Um Nobel para Zanzibar que toca o colonialismo e a vida de refugiado

Aos 73 anos, o tanzaniano Abdulrazak Gurnah viu o seu trabalho reconhecido por "abrir os olhos para uma África Oriental culturalmente diversa e pouco conhecida".

Foi na cozinha da sua casa no sudeste de Inglaterra que Abdulrazak Gurnah recebeu o telefonema da Academia Sueca a avisá-lo que era o vencedor do Nobel da Literatura 2021. "Achei que era uma brincadeira", contou pouco depois ao site da Fundação Nobel. "Estas coisas andam geralmente a pairar durante semanas... por isso não era coisa que me passasse pela cabeça", garantiu o escritor tanzaniano.

Distinguido "pela sua perceção descomprometida e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino dos refugiados no espaço entre culturas e continentes", Gurnah nasceu (em 1948) e cresceu em Zanzibar, a ilha que os portugueses visitaram pela primeira vez por volta de 150 e que fez parte do sultanato de Omã durante dois séculos, antes de, em 1890, se tornar num protetorado britânico. Independente em 1963, no ano seguinte uniu-se ao Tanganica para formar a Tanzânia.

Após a libertação pacífica do domínio colonial britânico, Zanzibar passou por uma revolução que, sob a liderança de Abeid Karume, levou à opressão e perseguição de cidadãos de origem árabe, e à ocorrência de massacres.

Aos 18 anos, Gurnah foi um dos milhares que tiveram de fugir, escolhendo como destino a Inglaterra para escapar às perseguições de que a comunidade árabe foi alvo - com o número de mortos a variar entre as "centenas" e os 20 mil, dependendo das fontes, e muitos milhares a optar pelo exílio.

Em 2001, num artigo publicado no The Guardian, Gurnah descreveu a sua experiência: "Eu não subi para um ferry, nem me escondi debaixo de um comboio para entrar em Inglaterra. O meu irmão e eu chegámos num voo da Sabena e fomos cortesmente interrogados por um agente da imigração. Tínhamos 400 libras entre os dois e fomos aceites com vistos de turistas. As 400 libras eram para pagar a nossa educação, ou pelo menos era o que estupidamente achávamos".

Só em 1984 lhe foi possível regressar a Zanzibar, o que ainda lhe permitiu ver o pai pouco antes de este morrer.

Segundo a Academia Sueca, "a dedicação de Gurnah à verdade e a sua aversão à simplificação são impressionantes. Isto pode torná-lo sombrio e intransigente, ao mesmo tempo que segue os destinos dos indivíduos com grande compaixão e compromisso inflexível". O seu trabalho afasta-se das "descrições estereotipadas e abre os olhos para uma África Oriental culturalmente diversa e pouco conhecida em muitas partes do mundo".

Pode dizer-se portanto que este é um Nobel muito mais entregue a Zanzibar do que à Tanzânia como um todo. Mesmo se vários jornais internacionais destacavam ontem a decisão do Comité Nobel de entregar o prémio a um africano - apenas o quinto em 120 anos de história dos Nobel. E o primeiro africano negro desde o nigeriano Wole Soyinka em 1986. Mesmo se entretanto foram distinguidos o egípcio Naguib Mahfouz (1988) e os sul-africanos Nadine Gordimer (1991) e J. M. Coetzee (2003).

Até se reformar, recentemente, Gurnah foi professor de Literaturas Inglesas e Pós-coloniais na Universidade de Kent, na Cantuária, concentrando-se principalmente em escritores como Soyinka, Ngugi wa Thiong"o e Salman Rushdie.

Começou a escrever quando tinha 21 anos, já no exílio, e embora o swaili fosse a sua primeira língua, o inglês tornou-se a sua ferramenta literária.

Quase sem acesso à literatura em swaili enquanto crianças, Gurnah começou cedo a ler poesia árabe e persa, com As Mil e Uma Noites a serem uma das suas primeiras fontes de inspiração, assim como as suras do Alcorão. Mas também foi beber à tradição inglesa, desde Shakespeare a V.S. Naipaul.

Na sua obra, Gurnah rompe conscientemente com a convenção, alterando a perspetiva colonial, para destacar a das populações indígenas. O tema da perturbação dos refugiados atravessa todo o seu trabalho. A escrita de Gurnah é do seu tempo no exílio, mas diz respeito à sua relação com o lugar que abandonou, demonstrando a importância vital da memória para a génese da sua obra.

Autor de obras como Paradise (1994) - situado na África Oriental colonial durante a I Guerra Mundial e que fez parte da short-list do Booker - e Afterlives (2020), em Portugal, o novo Nobel tem apenas um livro editado, Junto ao Mar, pela Difel, em 2003 e que tem como narrador Saleh Omar, um velho requerente de asilo que vive numa cidade costeira de Inglaterra.

"As personagens deslocadas de Gurnah, em Inglaterra ou no continente africano, encontram-se entre culturas e continentes, entre a vida deixada para trás e a que está por vir, enfrentam racismo e preconceito, mas também obrigam-se a silenciar a verdade ou a reinventar uma biografia para evitar um confronto com a realidade", afirmou a Academia Sueca para justificar a sua escolha.

Ontem, ao saber-se vencedor do prémio, Gurnah deixou o apelo à Europa para mudar a sua visão sobre os refugiados de África e a crise migratória. "Muitas destas pessoas que vêm, vêm por necessidade, e também, francamente, porque têm algo para dar. Não vêm de mãos vazias", disse, em entrevista à Fundação Nobel.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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