"Tenho a certeza absoluta de que a minha missão aqui é transmitir o fado"

É apontada como a nova grande voz do fado. Tem 25 anos e canta há 15. O seu disco tem o seu nome porque, explica, "tenho ali a minha alma portanto não poderia chamar-se outra coisa. É Sara Correia."

"Isso é acessório. A minha verdadeira aparência e a minha verdadeira roupa é aquilo que eu tenho aqui." Sara Correia aponta para a garganta, e continua: "É aquilo com que Deus me vestiu." A conversa com aquela que é apontada como a nova grande voz do fado começa pela aparência. Afinal, ela está à nossa frente vestida "à civil", tal como surge na capa do seu disco.

Dizemos "à civil" porque se trata de alguém que desde os 3 anos frequenta casas de fado, e desde os 12 que canta nelas. E quem diria que é fadista olhando para a capa do seu álbum homónimo? Mas oiçam-na cantar: Sara Correia é fadista, nascida e criada no fado e nas suas casas, a que chama a sua igreja.

'Olhe, posso cantar um fadinho?' Tinha 9, 10 anos.

Nasceu há 25 anos, cresceu em Chelas. Um dia disseram-lhe que havia por ali uma escola de fado. Tinha "9, 10 anos". Apareceu lá. Tratava-se do Clube Lisboa Amigos do Fado, de Armando Machado. "'Olhe, posso cantar um fadinho?' E ele disse: 'Anda lá cantar um fadinho. Deixa ver se tens jeito ou não.' Tinha 9, 10 anos. A minha mãe trabalhava até muito tarde, então eu acabava a escola e ou ia brincar com as minhas colegas ou ia para casa cantar."

Sara Correia explica que naquela altura o clube era muito diferente do que é hoje. "Aquilo é uma arrecadação de um prédio. Naquela altura era só em cimento. Nós cantávamos e aquilo fazia eco. Hoje não. Tem cadeiras e as pessoas vão lá. É outra coisa. Toda a gente passou por ali. Ângelo Freire [guitarra portuguesa no seu disco] e Pedro Soares, que tocam para a Ana Moura, o Ricardo Ribeiro..." Também Fernando Maurício, conhecido popularmente como "o rei do fado", por ali passara.

"Ninguém nos ensina a cantar o fado. Íamos lá aprender a tirar tons, a dividir as letras, cantar as vírgulas...", explica. Tudo o resto aprende-se na vida e muito nas casas de fado. Sara Correia começou a frequentá-las cedo por causa da sua tia, a fadista Joana Correia. Mas foi depois de vencer a Grande Noite do Fado em 2007 que, ainda miúda, percebeu que seria essa a sua vida e começou a cantar nelas, em casas como a Mesa de Frades ou a Bacalhau de Molho.

Perguntamos-lhe como se cresce ali. "Eu costumo dizer que Deus deu-nos duas orelhas e uma boca. É verdade, não é? E a minha sempre me deu na cabeça por causa disso. Estando com estes fadistas eu só tinha de ouvir e ponto final. Trabalhei ao lado da dona Celeste Rodrigues, da dona Maria da Nazaré, da dona Cidália Moreira, do Jorge Fernando... Tive uma escola incrível."

Admite que naquele contexto se "cresce um bocadinho mais depressa" do que é costume. Afinal, a noite tem uma carga própria e, além disso, os fados são o que são e não há de ser indiferente crescer a ouvir as histórias de que ele também é feito.

Há muita coisa que eu quero cantar e sei que ainda não é altura.

"Também saí muitas vezes a chorar das casas de fado, porque nós temos de aprender. Às vezes não era fácil. Para já porque era menina, às vezes ficava sentida, mas fez-me muito bem porque fez-me ter maturidade para fazer este disco."

É sempre de aprendizagem que se trata, e ainda hoje. A fadista explica: "Claro que é preciso ter maturidade para se cantar o fado, e ainda tenho de ganhar muito mais, porque há muita coisa que eu quero cantar e sei que ainda não é altura. Há letras que tem de se viver um bocadinho mais na vida para compreendê-las, para cantá-las como elas são."

Conta que uma vez a convidaram, ainda mais nova, para cantar o Grito de Amália Rodrigues (ela diz sempre "da dona Amália"). "Eu não tinha aquele arcaboiço. Por mais que consiga cantar aquilo, é muito importante o facto de saber se aquilo que eu estou a cantar se passa ou passou na vida ou se se identifica comigo. Quando comecei a cantar novinha não fui logo cantar o Fado Português, por exemplo. Comecei pelas coisas mais catitas, coisas que eram para a minha idade. É assim que as coisas funcionam no mundo do fado."

"Queria deixar alguma coisa minha no mundo"

Tudo isto até chegarmos a Sara Correia. Já não ela, mas o seu disco homónimo e, admite, "o principal dos sonhos". "Eu disse ao Diogo [Clemente, produtor do disco que a acompanha na viola] que queria gravar um disco. Sabia que não era naquele ano, mas [disse-lhe] que queria desenvolver esta parte mais artística de fazer um disco e deixar alguma coisa minha no mundo, deixar qualquer coisa cá. Então começámos a trabalhar e levou três anos."

O disco abre justamente com Fado Português, que muitos reconhecerão na voz de Amália, com música de Alain Oulman e letra de José Régio, em que nos aparece esse "marinheiro que, estando triste, cantava". Muitos dos temas são escritos por Diogo Clemente para fados tradicionais. Sou a Casa ou Agora o Tempo são dois dos momentos mais fortes.

Os músicos que ali a rodeiam conhecem-na, cresceram com ela. Sara Correia conta que ainda no outro dia pediu umas "quadrinhas" a Ângelo Freire e elas surgiram na hora. "O principal dos meus sonhos era gravar um disco e gravá-lo com as pessoas com quem gravei, os músicos que mais admiro no fado. Sem eles eu não cantava nem metade. Eles são a minha base, são a minha casa."

Perguntamos-lhe porque deu o seu nome ao disco. "Tenho ali a minha alma portanto não poderia chamar-se outra coisa. Não lhe vou chamar outra coisa. É Sara Correia. Este é o meu disco. Tenho a certeza absoluta de que a minha missão aqui é transmitir o fado. É isso que quero deixar as pessoas. Esta geração nova devia ouvir mais, e é aí que eu quero chegar, é tentar puxar mais pessoas para cá."

As respostas de Sara Correia parecem sair sempre do que lhe está à flor da pele. Como acontece a cantar. Conta que "às vezes quando estamos mais tristes e achamos que não vai correr bem é quando acontece o fado. Não me perguntes porquê. É uma emoção que sentimos naquela altura. Já aconteceu ter de parar de cantar com vontade de chorar. Eu já canto há 15 anos e já me aconteceu muita coisa. Já aconteceu sermos muitos a chorar."

Continua a cantar na casa de fado, com certeza. Agora fá-lo no Páteo de Alfama. "As casas de fado são os únicos sítios onde podemos fazer o que quisermos. Eu posso chegar ali e cantar um fado que nunca cantei na vida. É uma entrega total. Nas casas de fado é onde existe e acontece realmente fado. Não me vejo sem ir a uma casa de fados e sem cantar numa casa de fados."

Nunca fez outra coisa senão cantar. Quer dizer, acrescenta, "trabalhei sempre em casas de fado, portanto percebo alguma coisa de hotelaria. Muitas vezes ajudava. Eu é que queria ajudar. Quantas vezes não limpei talheres... As coisas acontecem naturalmente. E ainda bem. Isso é que é fado."

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