A fome de títulos contra a máquina de fazer dinheiro dos Glazer

Adeptos querem recuperar valores do clube e o sucesso desportivo. Estão contra a gestão que prioriza as receitas, que cresceram mais de 500 milhões desde 2005.

Quando os Glazers compraram o Manchester United em 2005, prometeram honrar o lema dos adeptos do clube - United way of life (United, uma forma de vida) -, mas priorizaram o negócio em vez do futebol e transformaram o clube inglês numa máquina de fazer dinheiro que não agrada aos fãs ávidos de títulos.

A entrada dos red devils no grupo dos 12 fundadores da polémica Superliga acordou a contestação reprimida dos adeptos, que nunca aceitaram a venda do clube à família norte-americana. A invasão de campo, no domingo, antes do jogo do United com o Liverpool, que podia dar o título ao rival Manchester City, revela uma posição extremada nunca vista e coloca os donos numa situação delicada.

Em Inglaterra já se fala que os irmãos Glazer estão fartos e aceitariam vender o clube por 4,5 mil milhões de euros. Um valor que só enfurece os adeptos... por ser quase cinco vezes superior ao investido por Malcolm Glazer em 2005, quando comprou a parte que pertencia aos empresários Michael Knighton e Rupert Murdoch por 909 milhões de euros. Com a morte do magnata em 2014, o filho Avram herdou a gestão.

Donos de uma fortuna atual estimada pela Forbes em 3,9 mil milhões de dólares (dados de 2015), a família controla a First Allied Corporation (dona de centenas de centros comerciais nos EUA) e tem negócios nos setores de alimentação, embalagem, saúde, banca, gás natural, internet, ações, desporto, etc. Começaram com 51%, mas agora a família Glazer é dona de 90% do Manchester United. Prometeram ouvir os adeptos e até congelaram o preço dos bilhetes por nove anos, mas rapidamente colocaram o lucro no topo das prioridades.

Além de garantirem a permanência do técnico Alex Ferguson - que tentava recuperar o título perdido para o Chelsea de Mourinho - e do então CEO da equipe, David Gill, todas as outras decisões andaram à volta do dinheiro. Em 2005/06 investiram no aumento da capacidade do estádio Old Trafford (agora obsoleto e a precisar de obras), além de assinarem um lucrativo contrato de patrocínio com a seguradora norte-americana AIG (80, 8 milhões de euros por quatro anos).

Seguiram-se algumas medidas importantes e polémicas, que tornaram o United numa máquina de fazer dinheiro, como a entrada na Bolsa de Valores de Nova York em 2011 e os contratos de patrocínio nunca vistos no futebol com a Adidas (1, 9 mil milhões por dez anos) e Chevrolet (75 milhões por época desde 2014 até 2021).

A verdade é que quando os novos donos chegaram a Old Trafford, os red devils já eram o segundo clube mais rico do futebol mundial - agora são o 4.º -, mas os valores de então nem se comparam com os atuais. A receita do United aumentou de 191 milhões de euros para um recorde de 722 milhões em 2018-19 (antes da pandemia). Já a dívida é hoje de quase 500 milhões de euros.

Os adeptos acusam-nos de "desviarem o United da rota triunfal nos últimos 15 anos" e de só querem "saber das receitas recordes", enquanto eles querem é "ganhar títulos".

A oposição faz-se sentir por grupos de adeptos como o Manchester United Supporters Trust (MUST), que sempre optou pelo diálogo, mas que radicalizou os protestos após a entrada do clube na fundação da Superliga há duas semanas, o que conduziu à invasão de Olf Trafford e ao adiamento do jogo com o Liverpool (ainda sem nova data marcada). O clube promete punir os invasores, mas as faixas a dizer "Glazers Out" (Glazers Rua) tiveram repercussão nas redes sociais e a hashtag #GlazersOut tornou-se trending topic no Twitter.

Habituados a festejar, os adeptos foram assistindo ao declínio de uma era, acentuado com a saída de David Gill e, principalmente, de Alex Ferguson, ao fim de 26 anos (em 2013). A chegada de Ed Woodward à cadeira do poder traduziu-se em milhões gastos em contratações que deixaram muito a desejar.

Uma Liga Europa (com José Mourinho) e duas Taças de Inglaterra (uma com Mourinho e outra com Louis van Gaal) sabem a pouco para os adeptos, que desde 2013 não sabem o que é ser campeão da Premier League. O United havia vencido oito vezes em 13 anos antes da chegada dos Glazers.

Os adeptos também não apreciam as ligações de Ed Glazer (um dos seis irmãos) a Donald Trump.

Bechkam ajudou luta dos fãs

Tehsin Nayani foi porta voz da família Glazer no Manchester United durante seis anos (2009-2015) e quando saiu expôs discussões internas, tumultos e ódio no interior da família no livro The Glazer Gatekeeper. Uma das histórias do livro diz respeito a uma vitória memorável do United: a goleada ao AC Milan (4-0) no Estádio Old Trafford em 2010.

A ganhar por 3-0, a alegria virou um motim simbólico contra os donos, com os adeptos a acenarem lenços verdes e dourados, as cores do clube à data da formação, em 1878. E quando David Beckham se dirigia para os balneários um dos lenços foi jogado na direção do ídolo red devil e antigo capitão, que o apanhou e colocou ao pescoço levando os adeptos ao delírio para embaraço dos donos.

O então assessor conta que Avram Glazer se apressou a ligar ao irmão Joel contando que o "o movimento verde e dourado acabara de encontrar seu garoto-propaganda" e preparando-o para a repercussão que o gesto de Beckham tinha tido.

isaura.almeida@dn.pt

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