Tim Bernardes, a dor sob a forma de bonitas canções

O músico e cantor brasileiro está de regresso a Portugal para uma digressão de seis datas, ainda com base no aclamado disco de estreia a solo, Recomeçar

Os elogios de Caetano Veloso, "uma maravilha de afinação, controle da dinâmica, refinamento, execução instrumental e liberdade na elegância do uso do palco e da luz", apenas confirmaram o que Tim Bernardes há muito já vinha provando em O Terno, o grupo iniciado com "os melhores amigos" há cerca de dez anos, era ainda adolescente. Juntos gravaram três discos (um quarto está a caminho), que os transformaram numa das maiores promessas da nova geração da música popular brasileira. Seria no entanto a solo, com o álbum de estreia em nome próprio Recomeçar, que Tim Bernardes alcançaria o Olimpo da MPB.

Considerado um dos melhores discos de 2017, seria apenas no ano seguinte que o apresentaria pela primeira vez em Portugal, com dois concertos lotados em poucas horas na Galeria ZDB, em Lisboa, onde teria início uma verdadeira relação de amor do artista paulista com o público nacional. Regressou, nesse mesmo ano, para concertos em Lisboa, Setúbal ou Espinho e novamente no outono para outra apresentação na capital, no festival Super Bock em Stock. Está agora de volta para uma primeira grande digressão de seis datas em Portugal, com passagem por Loulé, Lisboa, Santarém, Aveiro, Porto e Braga.

Qual é a sua explicação para esta relação de amor do público português com a sua música, que se iniciou logo aquando dos seus primeiros concertos aqui, em junho do ano passado, na ZDB?

Não sei, porque não fazia ideia de como iria ser a reação à minha música e portanto não esperava ser tão bem recebido como fui. Sabia, isso sim, que o público português é muito atento ao que se vai fazendo no Brasil e isso é muito importante. Já cá tinha estado antes com o Terno, o meu grupo, e reparei que as pessoas sabiam as músicas, no entanto, a ligação com o Recomeçar, o meu disco a solo, foi ainda mais forte. Esses meus primeiros concertos em Lisboa esgotaram muito rápido, mesmo sem qualquer promoção do disco por cá. Foi uma surpresa muito boa, por ser algo tão espontâneo por parte do público. E na hora que comecei a tocar parecia que estava no Brasil, onde o público já me conhece há muito mais tempo, com toda a gente a cantar as músicas do princípio ao fim. Fiquei muito contente e logo com uma imensa vontade de voltar, porque estava toda a gente muito sintonizada no mesmo.

Esse concerto da ZDB foi de facto muito emocional para todos os que assistiram, acredita que isso se deve ao lado mais pessoal das canções de Recomeçar?

Sim, talvez, mas essa é uma explicação que serve tanto para o Brasil como para Portugal. Talvez por falar de coisas muito íntimas de uma maneira muito próxima, este disco torna-se muito relacionável para os outros, que se reveem nas situações narradas, apesar das mesmas serem muito pessoais. No fundo trata-se daquele tipo de música que eu também gosto, quando oiço outros artistas, que cada um consegue encaixar na sua própria vida. Já muita gente me disse isso, que o disco tinha tudo a ver com elas e com os momentos que estavam a viver. Quando encaixamos uma música de forma tão forte nas nossas vidas, a relação com o artista que a fez torna-se também muito mais forte e vai muito além da novidade ou de qualquer tipo de moda. Passa a haver uma relação sentimental e é isso que eu tenho sentido em relação a este disco.

No fundo, essas canções deixam de ser suas, apesar de tão pessoais. Como é que se sente com isso?

Gosto bastante, aliás esse é o grande barato desta profissão, querer e poder mostrar as músicas a outras pessoas. Podia simplesmente escrevê-las e não as mostrar a ninguém, o que até foi meio o caso deste disco, porque as canções começaram a ser compostas alguns anos antes de serem lançadas. Durante muito tempo foram só minhas, apenas as mostrei a alguns amigos. Mas quando finalmente lancei estas músicas, que nasceram de uma solidão pessoal e as vejo a comunicar com outras pessoas, fica uma sensação muito boa.

Em que sentido?

No sentido em que uma dor se transforma apenas numa canção bonita, que outras pessoas tornam também delas. No fundo, essa situação difícil, que me levou a fazer a música, torna-se simplesmente em algo que eu gosto de cantar.

E consegue esquecer as razões que o levaram a escrever tal música?

Eu me lembro, mas de uma forma que já é quase uma forma de gratidão. É muito bom conseguir cantar no banho uma canção que antes era apenas tristeza e me fazia chorar (risos). Mas enfim, cantar é sempre uma alegria...

Como é que faz a gestão entre a carreira a solo e a atividade com O Terno, o seu grupo desde há anos e no qual é também o principal compositor?

Isso é algo que eu estou a aprender na prática, agora. Na relação com outros meninos da banda foi tudo muito tranquilo, porque sempre tivemos muitos projetos paralelos, eles até mais que eu. E eles também sempre souberam que eu tinha estas músicas, porque não só somos companheiros de banda como somos os melhores amigos.

Eles nunca quiseram roubar alguma dessas músicas para a banda?

