O que une e o que separa Rui Vitória e Jorge Jesus

Ex-jogadores de ambos destacam a obsessão perfeccionista do técnico leonino e o relacionamento do benfiquista com os atletas

De um lado Rui Vitória, 46 anos, o atual treinador campeão nacional e vencedor de cinco títulos na carreira: para além da última Liga, venceu a Supertaça, no início desta época, a Taça da Liga, na temporada passada, a Taça de Portugal, pelo Vitória de Guimarães, em 2012/13 (curiosamente às custas do Benfica) e o Campeonato Nacional da II Divisão, ao serviço do Fátima, em 2008/09.

Do outro, Jorge Jesus, 62 anos, 13 títulos conquistados, beneficiando, evidentemente, de ser mais experiente e das seis temporadas que passou na Luz: três campeonatos nacionais, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e cinco Taças da Liga pelo Benfica; uma Supertaça ao serviço do Sporting, uma Taça Intertoto no Sporting de Braga e um Campeonato Nacional da II Divisão B, no Amora.

Estamos a poucos dias do quinto confronto entre ambos enquanto técnicos dos dois grandes de Lisboa, com superioridade clara para Jesus até ao momento (três vitórias e uma derrota). Curiosamente, a última vez em que se encontraram foi a única em que o triunfo sorriu ao mais novo. E como foi importante essa vitória por 1-0 em Alvalade, permitindo aos encarnados ultrapassarem os verdes e brancos no primeiro lugar... Depois assistiu-se à mais espectacular ponta final em simultâneo de que há memória na Liga portuguesa, com nove triunfos de seguida para cada - e, por isso, o título não escapou ao Benfica.

O DN procurou saber o que une e o que separa Jorge Jesus e Rui Vitória e para isso nada melhor do que falar com Nuno Assis, Fábio Faria e Jorge Ribeiro, futebolistas que foram orientados por ambos. Os três são unânimes em considerá-los como dois dos melhores com quem trabalharam e não duvidam que atualmente ninguém os supera no campeonato português.

Nuno Assis foi treinado por Jorge Jesus e Rui Vitória no Vitória de Guimarães, respetivamente em 2003/04 e em 2011/12. "Foram dois períodos complicados para o clube, mas tivemos a sorte de ter dois grandes treinadores que nos ajudaram a ultrapassar as dificuldades. Só tenho bem a dizer de ambos, foram sem dúvida dois dos melhores técnicos que apanhei. Posso dizer que aprendi com todos os treinadores, mas nunca tanto como com estes dois", começa por referir ao DN.

Convidado a estabelecer a grande diferença entre Jesus e Vitória, não hesita na resposta. "Sem dúvida a forma como vivem o jogo e mesmo o treino. Um completamente explosivo, e não é preciso dizer qual! (risos) O outro bem mais calmo e sereno, pensando sempre muito bem antes de dizer algo. Mas o importante é que, sendo duas maneiras tão distintas de abordar o jogo, a mensagem passava facilmente de ambas as formas e os jogadores entendiam exatamente o que deviam fazer", garante.

Nuno Assis acrescenta que Jorge Jesus "treinava mais e dedicava mais atenção ao pormenor, insistindo até tudo estar de acordo como o que queria, enquanto Rui Vitória não era tão minucioso, o que não quer dizer que fosse descuidado".

O antigo médio do Vitória de Guimarães e do Benfica confirma que os jogadores tinham de ouvir muitos raspanetes do atual técnico do Sporting. "Eu por acaso tive a sorte dele nunca se meter muito comigo, mas houve colegas que sofreram um bom bocado! No entanto, eles não levavam a mal, pois sabiam que era o feitio dele... E a verdade é que os berros até eram bons para desanuviar o ambiente, fartávamo-nos de rir porque muitas vezes eram completamente inesperados!", confessa.

Nuno Assis desmente que a maneira de ser de Jorge Jesus crie problemas na relação com os jogadores, a médio/longo prazo. "Claro que cada um fala por si, mas penso que temos de nos adaptar às situações e perceber a maneira de ser de quem está do outro lado. Nunca tive qualquer problema com ele", realça.

Rui Vitória era exatamente o oposto de Jesus. "Sempre calmo, era exímio na forma como transmitia a mensagem, explicando exatamente aquilo que queria. E era mestre na motivação, conseguindo levantar a nossa moral", recorda. Afinal de contas o atual treinador do Benfica foi o autor do livro "A Arte da Guerra para Treinadores", em que relata a melhor estratégia para vencer dentro do terreno de jogo...

