Simone despede-se em duas palavras: "Vida e liberdade"

Simone vive e encerrou a carreira "como quis", ontem, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Não foi um espetáculo, foi um acontecimento.

"Vida e liberdade". Resumiu ao DN Simone de Oliveira o espetáculo de despedida que deu esta terça-feira no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Uma hora da sua música para desfolhar 84 anos de existência, 65 de carreira, vividos com intensidade. "Opinosa", caracterizou, assegurando que a despedida dos palcos não é a despedida da mulher.

Muita emoção e aplausos, muitas vezes de pé. Não estava nervosa mas tinha medo de quebrar e chorar. "Está difícil", disse uma ou outra vez. Aguentou quase até ao fim.. No fundo, só "quis ser feliz".

Uma despedida, de todo o tipo de palcos, embora não afaste a hipótese de voltar a cantar em público, desde que paguem, "que borlas" não faz", brincou. Isto porque Marcelo Rebelo de Sousa, que correu do Porto a Lisboa para a cumprimentar no final do espetáculo afirmou: "É mentira que seja a despedida. Não deixamos que a Simone se despeça, mais depressa nos despedimos nós, vai continuar a ser a mesma Simone de sempre. Várias vezes declararam que estava quase a despedir-se, enganaram-se. Não se despediu nesses tempos e, por mim, enquanto ele puder, e pôde até agora, não há duas sem três e terei o prazer e a honra em a condecorar pela terceira vez. Nunca é demais agradecer em nome dos portugueses, o que fez por Portugal". Prometeu convidar a artista para cantar novamente:

A cantora e atriz assegurou que era mesmo o último concerto. "Se o presidente da República pedir para cantar para ele, canto. Agora, ao fim de 65 anos, chega. Quero acabar tranquilamente, ter vida para estar com os meus filhos, os meus netos, ter tempo para estar em casa a ver o Fox Crime que adoro". Tem dois filhos e quatro netos.

O presidente da República tinha acabado de chegar a Lisboa depois de assistir ao jogo de seleção de futebol no Estádio do Dragão, no Porto.

Sim, é ela

Sim, sou eu...Simone", o nome do seu último espetáculo, uma despedida da música e da representação. Começou com o tema "Preconceito"", que considera continuar a existir, talvez "até mais", e contra o qual defendeu a união "a uma só voz".

Agradeceu a quem assistia, em especial ao presidente da autarquia de Lisboa, Carlos Moedas, e à ministra da Cultura, Graça Fonseca, que terá tido aqui a sua última participação pública enquanto governante. Situação com a qual a ministra ironizou no beberete que se seguiu ao espetáculo ao cumprimentar uma pessoa: "Olá e adeus".

O contacto mais pessoal entre Graça Fonseca e Simone de Oliveira surgiu depois da artista a criticar: "Não sabe nada de nós". A ministra telefonou-lhe e pediu-lhe para falarem sobre sobre a realidade dos artistas e da cultura..

"Termino a minha carreira nos termos em que eu quis e quero", sublinhou à entrada no palco. Estava dado o monte para o alinhamento de todo o espetáculo, com direção musical do maestro Nuno Feist, que também dirigiu a projeto em coautoria com Fátima Bernardo. A encenação e direção artística esteve a cargo de Henrique Feist.

Simone recitou Fernando Pessoa, o poema "Não sei quantas almas tenho", mais tarde José Carlos Ary dos Santos e David Mourão Ferreira, "homens livres", a quem agradeceu os poemas que cantou.

Um concerto de memórias com os olhos postos no futuro, que prevê bom dada a qualidade das vozes da atualidade, muitos deles jovens. Quebrou mais uma vez barreiras ao levar o Kamala para o Coliseu. O DJ fez uma composição a partir da "Desfolhada Portuguesa" e a voz de Simone, transformando-as numa batida que o público acompanhou com palmas.

"Há coisa melhor para um artista do que ver as suas canções reinventadas. Só espero que continuem a reinventar e assim eu renasço. Tratem-me bem", esta a forma como apresentou Kamala.

Ouviu-se o hip hop de Carlão, a reinvenção de "Sol de Inverno" por Edmundo Inácio (finalista do The Voice Portugal), canção que Simone representou Portugal pela primeira vez na Eurovisão, em 1965. "Se tivesse cantado assim não teria ficado em 12.º lugar", comentou.

