Acusado de discriminação de género, luso-americano deixa a federação dos EUA

Carlos Cordeiro pediu a demissão do cargo de presidente da US Soccer, pasta que ocupava desde 2018.

O luso-americano Carlos Cordeiro não resistiu à chamada guerra dos sexos do futebol americano. O presidente da federação americana de futebol (US Soccer) apresentou a demissão do cargo, depois de ter feito declarações, consideradas discriminatórias, em tribunal, no julgamento que opõe a federação às jogadoras da seleção feminina que exigem salários iguais aos da equipa masculina.

Num documento apresentado em tribunal, a federação norte-americana defendeu a diferença salarial entre homens e mulheres com o facto de as jogadoras serem "menos dotadas tecnicamente" e "terem menos responsabilidades" que os jogadores. Justificações que levaram várias jogadoras a criticar o líder federativo. Megan Rapinoe, capitã da seleção feminina de futebol dos EUA e eleita melhor jogadora do mundo, considerou "cruel" e "inaceitável" a posição da federação.

Carlos Cordeiro pediu desculpas, justificando que não comunga da opinião do organismo, mas assumiu "toda a responsabilidade". "A linguagem e os argumentos apresentados nos documentos enviados ao tribunal causaram grande indignação, especialmente à nossa equipa feminina que merece melhor. Ter-me-ia oposto a tal linguagem que não reflete a minha admiração pela nossa seleção feminina nem os valores desta organização", argumentou o luso-americano, que não terá tido oportunidade de rever a defesa da federação antes de ela ser apresentada em tribunal.

No cargo desde fevereiro de 2018, o português apanhou com um processo por discriminação com base no género por parte das jogadoras da seleção na Comissão para a Igualdade de Oportunidades no Emprego,. Nos EUA o futebol feminino é mais popular que o masculino, tendo a equipa nacional sido campeã mundial por três vezes. Razões mais do suficientes para elas exigirem pagamento igual para homens e mulheres em representação da seleção.

A realidade do futebol nos EUA espelha essas desigualdades. O salário mínimo anual praticado na liga feminina de futebol é pouco superior a 6800 dólares (6000 euros) e as principais estrelas ganham à volta de 60 mil dólares (53 mil euros), que é o salário mínimo praticado na liga masculina (MLS). O jogador masculino mais bem pago recebe cerca de oito milhões de dólares (7,2 milhões de euros).

O próprio sindicato que representa a seleção masculina se manifestou a favor do manifesto feminino: "O acordo 2017-2021 das mulheres é pior do que o 2011-2018 dos homens. A federação continua a discriminar a equipa feminina em pagamentos e condições de trabalho. (...) Acreditamos que as mulheres deviam receber significativamente mais do que o acordo que expirou para os homens. Pelo menos o triplo."

A porta-voz Molly Levinson divulgou um comunicado atribuído a Megan Rapinoe, em que esta diz que a "grande esperança é que 2020 seja o ano de pagamento igualitário", agradecendo o apoio da formação masculina e a "solidariedade de milhões de adeptos e patrocinadores em todo o mundo contra a discriminação da federação".

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