Uma ou outra, sim, acabaram por ser integradas no nosso repertório. Mas mesmo assim sempre me incentivaram a continuar com este projeto a solo. Aliás, a ideia foi sempre essa, de conciliar esses dois lados. E essa alternância tem sido muito boa, porque depois de tanto tempo a trabalhar em grupo, soube-me muito bem passar algum tempo a compor sozinho, que é talvez o mais natural para mim, como entretanto descobri.

E como é andar agora sozinho em digressão, depois de dez anos na estrada com os seus melhores amigos?

Isso é a pior parte (risos). Quando estamos em tour, costumo dividir o quarto com o Biel, o baterista, com quem converso muito, estamos sempre a fazer piadas. E sozinho é diferente. Quando tenho tempo, como vai acontecer cá, procuro alguns amigos na cidade e saio um bocadinho mais. Na verdade também é bom, porque esse tempo que passo sozinho obriga-me a pensar um pouco mais na minha vida, até nas entrevistas que dou, como esta, agora.

Como é que se sentiu com os elogios do Caetano Veloso ou ao ouvir a Gal Costa a cantar uma canção sua?

Foi uma sensação incrível, não só por serem os maiores, mas especialmente porque sempre os considerei os meus grandes professores. A minha formação musical tem muito a ver com o que o Caetano, o Gil e a Gal fizeram durante o Tropicalismo, que é de facto o período que mais gosto da MPB. Ouvir o Caetano a falar de mim da maneira que falou ou ter a Gal a gravar uma canção minha, deixou-me pendurado no lustre, como se diz no Brasil. É o máximo, porque o Caetano tem uma obra tão profunda, e as palavras dele, de alguma forma, permitiram à música da minha geração ser finalmente colocada na mesma prateleira deles. Sempre senti que nos anos 80 se criou uma espécie de fosso entre esses nomes e aquilo que surgiu depois, especialmente durante as décadas de 90 e 2000. Nessa altura, parecia que a música brasileira estava a perder de vez esse lado mais autoral e de tradição cancioneira, que foi sempre a minha grande inspiração. Ter conseguido ganhar esse espaço, que hoje me permite ser gravado pela Gal é algo que me enche de orgulho.

Considera que hoje essa nova vaga, "mais autoral", como disse, já existe, de facto, na nova música popular brasileira?

Sim, porque nos últimos dez, quinze anos, o autoral deixou de ser uma mera tentativa e passou a ser algo muito mais concreto. Há muita gente da minha idade que não só conseguiu conquistar mais público, com esse lado autoral, como também está a ficar muito mais amadurecida, em termos artísticos.

Sente isso no seu público, por exemplo, que há uma maior abertura para esse tipo de música mais autoral?

Sem dúvida, apesar de também sentir que grande parte do meu público cresceu junto comigo e com O Terno, que foi uma banda iniciado quando ainda éramos todos adolescentes. E o meu disco a solo, que trata de temas tão universais para toda a gente, com dor e solidão, conseguiu ser ainda mais abrangente e sair do nicho, seja ele estético ou apenas etário. Os meus shows a solo no Brasil já têm um público muito variado em termos de idades, até porque as questões que abordo não se limitam apenas a uma determinada fase da vida.

Por alguma coisa se diz que o amor é eterno.

E o desamor também, tal como as mudanças que daí advêm. De tempo a tempo, tudo se transforma em algo diferente.

Por falar em mudanças, como é que analisa a atual situação política brasileira? Acha que os artistas devem tomar posição, numa época tão extremada?

É uma situação para a qual ainda não existe um protocolo sobre como lidar com ela, muito embora o Brasil já tenha passado por outras situações em que a política se fechou de forma muito retrógrada. Como aconteceu durante a ditadura, com reflexos ao nível da própria música. Sinto que se instalou uma onde de conservadorismo muito forte, mas isso não acontece só no Brasil. Mas passou a ser um assunto vigente no dia-a-dia e, pelo menos para mim, é a partir daí que poderá chegar também à música. Há um tema no Recomeçar, chamado Tanto Faz, que tem um pouco a ver com isso. Na altura, não era intenção minha fazer uma canção política, mas apenas falar das coisas que estava a sentir. Quanto a ter um papel ou um dever, sinto que a maioria dos artistas ainda estão numa situação de observadores, alguns a tentar perceber o que podem fazer, outros já a querer fazer, mas tudo é muito confuso. A política no Brasil já, por si só, confusa de entender e existem muitos receios em torno deste novo governo, porque tem muitos traços não democráticos, apesar de ter sido eleito democraticamente.

E onde é que se situa o Tim Bernardes no meio disso?

Também ainda estou a observar, a tentar perceber o que são simples retrocessos e o que já pode começar a ferir os princípios mais básicos da democracia e dos direitos humanos. Houve alguns retrocessos, mas ainda não houve um ataque direto à democracia e tomara que isso nunca chegue a acontecer. Também não podemos ser muito alarmistas, a falar sempre de ditadura, sob o risco de ainda estarmos a dar alguma ideia ao cara. Talvez seja só mesmo um governo muito ruim.

Cine-Teatro Louletano, Loulé. 18 de setembro, quarta 21h30. €14
CCB, Lisboa. 19 de setembro, quinta 21h. €15 a €30
Teatro Sá da Bandeira, Santarém. 20 de setembro, sexta 21h30. €15
Teatro Aveirense, Aveiro. 22 de setembro, dom 21h30. €15
Casa da Música, Porto. 23 de setembro, seg 21h30. €23
Theatro Circo, Braga. 25 de setembro, qua 21h30. €15

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