Uma galeria para mostrar os artistas africanos em Lisboa

A espanhola Janire Bilbao abriu a primeira galeria comercial em Luanda em 2017 e agora traz a Movart para Lisboa. A primeira exposição é do angolano Ihosvanny.

Foi a primeira galeria de arte comercial em Luanda. Agora, chega a Lisboa. A Movart é uma galeria de arte que trabalha sobretudo com artistas africanos. Depois de uma primeira amostra em setembro, com uma seleção de obras de vários criadores, a galeria continua a desafiar a pandemia de covid-19 e as oscilações do mercado para fazer a sua inauguração oficial este sábado com uma exposição de Ihosvanny, artista angolano de 44 anos.

No rés-do-chão de um prédio projetado pelo arquiteto Carrilho da Graça, a poucos metros do Jardim das Amoreiras, com uma porta aberta para a rua João Penha e outra aberta para o pátio traseiro, irão depois ser expostas obras de António Ole (em dezembro) e de Rita GT (em março). A galerista Janire Bilbao conta os planos com entusiasmo: "Sim, abrir uma galeria no meio de uma pandemia é um risco, mas nós começámos do nada, com a crise do petróleo em Angola, por isso estamos habituados a crises", diz, determinada. "Temos muita vontade de fazer com que resulte."

Janire Bilbao, espanhola, de 38 anos, estudou Direito e trabalhou como jornalista e em agências de comunicação. Em 2011 mudou-se para Angola, onde fazia publirreportagens que depois eram publicadas no The New York Times, na Economist e noutros meios para dar a conhecer o país a possíveis investidores. Foi assim que ficou não só a conhecer o país como muitos artistas. "Eram do meu círculo de amigos, todos nascidos após a independência. Com eles descobri uma outra realidade, através das suas obras vi a situação social e política de Angola de uma perspetiva diferente. Percebi que tinham muita dificuldade em expor o seu trabalho e começámos a pensar em fazer exposições", conta.

Janire sempre gostou de arte, estava habituada a ver exposições, mas nunca tinha pensado em trabalhar nesta área. Decidiu arriscar. Em 2015, esteve em Nova Iorque, fez um pequeno curso na Sotheby's, visitou feiras, tentou perceber o que estava a acontecer no meio artístico. "Percebi que havia muito por fazer na arte contemporânea sobretudo nos países de língua portuguesa. Os artistas não só angolanos mas dos outros países de língua portuguesa não tinham a mesma representação quer em museus, quer em feiras e galerias como os artistas de outras partes do continente africano."

Surgiram os primeiros projetos pop-up, exposições no Instituto Camões de Luanda e noutros locais da cidade, mais ou menos institucionais. A galeria Movart, a primeira galeria de arte comercial a abrir em Angola, foi inaugurada em 2017, na Marginal de Luanda. "Abrir uma galeria é como abrir uma empresa. Tem uma parte administrativa que é preciso tratar. E depois tem a parte criativa, que é aquela de que eu mais gosto. Eu não crio nada, não sou eu que digo ao artista o que é que ele deve fazer", explica a galerista. A criatividade está na gestão da carreira, na decisão sobre as exposições a fazer e os eventos em que cada artista participa.

Atualmente a Movart representa sete artistas: Ihosvanny, Keyezua, Kwame Sousa, Mário Macilau, Rita GT, Thó Simoes e (o mais veterano de todos) António Ole. "A relação com os artistas é uma relação de amor. É muita próxima e pessoal, tem momentos bons e maus", explica Janire Bilbao. "A vida de artista é dura. Para que o artista possa pintar tem de comer, e muitas vezes tem de dar comida a outras pessoas. São poucos os artistas que conseguem vingar." E, para isso acontecer, percebeu rapidamente, era necessário internacionalizar estes criadores.

"Apesar de a receção do público ser muito boa, não havia muitos colecionadores nem museus e instituições que queiram investir na arte. E, depois, a crise em Angola intensificou-se. Foi aí que decidimos sair, apostar no mercado internacional. E foi a melhor decisão que tomámos. Descobrimos que tínhamos um grande trabalho a fazer para mostrar estes artistas a nível internacional mas que era possível. Em 2017 fomos à 1-54, em Nova Iorque e depois em Londres, que é uma feira dedicada à arte africana. Desde então, vemos que há um interesse muito grande na arte africana e somos convidados para muitas feiras. Já fomos à Frieze de Nova Iorque, à Basel de Miami, à Arco Madrid..."