O saxofonista que sempre a acompanhou, Armando Ribeiro, foi outro dos convidados. O painel completou-se na canção "Apenas o meu povo". Simone de Oliveira deu a partida e passou o poema para cantores e atores que emergiam da plateia: Henrique Feist, Ruben Madureira, FF, Sissi, Mariza Liz e Áurea, terminando em coro.

A "Desfolhada Portuguesa" encerrou o espetáculo, tinha que ser. Ainda por cima, fazia precisamente 53 ano que a cantou em Madrid, uma coincidência de que Simone teve conhecimento durante a tarde. "Como uma frase pode mudar a vida de uma pessoa", frisou.

Muitos agradecimentos pelo meio, sobretudo com quem trabalhou ao longo de 65 anos de carreira, agradecimentos retribuídos pelo público.

A quem deve essa carreira? "Devo aos poetas, aos músicos, naturalmente a algum trabalho meu, com gargalhadas e algumas lágrimas, ao povo deste país, aos jornalistas, aos fotógrafos, aos técnicos, aos que me levaram o cigarrinho, os meus uísquezinho que também gosto". E Tantos outros.

Uma carreira em tantos palcos e geografias, em tantas artes, com tantos prémios.

Cantar tirou-a da depressão

Simone de Oliveira há muito que ultrapassou as fronteiras da artista, não só pelos 65 anos de carreira, como cantora e atriz, mas pela forma como tem vivido os seus 84 anos de idade. As letras que cantou, os momentos que simbolizou, as posições que tomou, os dois cancros que superou. Uma mulher à frente do seu tempo e sem papas na língua. Ainda hoje.

Começou a cantar em 1957, com muitas dúvidas se esse seria o caminho. O que sabia é que não seria professora, como se exigia às meninas, também não tocava piano. Cantava.

"Fui cantar por causa de um problema muito complicado na minha vida, um casamento que acabou da pior forma, fiquei muito doente psicologicamente. Cantar foi uma forma de ultrapassar essa fase e os meus pais foram verdadeiramente extraordinários. Tiveram que aturar esta filha, completamente ao contrário do que havia nessa altura", contou em entrevista ao DN o ano passado, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

Fugiu da violência doméstica, o que não era suposto, agressões também em público, o que fez com que conseguisse o divórcio anos depois. Tanto tempo depois, que não pôde dar o seu nome à Eduarda e ao Pedro, filhos de "mãe incógnita" por serem o fruto da segunda união. Se o fizesse, o pai seria o primeiro marido uma vez que não estavam oficialmente divorciados.

Em 1964 inicia-se no cinema com "Canção da saudade", logo depois começa a fazer revista e, se seguida, o teatro. As telenovelas surgiram em 1977 (A Feira), nunca mais parou de representar nos vários palcos.

Em 1965, estava a representar Portugal na Eurovisão com "Sol de Inverno". Voltou a ganhar a edição portuguesa em 1969 com aquela que se tornou num hino de libertação das mulheres; a "Desfolhada. Portuguesa", em pleno Estado Novo. Deu voz à letra de Ary dos Santos "Quem faz um filho, fá-lo por gosto", com música de Nuno Nazareth Fernandes. Mas Simone não foi a primeira escolha.

"Fui a quarta escolha. As outras mulheres não a quiseram cantar por causa desse verso, uma delas foi a minha querida Madalena Iglésias", conta Simone de Oliveira.

Milhares de pessoas receberam-na na estação de Santa Apolónia quando regressou de Madrid, apesar de ter ficado menos bem classificada que da primeira prestação. Ficou em 15.º lugar.

Seguiu-se o pior período da carreira, disse ao DN: "Quando perdi a voz, foi terrível, precisava de fazer qualquer coisa. Trabalhei num escritório, também vendi bonecos. Aquela enxada tinha acabado e eu tive que arranjar outras enxadinhas".

"Enxadinhas" que passaram pelo jornalismo, rádio, locução e, até, a apresentação de espetáculos. Renasce com uma voz mais grave, o que, segundo a própria, até foi benéfico. Deixou de ser uma espécie de namoradinha de Portugal para se mostrar na mulher afirmativa que sempre foi.

ceuneves@dn.pt

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