Stereoboy lança disco marcial para combater a quarentena

O alter-ego musical de Luís Salgado, Stereoboy, apresentou o novo disco Kung-Fu, um trabalho conceptual de "quatro andamentos", inspirado pelos antigos mestres desta arte marcial-

"São mesmo mestres reais", que "realmente existiram e muito influenciaram esta arte marcial", sublinha Stereoboy ao DN, ao explicar os títulos das quatros longas faixas instrumentais que compõem o álbum Kung-Fu, o novo trabalho do alter-ego musical de Luís Salgado. Também conhecido por ser o programador do espaço Maus Hábitos, no Porto, e também o curador do festival itinerante Super Nova, o Salgado, como é simplesmente conhecido, é também músico desde a pré-história das "bandas de garagem realmente metidas em garagens", muito embora projeto de eletrónica experimental (um rótulo bastante redutor, como se comprova na organicidade quase rock deste novo disco) a que deu o nome Stereoboy, pouco tenha a ver com esses tempos.

Kung-Fu é o quarto registo que assina enquanto Stereoboy e tal como os discos anteriores também tem um conceito, neste caso a milenar arte marcial do kung-fu, apesar do plano inicial ser precisamente o contrário, ou seja, não ter qualquer conceito. "Todos os meus trabalhos anteriores eram muito conceptuais, um foi dedicado ao Porto ou outro às mulheres e agora queria mudar um pouco essa técnica de ter um conceito inicial e só depois, a partir dele, surgir a criação", conta. O objetivo, continua, passava por "fazer ao contrário", isto é, "deixar a música surgir em primeiro lugar, sem estar preocupado com o conceito".

E assim aconteceu, até finalmente começar a trabalhar com os músicos em estúdio. O culpado da mudança de rumo foi o baterista João Pimenta, também membro da banda 10 000 Russos, que durante os ensaios adaptou à bateria um módulo com samplers de filmes antigos de artes marciais. "Cada vez que ele tocava ouvia-se um grito ou um golpe", recorda Stereoboy e foi assim que surgiu o conceito de um álbum que "não o deveria ter e acabou por se tornar super-conceptual", diz com humor.

A primeira faixa foi assim batizada de Yip Man, em homenagem ao lendário mestre chinês que ensinou Bruce Lee. "Foi a partir dele que cheguei aos outros três, todos eles mestres lendários de Kung-Fu", diz Salgado, que chegou a praticar artes marciais "há muitos anos" e se calhar, "também por isso, tudo isto acaba por fazer algum sentido".

Adiadas para data incerta, devido à pandemia, ficaram as duas apresentações do disco ao vivo já agendadas, tal como a futura digressão e algumas atuações em festivais também já marcadas. Aliás, não foram só os concertos a ser adiados, mas própria vida própria vida profissional de Luís Salgado, que além da música se dedica também a áreas como a publicidade, o cinema ou a dança contemporânea. "Trabalhamos com tudo o que agora não se pode fazer hoje em dia, que é juntar as pessoas e pô-las a conviver socialmente. O Maus Hábitos perdeu tudo o que tinha agendado até ao verão e agora estamos a funcionar em lay-off, como toda a gente, apesar de uma pequena minoria da equipa continuar a produzir conteúdos digitais, como o podcast Hábitos de Quarentena e um calendário de programação online".

Um trabalho que ainda assim é mais feito a pensar no público e não tanto em quem o produz: "Tudo isto é bonito, mas não dá qualquer retorno financeiro para aquilo que é mais básico, como pagar a renda ou comprar comida. A maior parte das pessoas ligadas à cultura trabalhava a recibo verde e está agora aflita, porque é uma área em que se vive mês a mês".

Por agora, desabafa, "pouco há a fazer, a não ser esperar" por melhores dias. "Há dois caminhos possíveis, ou corre bem e dentro de dois meses, devagarinho, voltamos a uma certa normalidade, talvez com eventos de rua, onde poderá ser menos perigoso. Ou corre muito mal e continuamos assim durante muito mais tempo e não haverá outra solução senão passar a cobrar pelos conteúdos online, o que também implicará um aumento da qualidade do produto oferecido e aí também já se podem envolver os técnicos", analisa.

Já sobre as eventuais mudanças que a indústria da música e dos espetáculos possa vir a sofrer, na ressaca da pandemia, prefere não fazer futurologia: "O panorama pode mudar, ou não, mas as pessoas deste meio estão habituadas a adaptar-se a situações novas, porque a verdade é que nunca houve muito dinheiro para a cultura. Acima de tudo temos de continuar a pensar positivo, porque ainda não há certezas de nada".

Foi também por isso que decidiram manter a data de lançamento de Kung-Fu, que terá uma edição conjunta para mercado nacional e internacional, em formato vinil e digital. "Apesar de não podermos apresentar o disco ao vivo, que é o que realmente nos move enquanto músicos, não nos podemos esquecer que as pessoas estão em casa e precisam de estímulos para se distraírem e aguentarem este período de isolamento". A outra opção seria adiar a edição para outubro, correndo o risco de ser abafado por tudo o resto que vai acontecer nessa altura. Agora, pelo contrário, "há tempo e disponibilidade, por parte das pessoas, e este disco requer isso tudo, porque é uma peça em quatro andamentos, criada para ser ouvida do início ao fim. Portanto, se calhar, até foi bom ter saído agora".

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