Nuno Assis não ficou surpreendido pela perícia demonstrada por Rui Vitória no comando técnico do Benfica. "Já sabia do que era capaz, pois no Vitória fez um trabalho absolutamente fantástico, numa altura muito difícil do clube. Terminámos em sexto lugar nesse campeonato de 2011/12 e por um triz não fomos à Europa", recorda.

Questionado sobre alguma história curiosa sobre estes dois treinadores, Nuno Assis preferiu a clássica resposta: o que se passa dentro do balneário fica nas suas quatro paredes. "Sem dúvida que teria muito para contar mas não vale a pena!", atira.

O dia em que Fábio teve medo

Fábio Faria, que em março de 2013, com apenas 23 anos, abandonou a carreira devido a um problema no coração, não esquece que foi Jorge Jesus quem o levou para o Benfica, em 2010/11. "Ele confessou-me que tinha visto vários jogos meus e que gostava do meu futebol. Inclusivamente, já me queria ter levado para o Belenenses dois anos antes. O que posso dizer dele? Estou-lhe eternamente grato por ter confiado em mim e posso dizer que evoluí bastante durante a época em que ele me orientou", reconhece, apesar de só ter realizado um jogo oficial pelos encarnados.

Ainda assim, confessa que nem sempre viu Jesus desta forma. "Eu não gostava nada de jogar a defesa esquerdo, mas ele colocava-me muitas vezes nessa posição nos treinos. Lembro-me de um dia em que as coisas não me estavam a correr nada bem num exercício e ele fartou-se de gritar comigo, tanto que eu até já tinha medo de ter a bola nos pés! Hoje em dia percebo que era para meu bem e estou arrependido de não me ter consciencializado que o lugar de defesa esquerdo poderia ter sido uma boa saída", diz.

Fábio Faria destaca como grande qualidade do treinador do Sporting "o cuidado extremo que dedica ao trabalho tático, estudando todos os aspetos até ao mais ínfimo pormenor e querendo tudo na perfeição, levando os jogadores até ao limite, se quiserem acompanhar a sua pedalada".

Já Rui Vitória treinou Fábio Faria em 2011/12, no Paços de Ferreira. "Gostei bastante. Realço o relacionamento que ele conseguia ter com os jogadores, a simplicidade com que se dirigia a todos os que o rodeavam era um grande ponto a seu favor. E convivia mais connosco fora do campo do que acontecia com Jorge Jesus".

No entanto, refere que "apesar de duas formas de comunicar muito diferentes, a verdade é que ambos conseguiam transmitir o que pretendiam de forma muito clara".

Jesus também é "boa pessoa"...

Jorge Ribeiro foi orientado por Jesus no Benfica, em 2009/10, e por Rui Vitória no Vitória de Guimarães, na temporada seguinte. Mesmo não tendo sido utilizado nos encarnados em jogos oficiais não guarda rancor ao ex-técnico. "Aprendi muito com ele. A sua principal qualidade? O facto de ser muito exigente no trabalho de campo, os jogadores têm de seguir o que ele pede à risca", revela.

Curiosamente, essa é também a característica que destaca em Rui Vitória, sublinhando que "os treinadores têm de trabalhar sempre no limite e obrigar os jogadores a acompanhá-los, pois se assim não for não podemos dizer que estamos em presença de grandes técnicos".

Sublinhando que ambos "são muito parecidos nos métodos de trabalho que utilizam", elogia "o relacionamento que Rui Vitória estabelece com os jogadores e que vai para além do aspeto profissional". O irmão mais novo de Maniche realça, no entanto, que Jorge Jesus "também tem uma boa relação com os jogadores, estando sempre disponível para ajudar, embora tenha uma maneira de ser diferente da de Rui Vitória".

Jorge Ribeiro não duvida de que estamos em presença dos dois melhores técnicos a trabalharem em Portugal. "Basta ver o que os jogadores evoluem nas suas mãos. O Rui Vitória lançou jogadores como André André e Paulo Oliveira no Vitória de Guimarães e quanto a Jorge Jesus, nessa época em que trabalhei com ele houve futebolistas do Benfica que foram vendidos por valores elevados depois da grande campanha de 2009/10 [Fábio Coentrão, por 30 milhões de euros e Di María, por 33 milhões]".

Apesar do mundo de diferenças que separa as personalidades de um e outro, Jorge Jesus e Rui Vitória já provaram que o sucesso não tem uma só receita. Domingo, na Luz, voltam a encontrar-se, com a liderança em jogo.

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