Rostos e histórias do Butão

Um Iaque na Sala de Aula é um filme que chega de um país distante, Butão, depois de ter protagonizado uma aventura em Hollywood: foi um dos nomeados ao último Óscar de melhor filme internacional.

Eis um exemplo inesperado da surpreendente linguagem dos números, célebre, como é sabido, pela sua frieza. Assim, na história de Hollywood, países como Portugal, Egito ou Filipinas já apresentaram candidatos ao Óscar de melhor filme internacional (ex-melhor filme estrangeiro) mais de três dezenas de vezes - o certo é que nunca conseguiram uma nomeação em tal categoria. Entretanto, à segunda vez, o Butão obteve essa nomeação: foi este ano, com Um Iaque na Sala de Aula, agora lançado nas salas portuguesas.

Somos levados a pensar nos ideais de pioneiros como os irmãos Lumière. Que é como quem diz: se é verdade que o cinema tem o poder inato de nos fazer ver, literalmente, que há mais mundos para lá do espaço geográfico e cultural em que nos movemos, então não há dúvida que Um Iaque na Sala de Aula se distingue pela capacidade de nos tocar através das muitas singularidades do universo que retrata, dos seus rostos e histórias. Por uma vez, somos levados a compreender que a versão corrente (mediaticamente muito poderosa) de "globalização" é, no mínimo, um simplismo de marketing que tende a obliterar as diferenças dos lugares e dos povos.

Pawo Choyning Dorji, cineasta do Butão nascido na Índia (Darjeeling, 1983), estreia-se na realização através de um argumento, também de sua autoria, centrado na personagem do jovem Ugyen Dorji (Sherab Dorji). A sua atividade de professor está longe de o satisfazer. Após quatro anos de prática - de um total de cinco obrigatórios que o Estado determina para a respetiva formação -, alimenta o sonho de se fixar na Austrália para seguir uma carreira de... cantor. Nada feito: penalizado pelo seu comportamento errático, acaba por ser colocado numa escola de Lunana, povoação de difícil acesso na região dos Himalaias. Só mesmo a avó, invocando as suas memórias e o valor ancestral da profissão de professor, faz com que não desista.

Para os nossos olhares ocidentais, apresenta uma dimensão insólita que, em boa verdade, envolve uma peculiar sedução documental. A começar pela explicação do título. Os iaques, bois selvagens originários do Tibete, também animais de rebanho, constituem um "emblema" da região, ligado a um recurso muito específico: as suas fezes são matéria de eleição para fazer fogueiras. De tal modo que, ao receber a prenda de um iaque, Ugyen tem o cuidado de o proteger das baixíssimas temperaturas, instalando-o... na sala de aula.

De dramaturgia muito esquemática, por vezes à beira do previsível, até mesmo nas pontuações cómicas, Um Iaque na Sala de Aula acaba por possuir a dimensão universal de um pequeno e singelo conto moral. Como uma espécie de herói paradoxal, afinal sem nada de heroico, Ugyen é um ser dividido entre a idealização da sua existência e os hábitos e valores da comunidade a que pertence. Para a história, esteve nos Óscares, mas não conseguiu evitar a vitória "antecipada" do japonês Drive My Car.

dnot@dn.pt

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