'Roubaix, Misericórdia'. A balada de uma esquadra francesa

Longe do habitual tom romanesco, Arnaud Desplechin assina um film noir entre o espírito dos policiais de Georges Simenon e o realismo mais desolador. Roubaix, Misericórdia é uma iluminada viagem ao fim da noite. Em estreia nas salas.

As luzes natalícias que ornamentam as ruas informam-nos da época do ano. De carro, o comissário Daoud faz a ronda da noite, escutam-se ecos de violência vindos das janelas e, a certa altura, avista-se um veículo em chamas. É apenas a primeira de várias ocorrências que ocupam os membros da esquadra de Roubaix nos minutos seguintes; umas mais graves do que outras, mas, num todo, registos de caráter quotidiano numa cidade há muito desligada do seu passado de indústria têxtil e convertida numa das zonas mais pobres do Norte de França.

Esta é a terra natal de Arnaud Desplechin, um dos realizadores franceses mais "autorais" do nosso tempo, o que não significa que, por isso, seja menos irregular. Roubaix, Misericórdia é um desses objetos atípicos na sua obra e, no entanto, um exemplo perfeito da filigrana do seu humanismo.

Inspirado pelo caso de duas jovens mulheres que em 2002 cometeram um homicídio em Roubaix - e cuja investigação foi explorada num documentário televisivo de Mosco Boucault -, o filme de Desplechin parte dessa componente de fait divers para se revestir da linguagem do noir, sob a influência de dois universos. Por um lado, a atmosfera vaporosa e noturna que imediatamente se associa ao cinema do conterrâneo Jean-Pierre Melville; por outro, e no extremo oposto da lógica de Hollywood, o assumido desapego em relação à matéria do suspense, dando clara vantagem às personagens enquanto pessoas com determinado contexto social e familiar, algo muito próprio das novelas policiais de Georges Simenon.

Por essa razão, não conseguimos deixar de olhar para o comissário Daoud como uma espécie de Maigret, essa criação de Simenon que se orienta pelo método de "conhecer a vida das pessoas". Daoud cresceu em Roubaix, cidade que viu depauperar, distingue cada um dos seus habitantes, sabe pensar como eles, sonda as histórias individuais, é sempre capaz de identificar a culpa no rosto dos criminosos e está menos interessado em punir do que em "salvar" almas pelo processo libertador da confissão. Uma personalidade fascinante, que não passaria do papel sem um ator à altura de tanto carisma local, mas também universal. Enchendo todas as medidas, Roschdy Zem é o homem do filme, ator de uma arte discreta que começa no semblante de serena grandiosidade e acaba na postura de inefável nobreza, com uma lucidez à prova de bala (e, já agora, sem o exibicionismo comum dos raciocínios detetivescos).

Se numa primeira fase o filme paira sobre a dinâmica dos casos rotineiros da esquadra, ao deter-se sobre os interrogatórios a Claude (Léa Seydoux) e Marie (Sara Forestier), passa a esculpir os contornos da miséria humana com uma atenção inusitada. É no modo como Desplechin ensaia a revelação lenta da luz contida nas trevas destes seres marginalizados que as emoções aparecem sem aviso, despidas e frágeis.

E em tudo isto há qualquer coisa de "deliciosamente fora de moda", uma balada noturna, um cheiro a policial antigo arrumado na estante, que é revisitado por um novo leitor entusiasta e, ao mesmo tempo, desencantado - um pouco como o tenente novato (Antoine Reinartz) que, entre orações e introspeção ferida, tenta lidar com a paisagem estranha à sua volta. Uma paisagem que Arnaud Desplechin conhece bem, tal como o comissário, e filma com um carinho especial, dentro de um registo narrativo de exceção. Roubaix, Misericórdia está para a obra dele como La nuit du carrefour (1932) está para a de Jean Renoir.

*** Bom

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