Em 2018, a Movart veio à Arco Lisboa e Janire Bilbao confirmou aquilo que já suspeitava: que fazia sentido abrir a galeria em Portugal. A isso juntou-se uma gravidez e a preocupação crescente com a situação política e económica em Angola. "Tudo isso ajudou a dar o salto", admite. "Estamos a fazer um esforço muito grande para manter a galeria em Luanda. Seria importante para acompanhar os artistas locais. E tínhamos muitos projetos para crescer, queríamos levar lá artistas estrangeiros, sobretudo dos outros Palop, para fazer parcerias. Mas a situação em Angola está mesmo muito complicada", admite.

Para a Movarte, Lisboa representa a abertura à Europa e ao resto do mundo. Claro que a covid-19 veio alterar um pouco os planos de Janire Bilbao, mas ela sabe que toda a parte comercial é muito mais fácil em Portugal. "Ainda não abri e já tive mais visitas de colecionadores aqui, não só portugueses mas do resto da Europa, do que tive em Luanda", conta.

Olhar o céu para além das grades

Ihosvanny (Angel Ihosvanny Cisneros), de 44 anos, nasceu no Moxico, em Angola, mas já morou em Cuba, em Portugal e em França. Há quase dez anos mudou-se para Barcelona, em Espanha. "Sempre desenhei, sempre pintei. Era a minha forma de expressão. Mas profissionalmente só comecei em 2005", conta. "Durante a guerra, a arte não era uma prioridade em Angola. O importante era sobreviver. A arte era uma prática utilizada pelo sistema para fazer propaganda política. A minha era uma arte de resistência, pintava as minhas cenas para dizer o que pensava. Depois, por causa de problemas com os materiais convencionais (a tela, as tintas) que faltam muitas vezes em Angola, tive de procurar outras opções e fui estendendo a outros meios, faço instalações, fotografia, vídeo."

Em Luanda, trabalhou com outros artistas da sua geração - Nástio Mosquito, Kiluanji Kia Henda, Yonamine "Havia uma grande energia. Foi um momento muito importante para a arte angolana. Infelizmente as condições económicas do país não conseguiram acompanhar esse ímpeto."

Há uns anos começou a trabalhar sobre a paisagem urbana e a periferia de Luanda, os musseques - não só pela necessidade de sentir Luanda, mas também porque depois de longas temporadas fora da cidade, quando voltava havia sempre mudanças. "Pintar a cidade era uma forma de acompanhar essas mudanças e, também, refletir sobre o rumo que vamos levando, que a cidade vai tendo arquitetonicamente falando, o que estamos construindo para o futuro", explicou.

Ihosvanny tem participado em exposições individuais, coletivas e feiras de arte em diversos países. Já expôs, por exemplo, no Museu Judaico de Nova iorque (EUA, 2014), no Museu de Arte da Moderna da Bahia (Brasil, 2012), a 11ª Bienal de Havana (Cuba, 2012) na Trienal de Luanda (Angola, 2010, 2007) e no Pavilhão Africano na 52ª Bienal de Veneza (Itália, 2007). O seu trabalho está representado em várias coleções institucionais e privadas, entre elas a Fundação Sindika Dokolo, Fundação Elipse e Fundação PLMJ.

Na Movart, apresenta a exposição Air Ihova, com obras criadas durante uma residência que Ihosvanny realizou ao longo do último mês no espaço Mono, em Lisboa. Propôs-se "olhar o céu como um espaço de liberdade, uma possibilidade de respirar. Neste momento, com estas restrições que vivemos, questionamo-nos de que forma podemos interagir e ser livres na sociedade? Procurei estruturas arquitetónicas que nos fazem ver a paisagem através de grades, que para mim representam de uma certa forma a prisão que pode ser viver na cidade." E, apesar de ter resultado de um trabalho em residência ao longo de um mês em Lisboa, este trabalho não é especificamente sobre Lisboa. "Resulta da minha experiência de Lisboa, mas não só. São estruturas que criam divisões, interior/exterior, aqui podes passar/aqui não. Mas que remetem também para as barreiras invisíveis que existem."

No sábado, dia de inauguração Ihosvanny vai estar a criar um mural no pátio da Movart.

Air Ihova, de Ihosvanny
na Movart
Rua João Penha, 14A R/C , Lisboa
Até 10 de dezembro
De terça a sexta das 14.00 às 18.30, aos sábados das 14.00 às 19.00
Ou por marcação em qualquer outro horário
Lotação do espaço: 5 pessoas
Entrada livre

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