelos filhos, mulheres, pais, amigos. Claro que a emoção que ali se gerou foi poderosíssima. Alguns jogadores ficaram com lágrimas nos olhos, outros excecionalmente motivados e orgulhosos, mas todos, absolutamente todos, tinham sido tocados por aquela onda de energia. A energia era tanta que se tivéssemos soltado os jogadores para o campo naquele momento provavelmente teriam destroçado o adversário, como touros enraivecidos, de forma pouco racional."

Na Arte da Guerra para Treinadores, Rui Vitória admite que preparou os seus jogadores para todos os seis cenários possíveis... inclusivamente para uma possível derrota com o Benfica. O treinador considera mesmo que este aspeto foi fundamental para o triunfo na final realizada no Estádio Nacional.

"Feito o enquadramento estratégico, demos início à preparação da final. E foi aí, antevendo os cenários que poderiam apresentar-se, que se começou a ganhar: contexto de vitória, possibilidade de estar a perder, eventualidade de estar a jogar com menos um jogador. Foram seis soluções muito claras para aquilo que o jogo viesse a dar. Optámos por abrir totalmente o jogo e preparar a equipa para esses possíveis cenários. Acho que foi um dos aspetos mais importantes desta vitória. Uma equipa poderá seguir mais tranquilamente em frente, mesmo em desvantagem, se tiver presente que essa era uma das hipóteses plausíveis e que, ainda assim, fazendo o seu jogo, mantendo o seu rumo, é possível dar a volta ao resultado e ganhar."

Quando o árbitro apitou para o intervalo, o Benfica vencia o V. Guimarães por 1-0, com um golo de Nico Gaitán à passagem da meia hora - o jogador argentino beneficiou de um ressalto para bater o guarda-redes Douglas. Apesar da desvantagem, o discurso do treinador ao intervalo foi de confiança, pois estava a gostar do comportamento dos jogadores e da atuação da equipa.

"Senti que eles não sabiam bem a que nível tinham estado. "Se tínhamos feito aquilo que estava combinado como estamos a perder?" Foi isto que passou pela cabeça de muitos deles. Comecei por dar feedback no sentido de os situar em termos de rendimento. Tinham feito o que lhes tinha pedido, por isso, se estivessem tranquilos não haveria muito a apontar. Em seguida, disse-lhes que para aquela segunda parte só exigiria que continuassem a fazer o mesmo. Não era nada que não tivéssemos abordado, logo, havia que continuar porque ia tudo dar certo. Além disso eles sabiam que ainda havia "cartadas para jogar'. Assim foi. Continuámos sem perturbações a fazer o nosso jogo. O tempo passava e nada. Em três minutos conseguimos fazer dois golos e virar o resultado. Acabámos por ganhar. Foi tocar no céu. Indescritível."

Curiosamente, os caminhos do Benfica e do Vitória de Guimarães na Taça de Portugal voltaram a cruzar-se quatro anos depois. Desta vez com Rui Vitória à frente do comando do clube da Luz. E outra vez na final do Jamor. A 28 de maio de 2017, as duas equipas defrontaram-se no jogo decisivo, com o triunfo a sorrir ao Benfica, que bateu os vitorianos por 2-1. Após uma primeira parte sem golos, Raúl Jiménez e Salvio colocaram os encarnados em vantagem. Bongani Zungu, aos 78', ainda reduziu, mas o marcador não sofreu alterações. O Benfica de Rui Vitória saiu vencedor, juntando nessa época a Taça ao campeonato.

Benfica e V. Guimarães na Taça de Portugal

2017 Benfica-V. Guimarães, 2-1 (final)
2013 Benfica-V. Guimarães, 1-2 (final)
2009 Benfica-V. Guimarães, 0-1 (4.ª eliminatória)
2006 Benfica-V. Guimarães, 0-1 (quartos de final)
1996 Benfica-V. Guimarães, 3-2 a.p. (4.ª eliminatória)
1996 Benfica-V. Guimarães 1-0 a.p. (quartos-de-final)
1993 V. Guimarães-Benfica, 1-2 (meias-finais)
1970 Benfica-V. Guimarães, 4-1 (quartos-de-final)
1970 V. Guimarães-Benfica, 2-0 (quartos-de-final)
1962 Benfica-V. Guimarães, 6-0 (meia-final)
1962 V. Guimarães-Benfica, 2-2 (meia-final)
1953 V. Guimarães-Benfica, 1-3 (meia-final)
1953 Benfica-V. Guimarães, 3-1 (meia-final)
1943 Benfica-V. Guimarães, 7-1 (oitavos-de-final)

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Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.