Alerta! A revolução tecnológica está a chegar (atrasada) aos clubes portugueses

Startup portuguesa EmJogo desenvolveu ferramentas digitais ao nível da gestão e já auxilia cerca de 350 clubes. Sports Alliance parte do cadastro digital do adepto para criar uma base de dados preciosa para as marcas. Mercado avaliado em 11 mil milhões de euros.

A revolução tecnológica só agora está a chegar à gestão desportiva e há portugueses na linha da frente a oferecer soluções digitais. A startup portuguesa EmJogo fornece ferramentas que agilizam o trabalho repetitivo e burocrático, enquanto a Sports Alliance aposta numa inovadora relação a três, entre clube, adepto e marcas como forma extra de receita. Dois exemplos de uma vasta oferta num mercado avaliado em cerca de 11 mil milhões de euros e com um crescimento estimado de 70% até 2027.

A inglesa Sports Alliance tem Nuno Mena como territory manager em Portugal, Espanha e América Latina, e espera ajudar "a tirar o futebol português de um atraso de 20 anos". Como? Colocando o adepto a interagir com o clube remotamente ao cadastrar-se no site ou a descarregar a app (aplicação digital) do clube. Com base nas preferências, o adepto é categorizado numa base de dados para usufruto do clube e que pode ser preciosa para os parceiros comerciais. Tudo obedecendo ao RGPD (regime geral da proteção de dados) e com base em quatro pilares: "Ter dados, ter ferramentas digitais, ter conteúdo e ter uma estratégia." Segundo Nuno Mena, "se os clubes os usarem o crescimento será brutal".

De acordo com o mesmo responsável, os clubes têm dados, mas "o conteúdo, apesar de infinito, é mal aproveitado". E dá um exemplo: "Vi um jogo do FC Porto em que o Pepe fez uma falta sobre um jogador adversário e a publicidade que estava atrás daquela imagem repetida vezes sem conta era "Hospital da Luz". É um conteúdo precioso. Podia ter sido usada para recomendar uma ida ao hospital da Luz em caso de lesão, etc."

Outro exemplo: "A informação do GPS que os jogadores usam nos treinos pode ser usada de três formas: para análise do desempenho do atleta, para fornecer empresas de estatísticas ou para estabelecer um novo canal de receita numa relação com adeptos, num quiz nas redes sociais, por exemplo, mas os clubes só os usam para o fim mais básico, a análise de desempenho."

O que leva Nuno Mena a dizer que "o mercado português consome futebol, mas a entrega do produto não é boa" e, por isso, "quem consome hoje são os mesmos de há 20 anos. Chegar ao adepto consumidor através da televisão já é coisa do "antigamente". O futuro está em direcionar as ofertas conforme o perfil e otimizar. E no caso da Sports Alliance são 600 milhões de registos, que inclui mais de 60% da Premier League, 50% do Championship, a quase totalidade das ligas belga, neerlandesa e espanhola. Em Portugal, além do pioneiro V. Guimarães, trabalham com o Rio Ave e a Liga Portugal.

"Os clubes esqueceram-se dos adeptos que não cabem num estádio. Não houve capacidade para se adaptarem à transformação digital que aconteceu a nível mundial. Estamos 20 anos atrasados."

Esta relação a três pretende ser duradoura e assenta na lógica do dar e receber e num estudo rigoroso sobre aparelhos mais usados e a que horas. "Quem está registado e compra um bilhete para um jogo pode receber uma mensagem a dizer: "está na hora de ir para o estádio, tens aqui um desconto para usar num Uber", enquanto outro adepto, em casa, recebe um desconto para encomendar comida no Uber Eats enquanto assiste ao jogo na televisão". O mesmo clube, ofertas comerciais diferentes...

Ser adepto é diferente de ser sócio. E na opinião de Nuno Mena "é preciso equilíbrio" entre essas duas figuras: "Os clubes preocuparam-se em manter os sócios, mas esqueceram os adeptos que não cabem num estádio. Não houve capacidade para se adaptarem à transformação digital que aconteceu a nível mundial. Estamos 20 anos atrasados em relação a Inglaterra e a pandemia mostrou isso. Sem adeptos nos estádios, as receitas caíram a pique."

O potencial de cliente "é imensamente maior" do que a quantidade de sócios que o clube tem. Mesmo no caso de clubes que têm 80% do estádio sempre vendido como o Barcelona, que tem três milhões de usuários e um potencial de 300 milhões - ter apenas 1% de cadastrados, levou a Spotify, que dará nome ao novo Camp Nou e patrocinará todas as equipas, a reduzir o valor do contrato de forma justificada, gerando um "prejuízo brutal", na ordem dos milhões.

