A superação de Chaunté Lowe. Treinar para os Jogos Olímpicos depois de vencer um cancro

Atleta do salto em altura foi diagnosticada com cancro da mama em junho de 2019. Fez uma dupla mastectomia e quimioterapia. Agora viu o coronavírus adiar os Jogos Olímpicos e dar-lhe tempo para preparar a quinta participação na prova.

Chaunté Lowe quer participar nos quintos Jogos Olímpicos da sua carreira, mas a missão de estar em Tóquio2021 tem um senão. A atleta norte-americana do salto em altura ainda recupera de um cancro da mama. O adiamento dos Jogos deu-lhe mais tempo, que é a coisa que ela mais precisa nesta altura para recuperar a boa forma física, depois de uma dupla mastectomia e das sessões de quimioterapia a que foi sujeita.

"Ela tem tempo agora, o que é bom. Ela voltou a ficar em boa forma, mas outro ano é fantástico", admitiu Nat Page, o treinador da recordista dos EUA no salto em altura (2, 02 metros), oito vezes campeã nacional de outdoor, campeã mundial em 2012 e medalha de bronze em Pequim2008.

Lowe está preparada para intensificar os treinos e competir assim que haja provas, mas houve alturas em que o treino era "apenas dar um passeio". Não tinha forças para mais, mas nunca desistiu: "Quero estar em Tóquio e enviar essa mensagem. Eu sei o quão grande é a competição. Existem milhões de pessoas que a seguem e se com a minha presença eu puder criar consciência e dizer que isto [cancro da mama] pode acontecer, ficarei feliz. Não quero ir com a ideia de conseguir uma medalha. Sempre lutei por mim, pelos meus filhos, pela minha família e pelo meu país, mas isto é algo maior que eu."

Chaunté é presença regular nos Jogos Olimpicos. Participa em provas de salto em altura desde Atenas2004 e tem vindo a melhorar os resultados. Depois de ficar fora da final na estreia, foi sexta em Pequim2008 (passou entretanto para terceira com a desqualificação de três atletas por doping) e em Londres2012. No Rio2016, apesar de ter feito a mesma marca que a campeã olímpica Ruth Beitia (1, 97 metros), ficou fora das medalhas, em quarto lugar. Apesar disso sorriu e sambou para as câmaras.

Habituada a ver o mundo de pernas para o ar, Chaunté só não esperava que isso acontecesse à sua vida, quando foi diagnosticada com cancro da mama em junho do ano passado. O primeiro sentimento foi de revolta. "Sou jovem, saudável, não bebo, nunca bebi, não uso drogas. Eu fiz tudo direito para não ter que estar aqui a passar por isto", questionou a atleta de 36 anos e mãe de três filhos à CNN, lembrando que esse tipo de pensamento pode levar a muitos erros de diagnóstico, especialmente em mulheres jovens que nem sonham que isso lhes pode acontecer.

No caso de Chaunté, um diagnóstico inicial incorreto piorou as coisas. Um pequeno nódulo do tamanho de um grão de arroz numa mama levou Lowe ao médico, que considerou o nódulo inócuo e mandou-a regressar seis anos depois quando tivesse 40 anos - a idade habitual para fazer o despiste da doença. Ela não ficou descansada. Conhecia o seu corpo, "era uma máquina afinada" e deixou de o ser. Sentia o caroço crescer de dia para dia. "Era aterrorizante", confessou a saltadora, que passados 11 meses procurou uma segunda opinião e fez imediatamente uma biópsia. O resultado era pior do que ela alguma vez podia imaginar, tratava-se de uma forma de cancro muito agressivo, que a obrigou a fazer uma dupla mastectomia, seguida de quimioterapia.

Em vez de culpar o médico pelo primeiro diagnóstico errado, atleta optou por uma mensagem de prevenção: "Esta doença procura roubar, matar e destruir. Você conhece seu corpo melhor do que qualquer médico. Não deixe que eles lhe digam que não é nada. Continue a pressionar até ficar satisfeito. A deteção precoce salva vidas."

Chanté concentrou-se depois na recuperação. Algo que conseguiu. Segundo os últimos exames, está livre do cancro, mas o seu corpo ainda está a recuperar da quimioterapia, que enfraqueceu o seu sistema imunológico. Por isso em tempos de coronavírus tem de ter "cuidados" que outros atletas não precisam ter.

Saltos em casa ao som da música Jump de Kris Kross

Tudo começou com uma canção. "Eu estava a ouvir uma música de Kris Kross, chamada Jump, enquanto pulava em casa e percebi que a minha cabeça quase batia no teto. Eu andava no secundário, não era muito grande, mas saltava muito alto. Foi quando percebi: `'Eu amo isto. Sou boa nisto e é a coisa mais próxima de conseguir de voar.'"

Dona de uma alegria contagiante, Chaunté não teve uma vida fácil. Quando andava no sexto ano viu a mãe ser despejada. Chegou a casa depois de uma prova de atletismo no sexto ano e não encontrou as irmãs. "Foram viver com o pai delas. Vamos ficar sem casa", disse-lhe a mãe. Passaram meses entre motéis e os bancos traseiros de automóveis. O pai, toxicodependente, passava a vida a entrar e sair da prisão. Por isso um dia a mãe decidiu que ela não podia continuar a viver assim e pediu a uma irmã que cuidasse dela. Chaunté decidiu ir viver com uma avó e encontrou refúgio na Bíblia: "Li aquela parte que diz que Deus é o pai de todos os que não têm pais, por isso comecei a falar com ele. Tinha perdido as minhas irmãs e era como se os meus pensamentos e o meu coração fossem a sua voz. E ele respondia, encorajando-me."

Foi no secundário que o atletismo entrou "a sério" na sua vida. Era velocista, mas queria voar e o salto em altura dava-lhe essa ilusão. O treinador não queria perder a estrela da velocidade e disse-lhe que só podia mudar de disciplina se conseguisse saltar mais do que as mais velhas. Escusado será dizer que foi bem-sucedida na missão. Acabou por se mudar para a Universidade Georgia Tech. Aí conheceu Nat Page, o treinador assistente da faculdade que ainda hoje a acompanha em todas as provas.

A nível pessoal a vida também começou a entrar nos eixos. Pelo menos na teoria. Conheceu o atleta do triplo salto Mario Lowe, com quem se casaria depois. Em 2007 tiveram a primeira filha, Jasmine, e compraram uma casa para viver e outra para arrendar e ter outra forma de sustento. Mas um ano depois, a crise económica estragou-lhes aos planos. O marido ficou desempregado, o dinheiro começou a faltar e viram as hipotecas serem executadas. De repente voltou a viver o calvário de ficar sem casa. O casal perdeu tudo e foi obrigado a ir viver para um apartamento minúsculo com a filha. Em 2011 voltou a ser mãe de uma menina com necessidades especiais e decidiu tentar a sorte em Orlando. Em 2014 foi mãe do terceiro filho.

Depois a vida correu bem até voltar a ficar sem chão, quando soube que tinha cancro da mama. Hoje é formada em Economia e Finanças e conselheira de muitos atletas, para que não cometam os mesmos erros que ela: "Assim que tive a oportunidade de ter dinheiro nas minhas mãos, gastei-o rapidamente. Ia às compras todas as semanas, comprava carros, casas... Depois tive a primeira filha e o dinheiro deixou de aparecer. Na nossa modalidade, o teu trabalho é o teu corpo e o teu corpo estava a ser utilizado para que outra pessoa crescesse."

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