Yellowjackets: estas raparigas só querem sobreviver

Um acidente de avião e o que se seguiu a esse evento trágico numa vasta floresta são o ponto de partida para o retrato das sobreviventes, 25 anos depois. Entre o terror psicológico e o drama, a série Yellowjackets é material valioso para um excelente ensemble de atrizes. Estreia-se hoje na HBO Portugal.

Uma rapariga em pânico a correr descalça por entre as árvores de uma floresta coberta de neve, ao som de uivos estranhos que ecoam nas montanhas. É com este início de respiração acelerada que Yellowjackets nos atira para dentro de uma memória obscura - um flashback de choque. A fuga, essa, não termina bem: assim que a respiração da vítima é interrompida pela queda numa armadilha, vislumbra-se uma figura encapuzada, com vestes tribais onde espreitam umas sapatilhas All Star cor-de-rosa, e percebe-se que o perigo não tinha nada de sobrenatural. Por aqui se define uma série - a nova aquisição do catálogo da HBO - que mexe com os instintos básicos do espectador, antes de trabalhar o calibre das respostas. Ao longo dos 10 episódios da (viciante) primeira temporada, essas respostas chegam com assumida demora, porque mais do que a interrogação sobre "o que se passou", são os perfis de quatro mulheres, quatro sobreviventes, que prendem a nossa atenção.

Sobreviventes de quê? Começa por ser de um acidente de avião. O título Yellowjackets refere-se à equipa feminina de futebol de um liceu de Nova Jersey que ficou presa no meio do nada, na sequência da queda do avião que a transportava para uma competição nacional, em 1996 - vale a pena esclarecer também que "yellowjacket" é o nome de uma espécie de vespa particularmente agressiva, cujo símbolo se vê no equipamento do grupo, funcionando em analogia com O Deus das Moscas, romance de William Golding. A série criada por Ashley Lyle e Bart Nickerson intercala esse ano do acontecimento trágico, em que as sobreviventes aguentaram meses na natureza selvagem, antes de serem resgatadas (demasiado tempo, mesmo para "campeãs"), e 2021, quando se torna palpável a ameaça de vir ao de cima a verdade sobre o que terá mantido vivas as quatro protagonistas.

Falamos de Shauna (Melanie Lynskey), que sob a aparência macia de uma simples dona de casa esconde um impulso transgressor, visível quando esfola um coelho ou engana o marido; Taissa (Tawny Cypress), candidata a senadora estadual, que posa para a fotografia com a sua família perfeita mas oculta práticas noturnas que lhe terão ficado da experiência inóspita; Natalie (Juliette Lewis), um ser que responde à vulnerabilidade emocional com drogas e armas; e Misty (Christina Ricci), que em adolescente parecia a mais inofensiva do grupo, mas cuja libertação de certos traços patológicos a tornaram, em adulta, uma enfermeira comicamente sádica. Entre elas, os laços fortes da vivência que partilharam, e que ninguém se atreve a pôr em palavras, vão-se restabelecer em função de alguns sinais perturbadores do presente.

À medida que vamos conhecendo, em pistas paralelas, o que se passou nas primeiras semanas após o acidente e o modo como, 25 anos depois, elas lidam com os traumas pessoais, Yellowjackets revela uma providencial mistura de géneros (história de sobrevivência, coming of age, drama familiar, terror), sem nunca cair numa ginástica vazia entre o gore indefinido do passado e as atribulações da linha temporal mais próxima. A consistência da série, e a sua capacidade de envolver o espectador sem recorrer a truques frívolos de suspense, está sobretudo num elenco feminino admirável que concretiza a expressão de continuidade entre as duas linhas de tempo, com jovens atrizes que nos mais ínfimos aspetos se correspondem com a versão adulta das suas personagens. Dir-se-ia que é uma equação perfeita.

Para além da referência de O Deus das Moscas, é normal que a circunstância de Yellowjackets nos recorde filmes como Estamos Vivos (1993), de Frank Marshall, baseado na história verídica de uma equipa de râguebi que, na sequência de um acidente de avião e da demora do resgate, pondera alimentar-se da carne dos mortos, e, mais do que qualquer outra, a série Perdidos. Mas onde a tendência para a imitação de uma fórmula poderia ditar o fôlego de cada episódio, Yellowjackets cresce em psicologia e complexidade humana, confiando o seu ritmo e tensão aos "jogos" individuais de Shauna/Lynskey, Taissa/Cypress, Natalie/Lewis e Misty/Ricci, qualquer uma delas a alimentar a curiosidade em torno dos seus fantasmas - uma curiosidade mais íntima do que mórbida. Não é por acaso que chegamos ao último episódio da primeira temporada menos interessados na exatidão dos seus atos secretos do que nos moldes imperfeitos destas personalidades, que de resto ainda têm muito para dar numa próxima fase.

"Sempre fomos estas pessoas", ouve-se dizer a certa altura. Um desabafo que encerra uma questão válida: foi aquela experiência extrema que fez delas as pessoas que são hoje ou apenas aguçou inclinações naturais? A única certeza é que ninguém aqui faz coisas bonitas, e não é por isso que deixa de ser digna de empatia. Com uma escrita capaz de equilibrar a tonalidade dupla da narrativa, dentro do seu próprio cruzamento de géneros, Yellowjackets será dos melhores exemplos recentes de séries que desbravam a estranheza com ousadia, para fazer respirar o drama, não deixando de acenar àquilo que desafia a racionalidade. A sobrevivência tem muito que se lhe diga, e ainda mais no feminino.

dnot@dn.pt

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