A parte analítica, com recurso à inteligência artificial (AI), é outro campo a explorar: "Num grupo de quatro amigos, um não renova a box anual. Qual a probabilidade de os outros também o fazerem? Fizemos vários testes e dá sempre acima dos 85%. Essa é a margem de risco. Cativando um, cativas quatro." A AI é um dos segredos do sucesso do Liverpool de Klopp, que em 2017 se associou à DeepMind para perceber padrões. A presença em três finais da Champions em cinco anos (perdeu a desta época frente ao Real Madrid) é revelador da importância dessa ligação do futebol com a tecnologia.

Para o português da Sports Alliance, "a literacia digital pode ajudar a diminuir o fosso entre grandes e pequenos". Foi o que aconteceu na liga belga, na liga neerlandesa e na liga espanhola - em três anos passou dos 600 mil para os cinco milhões de cadastrados à boleia de Messi e Ronaldo. A Liga Portugal é um dos 140 clientes que a empresa, sediada em Londres, tem em 10 países, mas "sofre" com três entraves: "Além de não ter Messi e Ronaldo, ainda não tem os direitos televisivos centralizados e tem um modelo de governação que limita muito as ações, embora a final four da Taça da Liga dê para perceber o potencial."

EmJogo moderniza o tradicional

Para modernizar e digitalizar um universo onde ainda proliferam alguns dinossauros clubísticos e presidentes do antigamente, que dão umas horas ao clube nos intervalos da vida pessoal e profissional, é preciso derrubar "algumas barreiras", como o receio de ataques informáticos tão em voga, segundo Gil Guilherme, fundador e CEO da EmJogo. "Foi preciso mostrar que era possível dar-lhes tempo, automatizando processos e tornando-os mais eficientes, libertando-os de tarefas repetitivas que lhes roubavam muito tempo. Com esta melhor forma de trabalhar, têm mais resultados. Além de que uma plataforma digital é mais segura que um dossiê em papel que qualquer pode abrir e ver", defendeu o antigo consultor informático.

A paixão pelo desporto levou-o a criar uma ferramenta digital de trabalho para cada um executar a sua tarefa, como a gestão dos sócios, as receitas, as despesas ou o funcionamento das equipas de formação de forma ágil e automatizada.

"Foi preciso mostrar [aos dirigentes] que era possível dar-lhes tempo, automatizando processos e tornando-os mais eficientes, libertando-os de tarefas repetitivas que lhes roubavam muito tempo."

É possível carregar calendários de jogos e resultados no site dos clubes sem ser preciso alguém os estar a meter um a um. Isso facilita e agiliza o processo e também o pode tornar mais transparente, na opinião de Gil Guilherme. Como? "Um clube queria gerir 500 sócios. Perguntei quantos eram pagantes e ele respondeu 500 de um total de mil e explicou que a pessoa que estava encarregue de ir à casa dos sócios pedir o pagamento já não estava no clube e eles não tinham forma de chegar a essas pessoas para pagarem e por isso tiraram-nas da lista. O clube perdeu 500 sócios nesse processo, quando podia ter um programa de alertas, pagar as quotas à distância, etc. Isto de forma automatizada e sem estar uma pessoa a enviar 500 mails".

A EmJogo propõe um bater à porta digital, que serve também para a cobrança de mensalidades dos miúdos, num país com 11066 clubes (dados de 2020) e cerca de 250 mil atletas nos escalões de formação. "Hoje em dia um jogador começa a jogar com quatro ou cinco anos, sendo que um clube pode ter centenas de miúdos filiados e é aqui que a EmJogo entra e ajuda na gestão destas centenas de jogadores e do trabalho que está à volta deles, como, por exemplo, preparar o agendamento das mensalidades para a época desportiva e, em caso de falha no pagamento no dia marcado, é disparado automaticamente um alerta", explicou o CEO.

Na sua carteira de clientes, a startup tem já cerca de 350 clubes desportivos de diversas modalidades - futsal, futebol, basquetebol, andebol, râguebi, etc - e criou um modelo de negócio que reflete a realidade portuguesa: "Temos do mais local e amador possível até alguns históricos da I Liga. Cerca de 90% dos clubes têm o futebol como principal modalidade, mas trabalhamos com qualquer uma. Sabemos que os recursos não abundam e um clube local não tem as mesmas necessidades de um clube a nível nacional. Por isso temos vários pacotes."

A inovação tecnológica ao serviço do desporto ganhou impulso na última década, mas centrou-se no treino, scouting e no futebol. VAR e GPS fazem parte do léxico "futebolês" mais corriqueiro. Ter um drone a captar o treino e mostrá-lo em tempo real num tablet é banalíssimo e as aplicações de planificação de treinos e jogos abre todo um universo de escolhas, como a Sport Analytics celebrizada pelo Bayern Munique e a ex-portuguesa Videobserver, que ajudou Rui Vitória, então no V. Guimarães, a derrotar o Benfica na final da Taça de Portugal em 2013, ao identificar uma falha nos movimentos de Luisão e Matic. Nove anos depois de ter ajuda tecnológica para vencer o primeiro troféu, o clube minhoto está outra vez na linha da frente no uso da tecnologia com o sistema da Sports Alliance há dois anos.

isaura.almeida@dn.pt

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