U2 em Lisboa. A noite em que os "rapazes simples de Dublin" concretizaram sonhos

Primeira data dos irlandeses em Portugal após oito anos de ausência foi feita de sucesso

Pouco passava das 21:20 quando os U2 tornaram realidade o sonho da pequena Maria, de 9 anos. "Olá Bono e U2. Eu acredito nos meus sonhos e este é o meu grande sonho. Adoro-vos", lia-se numa pequena folha A4 escrita pela menina que, nas bochechas, também trazia o nome da banda. Veio do Porto com pai, Manuel Alves, preparado para o seu terceiro concerto dos irlandeses, depois de Alvalade e Coimbra. "São a minha banda de juventude, para mim a melhor do mundo. Tenho tudo deles. E ela [Maria] foi contagiada", contou o homem de 49 anos.

"Estou em pulgas, desde pequenina que ouço e é uma das minhas bandas preferidas. Queria muito vir, era um dos meus sonhos. Vejo vídeos com o meu pai", explicou Maria. "Queria dar esta folha a um segurança para entregar à banda, mas não sei...", acrescentou.

Pouco depois, sumiram as luzes da Altice Arena, acendeu-se o corredor/mega ecrã que ligava o palco "normal" a um outro redondo, pequeno, no meio do público, e que suportou toda a parte visual do concerto. Tocaram em fundo a mais recente "Love Is All We Have Left" e a jovem adulta Zooropa (que dá nome ao disco de 93) e seguiram-se imagens de várias cidades europeias destruídas, por altura da II Guerra Mundial. Lisboa não ficou de fora, com imagens, neste caso, de 1926. Ouviram-se explosões, Charlie Chaplin apareceu com um discurso de "O Grande Ditador", de 1945 e nos ecrãs tanto apareciam palavras como "mentiroso", como caras conhecidas, Putin, Trump e Kim Jong-un, entre outros.

Grande parte da multidão puxa dos telemóveis e Bono grita "Lisboa". Estava dado o pontapé de saída, com "The Blackout", oito anos depois. No centro do corredor, ladeados pelos ecrãs, começaram a ver-se de forma intermitente os U2: Bono, Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. Os ecrãs sobem, Bono fica no corredor, agora bem visível, e a banda vai para o palco. Segue-se "Lights Of Home".

E foi com o clássico "I Will Follow", no primeiro e dos melhores e mais agitados momentos da noite, que se percebeu exatamente ao que vinha toda a gente, quer a banda, quer o público, que se mostrou (e assim o foi durante cerca de 2:15 horas) completamente à disposição do que os U2 tinham para oferecer. Depois de "Red Flag Day" surge "Beautiful Day e, antes de um momento intimista em "The Ocean" e "Iris" (nome da mãe de Bono, falecida quando ele era adolescente), o vocalista dos U2 agradeceu. "Esta noite é sobre quatro rapazes simples de Dublin tornados extraordinários pela música e pelo público. Obrigado por esta vida".

"Cedarwood Road" traz um dos momentos de espetáculo mais gratificantes do concerto, com Bono no já subido caminho entre ecrãs, onde imagens davam ideia de um passeio na rua. Segue-se a icónica "Sunday Bloody Sunday", com toda a banda de regresso ao caminho entre os dois palcos, e o baterista Larry Mullen Jr. apenas de tarola à cintura, marcando conhecido o ritmo militar. E já os ecrãs mostravam imagens alusivas à violência vivida nas Irlandas. "Medo e raiva são a mesma coisa", gritou Bono antes de "Until the End of the World".

Uma BD projetada que abordava ascensão, queda e redenção, com os membros da banda como personagens, chamou as atenções durante as mudanças para o pequeno e redondo palco no centro da sala. A história e os desenhos aludiam muito, ou não fosse esta a "Experience + Innocence Tour", a experiência e inocência, palavras recorrentes na boca de Bono ao longo do concerto.

"Elevation" e "Vertigo" tornam a fazer pular a plateia antes de se lançarem ao momento em que tudo "subiu à cabeça da banda" que, a dada altura, Bono apelidou de "melhor banda de rock do norte de Dublin". "You're the Best Thing About Me" aparece antes de "Acrobat" e de Bono ser digitalmente pintado nos ecrãs gigantes com cara demoníaca, falando de fascismo, dos fascistas espalhados pela Europa ("em França estão sempre a mudar de nome e em Itália são muitos nomes"). Conclui o diabo irlandês: "Quando não acreditam em mim é quando eu existo".

Sossegam os ânimos com um momento acústico em "You're the Best Thing About Me" e "Summer of Love", só com Bono e Edge. "Nos anos 90. tivemos uma fase experimental, mas a maior experiência foi ter família estar numa banda", contextualizou o cantor sobre o momento do espetáculo. Em "Pride (In The Name of Love)", Edge aparece em cima de um cubo no meio das pessoas, e o baixista Adam Clayton também. Noutro momento avassalador de comunhão, Bono atira uma das frases mais aplaudidas da noite: "Recusamo-nos a odiar, porque sabemos que o amor fará um melhor trabalho". No momento pro-Europa, já no final do corpo do concerto, ouvem-se "Get Out Of Your Own Way", com imensas bandeiras europeias a desfilarem no ecrã, e em "New Year's Day" Bono e o público aplaudem a bandeira europeia. "Deus abençoe Eusébio, Cristiano Ronaldo, António Guterres...", desejou o mestre-de-cerimónias irlandês. Toca o Hino da Alegria, hino da União Europeia, e a falsa despedida dá-se ao som da super iluminada "City of Blinding Lights".

Depois, o momento dedicado ao público feminino. Ao som de "Women of the World", de Jim O'Rourke, a banda regressa a palco e Bono lembra que "as coisas acontecem quando as pessoas se organizam" e promete que é o último momento em que fala, o que lhe é totalmente permitido pelo "seu" público. E garante que tem ganho "inocência e da experiência". "Aprendi que é OK depender de outros e é OK para mim ser 1/4 do artista que sou sem eles [banda]. E sou 1/2 homem sem a minha companheira Ally", diz, antes de lançar "One", que foi obviamente assaltada totalmente pelo público no primeiro refrão.

Bono volta atrás com a palavra para falar um pouco de português, num momento que teve igual dose de simpatia como de impercetibilidade. Segue-se "Love Is Bigger Than Anything in Its Way" e a verdadeira despedida, ao som de "13 (There is a Light)" e com Edge ao piano.

No fim de tudo, não foi a música ou quantidade de mensagens políticas. Na dose certa, da primeira data dos U2 em Portugal em oito anos (esta segunda-feira há mais) fica o registo de um espetáculo irrepreensível, sustentado na comunhão entre banda e público.

Um detalhe infeliz? Maria não entregou a sua folha a ninguém. Não que tenha feito grande mossa. À saída, ainda na ressaca da concretização do sonho, Maria soprava em esforço antes de dizer: "Estou toda partida de saltar em cima da cadeira. Foi muito para além do que estava à espera."

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