Miguel Oliveira. Chegou o dia em que um português vai lutar pelo título mundial de MotoGP

Piloto de 26 anos corre pela KTM e não esconde ambição para época 2021, que neste domingo arranca no Qatar. Repetir desempenho de Portimão - pole, volta mais rápida e triunfo - é "possível".

Há 17 anos, Miguel Oliveira estava a subir para cima da moto pela primeira vez em competição. Este domingo, em Losail, no Qatar, repete o ritual, e pela terceira vez na prova rainha do motociclismo. Fazer história já passou a ser banal para o único português no mundial de MotoGP, o único a vencer uma corrida e que agora vai a lutar pelo título. Imune à pressão, o piloto de 26 anos lançou a candidatura ao título.

O Falcão de Almada promete voar alto. No ano de estreia (2019) foi 17.º e no ano passado acabou o Mundial em 9.º e com mais vitórias em corridas (2) do que o campeão Joan Mir. Isto na Tech3. Agora é com uma KTM que ataca o Mundial 2021. "Ambiciono e sinto-me capaz de lutar pelo título", disse esta semana, já depois de preparar o caminho da candidatura ao título durante uma cerimónia de renovação de um patrocínio: "O objetivo é lutar pelo título. Discutir o campeonato não é só o meu objetivo, mas também da marca. Não que isso nos crie alguma expectativa ou pressão, mas o que nos cabe fazer é capitalizar."

Apesar da ausência do espanhol nas duas primeiras corridas, Oliveira não hesitou em indicar o hexacampeão do mundo, Marc Márquez, como um dos favoritos, apesar de estar a recuperar da fratura do braço direito, que o afastou de grande parte das corridas de 2020: "O Márquez é um claro candidato ao título este ano. E acredito que essa falta de pontuação em duas corridas não o vão impedir de obter bons resultados este ano."

O espanhol deve regressar a 18 de abril, em Portimão, no Grande Prémio de Portugal, prova onde, no ano passado, Miguel Oliveira fez um três-em-um ao garantir a pole position, a volta mais rápida e o triunfo final. Dará para repetir? "É possível e é possível melhorar também. Não existe nenhuma regra que diga que não seja possível repetir ou melhorar um resultado. Portanto, mesmo que tenha sido pole position, volta rápida e vitória, há sempre qualquer coisa que se pode melhorar", afirmou o piloto natural de Almada.

Desafiado a escolher que prova lhe provocou o maior sorriso, uma vez que venceu a primeira corrida em Estíria, na Áustria, a 23 de agosto, e fechou a época com um triunfo caseiro, em Portimão, Oliveira optou pela resposta mais afetiva: "Talvez Portimão. Portimão foi muito especial, a Áustria foi o quebrar de uma barreira gigantesca, uma vitória muito inesperada, com uma ultrapassagem de última curva. Portanto, a explosão de adrenalina e de felicidade foi diferente de Portimão, onde houve uma preparação e um resultado que já previa um bocadinho aquilo que ia ser a corrida. Mesmo com toda essa incerteza, Portimão acabou por ser uma corrida tecnicamente com uma prestação muito, muito acima da vitória da Áustria. Portanto, escondeu um grande sorriso."

Embaixador da modalidade

Este ano, Miguel Oliveira quer voltar a divertir-se na "grande pista portuguesa", mesmo que ainda falte o público nas bancadas. E garante que não perde "tempo ou energia" com o que não controla. Ou seja, a concorrência.

"Vivemos numa época de motas oficiais, todas na grelha são, à exceção de duas Ducati que eram as oficiais de 2020. Vemos campeões e vice-campeões do Mundo em Moto2 a ascenderem à categoria, outros com nível de performance melhorado. Esse é o nível da competição e não era esperado chegar a uma nova época e termos os adversários piores do que no ano passado", afirmou o piloto, que há dias foi eleito o Atleta do Ano pela Confederação do Desporto de Portugal.

