Uma volta ao Alentejo da música, do património e da paisagem

Nascido em 2003, o Festival Terras sem Sombra começou por "casar" a música erudita com a riqueza do património edificado do Alentejo litoral e interior. Com uma programação que já inclui a sensibilização para a biodiversidade e a História, vai na 17ª edição e nem a pandemia o interrompeu. Este fim de semana passou por Santiago do Cacém.

No princípio era a música, de preferência nas igrejas históricas do Alentejo. Depois, o foco passou a incidir também sobre a biodiversidade, a paisagem e o património edificado. Fundado em 2003, o Festival Terras sem Sombra vai já na sua 17.ª edição e a sua proposta anual é dar a volta ao Alentejo litoral e interior, tendo por "metas volantes" (como nas provas de ciclismo) municípios particularmente ricos quer em património artístico e histórico, quer em biodiversidade.

Este fim-de-semana, depois de já ter passado este ano por Barrancos, Alter do Chão e Arraiolos, o Terras sem Sombra parou em Santiago do Cacém. No Auditório António Chainho, a soprano Carla Caramujo e o maestro João Paulo Santos (no piano) interpretaram obras de Darius Milhaud, Lili Boulanger e Olivier Messiaen. "O fio condutor que as une - disse ao DN João Paulo Santos - é a ressurreição, tanto individual (amorosa, por exemplo) como religiosa, muito presente em Messiaen, que é o grande compositor católico do princípio do século XX." Quanto à escolha do tema foi a que lhe pareceu mais adequada à obscuridade dos tempos que vivemos, "sobretudo num concerto intimista como este, em que ainda lidamos com limitações no número de espetadores e de intérpretes em palco."

Mas se as restrições em vigor impedem que concertos como este, ao contrário do que aconteceu em edições anteriores do Terras sem Sombra, sejam também ocasiões para apreciar livremente a riqueza das igrejas alentejanas, nem por isso se descurou a vertente patrimonial. Em Santiago do Cacém, a arqueóloga Manuela de Deus guiou os visitantes pelas ruínas da cidade romana de Miróbriga, cuja importância está patente em complexos como o das antigas termas (um dos mais completos no seu género em toda a Península Ibérica), nas artérias comerciais ou ainda nos vestígios de um hipódromo de alguma dimensão. Tudo tão identificável que, se por um instante fecharmos os olhos, quase que podemos ouvir o barulho dos carros de transporte na calçada ou o latim sem retórica dos donos destas lojas. No entanto, como adverte Manuela de Deus, apesar de Miróbriga ser conhecida desde o século XVIII, ainda são muitos os segredos por desvendar.

Numa paisagem que talvez não seja muito diferente da conhecida por estes romanos dados a banhos termais, os participantes neste fim-de-semana em Santiago de Cacém visitaram o chamado Pinhal do Concellho, no âmbito da visita de salvaguarda da biodiversidade incluída na programação. Área com 215 hectares, entre a serra e o Atlântico, este local começou a atrair a atenção dos agentes económicos a partir do século XIX, quando foi iniciado o plantio do pinhal com sementes provenientes de Leiria, a que se juntaria mais tarde o sobreiral e, por inerência, a produção de cortiça. Não se pense, todavia, que estes dados da Agronomia são incompatíveis com a imaginação. Em terra de lendas e contadores de histórias, José António Falcão, diretor do Terras sem Sombra, evoca a sua infância, aqui mesmo em Santiago do Cacém, quando este pinhal estava envolto numa aura de escândalo e mistério.

Fora da sua época habitual (a Primavera) devido às restrições sanitárias, o Terras sem Sombra prosseguirá estrada fora. Na próxima paragem (a 31 de julho e 1 de agosto), Castelo de Vide, haverá um concerto do Utopía Ensemble na Igreja Matriz de Santa Maria de Deveza, um passeio pela vila judaica orientada por Carolino Tapadejo e uma caminhada pela serra de São Mamede. Para além disso, haverá ações de cidadania orientadas para o público infanto-juvenil (na nova Casa Salgueiro Maia) e um concerto do Guitolão Trio no Museu de Póvoa e Meadas. Seguir-se-ão Beja (7 e 8 de agosto), Sines (21 e 22 de agosto) e, a encerrar, Ferreira do Alentejo (4 e 5 de setembro).

Mais do que um festival, diz José António Falcão, esta espécie de volta cultural ao Alentejo "é uma temporada de música que não se restringe a um só espaço e instituição". Mas 17 anos de atividade ininterrupta acrescentaram à música erudita nas suas várias vertentes (antiga, clássica e contemporânea) outros horizontes, saberes e até sabores, já que a gastronomia é, como não podia deixar de ser no Alentejo, parte essencial da programação.

Com um público fiel conquistado ao longo de todos estes anos, a que se soma outro mais circunstancial em função dos lugares visitados, o diretor admite "ter saudades dos muitos amigos estrangeiros, sobretudo espanhóis, que a pandemia impediu de estar connosco." O fundamental, no entanto, é prosseguir viagem, sempre atentos às mudanças bruscas de direção, quase semanalmente ditadas pelas autoridades sanitárias. "São tempos duros", nota José António Falcão, "mas a arte também serve para os suavizar."

dnot@dn.pt

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