Fátima tenta novo "milagre" em fim de semana de visita do Papa

Presidido por um padre católico e com um muçulmano de Meca como dono da SAD, o Fátima luta neste domingo pela subida à II Liga. E espera que a visita papal volte a trazer sorte

O Papa Francisco está em Portugal, numa visita aguardada com grande expectativa por muitos crentes da fé católica, mas também por jogadores, dirigentes e adeptos do Fátima. A razão é simples: em 1991, o Papa João Paulo II visitou Portugal e o clube consumou a subida à II Divisão B, enquanto em 2000, aquando de nova passagem do mesmo Santo Pontífice, sucedeu o mesmo. Já em 2010, quando Bento XVI veio ao nosso país, o Fátima não subiu de divisão... mas alcançou a melhor classificação da sua história, ao ser 8.º na II Liga.

Ora, amanhã, no mesmo estádio em que ontem pousou o helicóptero com o Papa Francisco, o Fátima joga com o Louletano um jogo decisivo para a possível subida à II Liga, que o clube disputa com o Real Sport Clube e com o Praiense na zona sul do Campeonato de Portugal. Atualmente no terceiro lugar, em igualdade com o Real e a dois pontos do líder Praiense, "basta-lhe" vencer o Louletano e esperar que os dois rivais diretos não ganhem para fazer a festa do primeiro lugar. Ou então, se terminar em igualdade com o Real, terá de fazer pelo menos quatro golos a mais do que o rival. Se o Fátima terminar em segundo lugar, disputará um play-off com o segundo da zona norte e com os 17.º e 18.º classificados da II Liga.

O padre António Pereira, presidente do Fátima, acredita que a presença do Papa vai ajudar a proporcionar mais um "milagre" ao clube e confessa-se "muito confiante para o jogo". Nos últimos dias, o Real Sport Clube levantou suspeitas sobre o Fátima-Louletano, devido ao facto do saudita Abdulmouti Kaaki ser em simultâneo investidor nos dois clubes. Ao DN, António Pereira recusa totalmente o cenário de um adversário dócil no jogo de amanhã. "São bocas sem sentido, também poderia dizer que o Sacavenense vai ajudar o Real nesta última jornada, pois são clubes vizinhos. O senhor Kaaki, de facto, dá alguma ajuda monetária ao Louletano, tendo levado para lá um ou dois jogadores, mas não mais do que isso. Fez o mesmo com o Vit. Setúbal e o Vit. Guimarães, por exemplo", defendeu, lembrando que a ligação do magnata árabe ao Fátima é completamente distinta, pois detém 90% das ações da SAD.

Na opinião do presidente do Fátima, "o futebol deve ser jogado apenas dentro das quatro linhas", dando um exemplo de uma situação passada: "Sou muito amigo do senhor Paulo Farinha, presidente do Sertanense, e há dois anos, quando nos defrontámos, também houve quem levantasse suspeitas dizendo que o Sertanense iria facilitar. Pois a verdade é que perdemos o jogo e descemos às distritais."

Em 2015, com dívidas acumuladas a jogadores, a empresas de construção e ao Estado, a ajuda monetária de Abdulmouti Kaaki foi decisiva para tirar o Fátima da bancarrota e fazê-lo reentrar no sucesso desportivo. Logo na época de estreia, a subida dos distritais ao Campeonato de Portugal foi uma realidade e atualmente o Fátima luta pela presença na II Liga.

Sã convivência inter-religiosa

Num tempo em que são muitos os atos de intolerância religiosa a assombrar o mundo, o Fátima pode ser apresentado como um excelente exemplo de sã convivência entre o presidente - padre católico - e o acionista maioritário e presidente da SAD, um muçulmano nascido em Meca. "Esta é que é a atitude que deveria ser normalíssima entre pessoas de diferentes religiões. Tenho um excelente relacionamento com o senhor Kaaki, uma joia de pessoa, e posso dizer que ele adora Fátima", destaca António Pereira, dando um exemplo da boa relação entre ambos: "Há pouco tempo fui operado aos olhos e ele disse-me que ia rezar por mim."

Apesar de Abdulmouti Kaaki se deslocar poucas vezes a Portugal, duas ou três por ano, de acordo com Yasser ben Hamida, o diretor-geral para o futebol, o investidor saudita "acompanha com toda a atenção e interesse o trajeto desportivo do clube, sendo provável que consiga vir assistir ao jogo com o Louletano". Também ele muçulmano, o tunisino Yasser garante que nunca teve problemas em Fátima e sublinha que esta boa convivência entre diferentes religiões "é um excelente contributo do clube para a promoção da paz". Yasser ben Hamida revela que o ambicioso projeto "é colocar o Fátima na I Liga em cinco anos, ou seja, até 2020". O presidente António Pereira acredita que tal seja possível, mas confessa não ter a certeza "se o clube tem dimensão para o escalão principal".

E será que os jogadores do Fátima têm mais fair-play por terem um padre presidente? "Tento incutir-lhes esses valores e penso que tenho tido sucesso. Claro que nem sempre tudo corre como queríamos, há umas semanas um adepto nosso empurrou um árbitro, ato com o qual nada tivemos que ver e do qual pedimos desculpa", disse.

Antigo jogador do Fátima, António Pereira foi o primeiro padre federado em Portugal, no ano de 1970. "Tinha muita força mas pouca técnica e era insuperável no jogo aéreo", revela este adepto portista, muito desiludido com a época dos dragões, nos quais deteta "falta de convicção e um atrofiamento que impede que os jogadores desenvolvam as suas capacidades plenas".

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