Mais de 300 milhões para montar uma defesa à moda de Pep Guardiola

Treinador catalão já gastou quase tanto para reforçar o setor defensivo do Manchester City em ano e meio como em todas as contratações para o plantel do Barcelona em quatro anos. Aymeric Laporte bateu todos os recordes

O Manchester City está a fazer uma temporada fantástica, mas não aguentou a janela de inverno do mercado de transferências sem fazer mais uma contratação milionária, batendo mesmo o recorde do clube na aquisição de um jogador ao investir 65 milhões de euros para contratar o defesa Aymeric Laporte ao Athletic Bilbau.

A contratação do central francês confirma uma tendência do treinador Pep Guardiola em investir no setor defensivo dos citizens. Em ano e meio em Inglaterra, o catalão já gastou 528 milhões, dos quais 322 em defesas e guarda-redes. Um valor astronómico, que supera todo o investimento que Pep obrigou a direção do Bayern Munique a fazer durante os três anos que passou na Alemanha (204,4 milhões) e que vai mordendo os calcanhares aos 342 milhões que o Barça gastou nos quatro anos em que teve o seu antigo médio no comando técnico.

A percentagem de investimento no setor recuado em relação ao valor total gasto no reforço do plantel é muito superior ao dos ex-clubes: 61% contra os 27,3% ao leme dos bávaros e os 30,6% à frente dos blaugrana. Tudo para ter uma defesa bem ao seu jeito.

O investimento em Laporte, o mais caro defesa já contratado pelo técnico espanhol, suscitou uma onda de críticas ao despesismo de Guardiola. "Quando vês a atuação do Laporte pensas: uau, que central", ripostou o treinador de 47 anos após a estreia do defesa na quarta-feira, em jogo frente ao WBA, desvalorizando os 65 milhões de euros.

Mais fácil do que alterar hábitos

"Se não gastou tanto anteriormente foi porque os defesas que encontrou no Barcelona e no Bayern já tinham o perfil desejado. Tem que ver com a forma como ele pensa o jogo, não tanto a nível defensivo mas ofensivo. Para se ser um bom defesa para Guardiola é preciso ter qualidade com a bola e oferecer à equipa a possibilidade de ter posse, algo contranatura em Inglaterra", começou por explicar ao DN o treinador de futebol e autor no blogue Lateral Esquerdo, Pedro Bouças.

"Com Guardiola, são os defesas que iniciam o rumo dos ataques. É normal que ele tenha herdado defesas tipicamente britânicos, mesmo que de outras nacionalidades, adaptados aos hábitos da liga inglesa, com o instinto de pontapear a bola para a frente em situações de maior aperto. E ele considerou ser mais fácil ir ao mercado do que alterar os hábitos desses jogadores", aditou o antigo técnico da equipa de futebol feminino do Futebol Benfica.

Tudo pensado ao pormenor

Para Pedro Bouças, o treinador catalão foi muito criterioso no ataque ao mercado, recrutando jogadores com características ideais para cada posição. "Nos laterais, procurou critério com bola, capacidade para sair a jogar e jogadores velozes, potentes e resistentes, com um perfil físico muito acentuado, até porque o Manchester City joga algumas vezes num sistema de três centrais, entregando os corredores aos laterais", afirmou, justificando as aquisições de Danilo ao Real Madrid, Kyle Walker ao Tottenham e Mendy ao Mónaco, todas no verão passado.

"Os centrais têm outro tipo de recorte técnico em relação aos antecessores. Os que herdou também tinham qualidade, mas tinham os tais vícios da Premier League", acrescentou, a propósito das contratações de John Stones ao Everton em agosto de 2016 e, agora, de Laporte.

Também a contratação de Ederson ao Benfica obedeceu, para Pedro Bouças, a critérios muito vincados: "Tem que ver com a questão do jogo de pés, não tanto pela capacidade para sair a jogar curto, mas pelo passe longo. Na liga inglesa, as equipas pressionam bastante, destapando espaço atrás, e a qualidade de passe longo de Ederson possibilita a colocação de bola num espaço vazio já em zonas de criação."

"Já se vê bola acima do joelho"

Passaram já quase dez anos desde que Pep Guardiola implementou o famoso tiki-taka com que o seu Barcelona arrebatou o mundo do futebol. Entretanto, saiu do clube do coração, esteve três anos no Bayern Munique e está agora, desde julho de 2016, no Manchester City. A capacidade de posse de bola continua a ser uma imagem de marca das suas equipas, mas o treinador espanhol tem introduzido nuances diferentes para cada contexto competitivo.

"As ideias dele estão inalteradas, mantém o mesmo modelo, mas no Barça não víamos a bola acima do joelho. No City não é bem assim e no Bayern já começámos a ver diferentes variações de flanco. Ele vai-se adaptando às características de cada campeonato por onde passa", considerou Pedro Bouças, de 38 anos, acerca de um treinador cujas ideias têm sido muitas vezes dissecadas no seu blogue.

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