"Surdina" é um filme feito "com o humor de um vimaranense"

Ao filmar "Surdina", Rodrigo Areias procurou as personagens e os sinais de um mundo que conhece bem, o Centro Histórico de Guimarães, a cidade onde nasceu: para ele, era fundamental contrariar qualquer ponto de vista exótico.

O título do novo filme de Rodrigo Areias, Surdina, sugere algo de musical. De tal modo que, depois de uma sessão de estreia com música ao vivo no cinema Trindade (Porto), a sua difusão envolve mais três cine-concertos com a banda sonora a ser interpretada pelo seu autor, Tó Trips (Guimarães, Lisboa e Aveiro, nos dias 10, 15 e 16, respetivamente). Mas há também uma musicalidade dos afetos, lugares e personagens que são indissociáveis das vivências da cidade de Guimarães e, em particular, do seu Centro Histórico.

O argumento de Surdina resultou do trabalho com um escritor, Valter Hugo Mãe. De que modo essa colaboração marcou os resultados?

Marcou, sem dúvida, desde logo porque mudou o meu modo habitual de trabalho. Mesmo quando tive outras pessoas a escrever, o ponto de partida era habitualmente mais visual ou narrativo, por exemplo arquitetónico ou mesmo de homenagem a um género cinematográfico... Aqui, o filme foi mais pensado a partir do argumento, isto é, depois do argumento. Tudo começou quando li O Remorso de Baltazar Serapião, de Valter Hugo Mãe - gostei muito do livro e decidi contactá-lo, falando-lhe da possibilidade de fazermos um projeto conjunto. E ele respondeu-me que tinha estado na projeção do meu Corrente, no Curtas Vila do Conde, em 2008, quando o filme venceu a competição nacional e o prémio do público: tinha gostado muito e aceitava o convite.

Como é que os cenários de Guimarães se integraram no filme?

O Valter veio a Guimarães para visitar a "Casa do Arco", onde vive a personagem do Isaque, um edifício icónico do Centro Histórico da cidade que muitas pessoas conhecem apenas por fora.

De onde provém esse valor icónico?

Tem a ver com o facto de ser muito reproduzida: é uma casa especial porque tem uma parte que está suspensa sobre uma das ruas principais do Centro Histórico. Aliás, há vários filmes de época feitos naquela zona, franceses, ingleses, até mesmo japoneses. Além do mais, o interior está muito ligado à minha infância: frequentei-a com regularidade e fiquei marcado por aquelas pinturas, o ambiente antigo... O Valter pega muito bem nisso, falando do mofo, do cheirar a velho. Depois, ele levou-me à freguesia de São Cristóvão de Selho, de onde é a sua família materna e paterna; na verdade, quando o convidei nem sabia que éramos os dois de Guimarães - a história acabou por abarcar os dois universos, o meu do centro da cidade, o dele dos arredores.

Há reminiscências dessa infância no filme?

Sim, sem dúvida. Há, sobretudo, uma galeria de pessoas que são não-atores (e como tal se apresentam), também elas simbólicas do Centro Histórico - é o caso das duas vizinhas alcoviteiras.

A história do Isaque será também ela típica do Centro Histórico, porventura de algum romanesco daquelas casas e ruas?

Creio que o filme reflete, sobretudo, uma certa claustrofobia dos meios pequenos. Toda a gente sabe da vida de toda a gente e, neste caso, deparamos com um homem que prefere viver uma mentira do que confrontar-se com a verdade - e vive 20 anos dessa maneira... Ora, em vez de nos conduzir a tal situação, o filme arranca com essa premissa, o que me pareceu uma opção muito interessante no trabalho do Valter.

Ao mesmo tempo, parece haver a procura de alguma distanciação, algum humor. Até que ponto o filme foi também pensado como uma comédia, ou uma comédia dramática?

As cenas de que mais gosto, e que me fazem sempre rir, são as que se passam com os dois amigos do Isaque (António Durães). Aquela cumplicidade é muito característica desta cidade, inclusive na utilização do palavrão. Há mesmo uma naturalidade quotidiana no palavrão: faz perto de um ritmo da fala, tem mais a ver com a forma do que com o conteúdo. Não quero repetir os palavrões [riso]... mas é como uma pontuação - há palavrões que são vírgulas, outros são pontos finais.

Será que isso aproxima Surdina de alguns outros filmes portugueses?

Creio que sim. Não será propriamente aquilo que se costuma chamar uma comédia popular, mas não deixa de ser uma comédia de costumes. Há aqui um território muito particular que, para mim, corresponde a algo que eu represento com naturalidade - sou daqui, moro aqui, parece-me ser uma realidade e uma cultura que merecem ser tratadas, mostradas como são e não reduzidas a um ponto de vista exótico. Não olho para mim como se estivesse no jardim zoológico: olho para mim e para os meus com a naturalidade de viver aqui, de respeitar aquelas pessoas e elas me dizerem alguma coisa. Com o humor de um vimaranense.

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