O mito do fator casa. Falta de adeptos influencia mais o árbitro do que os jogadores

Equipas que jogam no seu estádio continuam a vencer quase o dobro dos jogos, apesar de realizados à porta fechada por causa da pandemia. Mas houve mais faltas e mais cartões mostrados aos da casa.

A vantagem de jogar em casa é uma lei universal do desporto, agora também provada pela ciência... mesmo com jogos à porta fechada durante a pandemia. Segundo um estudo, na época passada e nos jogos sem público nas bancadas, as vitórias das equipas que jogaram no seu estádio caíram apenas 2%. A queda não é estatisticamente significativa, uma vez que continuam a ganhar quase o dobro de jogos dos visitantes (43%).

Ou seja, jogar sem adeptos não abalou a velha máxima do futebol do fator casa ser uma vantagem para o anfitrião, apesar de se ter criado o mito sobre a influência negativa de jogar sem ter os adeptos a apoiar. Em Portugal, a liderança do Sporting esta época é prova disso mesmo. A ausência de adeptos no Estádio José Alvalade tem sido apontada até como uma vantagem para a equipa de Rúben Amorim, que joga sem a pressão dos sportinguistas ávidos de títulos.

O apoio dos adeptos, assim como a fadiga associada à viagem da equipa adversária, a familiaridade com o terreno de jogo e a territorialidade inerente ao jogar em casa sempre foram apontados como fatores desequilibradores. No entanto, o estudo prova que a presença ou não do público se reflete mais na atuação dos árbitros do que na dos jogadores.

"Sempre tive a convicção de que estar nos jogos e torcer pela equipa mudava alguma coisa, nem que fosse só às vezes. Mas o que é que podemos fazer? É ciência e o grande conjunto de dados, dos mais de 40 mil jogos que foram considerados para o estudo, não pode ser ignorado. O apoio não parece ser um fator chave na vantagem de jogar em casa", admitiu Matthias Weigelt, da Universidade de Paderborn.

A ausência de espectadores durante boa parte da temporada passada - em Portugal o campeonato parou inclusivamente de março a junho - levou os investigadores da Escola Superior de Desporto da Alemanha a testar cientificamente a força do chamado 12.º jogador (o adepto). E depois de analisarem cerca de 40 mil jogos, incluindo 1006 partidas sem público em 2020, nas dez principais ligas europeias, com Inglaterra, Itália, Alemanha, Espanha e Portugal incluídos (foram analisados 90 jogos da I Liga sem público), chegaram à conclusão que "o espectador não é o principal fator da vantagem de jogar em casa".

Nos jogos com público, o árbitro mostrou em média 1,89 cartões amarelos aos da casa, contra os 2,21 exibidos nas partidas sem público.

Segundo a análise, quem jogou no seu estádio venceu 43% dos jogos sem público na época 2019-20, contra a média dos 45% registados na última década (de 2010-11 até 2018-19). Já os forasteiros venceram 32% das vezes sem público, enquanto o fizeram 28% com os estádios lotados. Nos empates, 27% foram com estádios vazios contra 25% com bancadas cheias.

O estudo publicado na revista científica PLoS ONE não se ficou pela análise dos resultados. As equipas da casa antes da pandemia tinham mais golos e mais remates efetuados, vantagem essa que os visitantes equilibraram nos jogos sem público. Mais marcante é a mudança nas decisões da arbitragem. As faltas contra os locais aumentaram, na ausência do público, com a equipa da casa a ser sancionada em média mais uma vez do que a equipa visitante.

O mesmo acontece com os cartões amarelos. Na década anterior, o árbitro mostrou em média 1,89 cartolinas amarelas aos da casa contra 2,2 dos forasteiros. Na terceira metade da temporada 2019-20, disputada sem público, os visitados foram punidos com 2,21 amarelos contra os 2,06 dos forasteiros. Já as decisões do árbitro favoráveis aos visitantes é idêntica com ou sem adeptos.

"Se uma equipa me perguntasse o que poderia fazer para ganhar vantagem, teria de dizer para colocar o máximo de pressão possível sobre o árbitro. O problema é que isso não é ter fair play, logo, não quero ir por aí. Embora eu ache que seja verdade e é o que está em causa neste trabalho", admitiu o autor principal do estudo, Fabian Wunderlich.

Apesar dos "resultados surpreendentes", uma vez que esperavam uma queda acentuada no sucesso de quem joga no seu recinto, os autores admitem que continua "a não ser claro" quais são os principais impulsionadores da vantagem de jogar em casa, ressalvando que o videoárbitro (VAR) não foi considerado na análise.

Isso mesmo já havia sido observado, em janeiro, pelo italiano Vincenzo Scoppa, que, ao El País, lembrou que o foco devia estar nos pontos e não nos triunfos. Ou seja, os empates deviam entrar na equação. E, nesse aspeto, a diferença entre os pontos ganhos foi reduzida pelos visitantes em média 0,255.

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