No paddock chamam-lhe Einstein, sinal da inteligência do piloto português na pista, mas também fora dela, onde Miguel acelera sem medo das palavras. O piloto (ou futuro dentista) tem um discernimento invulgar para se avaliar a si própria e à moto. "Tecnicamente, acredito que sou um piloto muito completo. Também acredito que a nossa mota é muito completa, poderá haver algum circuito ou alguma característica que não se adapte tão bem à nossa máquina, como é o caso da pista do Qatar, mas acredito que somos muito completos e, obviamente, tentaremos capitalizar as oportunidades. A preparação está feita, acreditamos no trabalho, a equipa é muito competente, e acredito que, juntos, vamos alcançar o resultado que merecemos e que ambicionamos", afirmou em entrevista à agência Lusa.

Como único representante da bandeira portuguesa no MotoGP, o trabalho de Oliveira enquanto piloto "sempre foi um bocadinho desbravar um caminho diferente, um percurso alternativo".

Valores de "superação" que identificou na marca portuguesa Salsa, a quem se associou há dias. "Entrei pela porta grande, e foi sempre com muito esforço e com muito empenho, mas nunca pelos apoios que podia obter. Todo o apoio dos portugueses é sempre muito apreciado", confessou Miguel Oliveira, recusando queixar-se de "falta de apoio". E assumindo-se como "embaixador da modalidade no país", fazendo com que pessoas que nunca viram MotoGP tenham começado a "ver corridas ao domingo".

Armada espanhola em peso no campeonato

O regresso de Marc Márquez (Honda), apesar da já anunciada ausência nas duas primeiras provas, e o Grande Prémio de Portugal, marcam o Mundial de MotoGP 2021, que se realiza neste fim de semana, no Qatar. O espanhol, seis vezes campeão mundial, foi submetido a três intervenções cirúrgicas para debelar uma fratura do úmero do braço direito e voltou a andar de mota, na semana passada, mas vai ficar fora da grelha das corridas deste domingo e de 4 de abril, ambas no circuito de Losail, sendo substituído pelo alemão Stefan Bradl.

A ausência do hexacampeão mundial, em 2020, deixou o campeonato mais aberto, com nove vencedores diferentes nas 14 corridas realizadas, incluindo o português Miguel Oliveira (KTM), por duas vezes (Estíria e Portugal).

Os efeitos da pandemia da covid-19 continuam a fazer-se sentir, obrigando ao congelamento de duas provas (Argentina e EUA), o que abriu porta ao regresso de Portugal ao Mundial, agora de forma efetiva e não como solução de recurso, como aconteceu no ano passado. O Autódromo Internacional do Algarve (AIA), em Portimão, vai receber a 18 de abril a terceira ronda do campeonato, a primeira na Europa depois da jornada dupla no Qatar.

O favoritismo esta temporada recai sobre o espanhol Joan Mir (Suzuki), campeão em 2020 com apenas uma vitória conquistada, mas nunca um Mundial foi de vencedor tão incerto. A maioria das equipas dos construtores mudou o seu alinhamento, a começar pela KTM, que promoveu Miguel Oliveira da equipa satélite (Tech3) à formação principal (KTM Racing), ao lado do sul-africano Brad Binder, 11.º no ano passado.

Já a Honda deu um passo atrás e enviou o espanhol Álex Márquez (irmão de Marc) para a equipa satélite (LCR Honda), contratando o compatriota Pol Espargaró, que foi quinto ao comando de uma KTM.

Na Yamaha, o francês Fabio Quartararo assumiu o lugar de Valentino Rossi na equipa oficial, despromovendo o heptacampeão de MotoGP para a equipa satélite, a Petronas, que vai continuar a contar com o também italiano Franco Morbidelli, vice-campeão do mundo.

A Ducati também tem sangue novo: os italianos Danilo Petrucci (mudou-se para a Tech3 da KTM) e Andrea Dovizioso (ficou sem lugar) deixaram a equipa e foram substituídos pelo australiano Jack Miller e pelo italiano Francesco Bagnaia.

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